Reclamar direitos é ser contra a paz.

Em fins dos anos 30, o Ocidente era extremamente tolerante com Hitler.

Principalmente pensando em evitar uma guerra mundial.

Alguns líderes também achavam que valia não brigar com um possível aliado contra o comunismo internacional.

Quando a Tchecoslováquia fortificou suas fronteiras, prevenindo-se contra uma iminente invasão alemã, Hitler protestou, afirmando que se tratava de uma provocação, que ameaçava a paz.

No afã de apaziguá-lo, os líderes da Inglaterra e da França pressionaram os tchecos para que desmontassem suas defesas.

O governo de Praga só tinha o direito e a justiça do seu lado.

Era pouco.

Teve de ceder.

E todos sabem no que deu.

Agora, os palestinos, sob ocupação de Israel, largamente condenada pela ONU e pelo Direito Internacional, pedem seu reconhecimento, não como membro da ONU o que os EUA já impediram, mas apenas como país observador não-membro. Imediatamente, o governo de Israel pulou, alegando que uma nação ocupada desejar reconhecimento da ONU, ainda que de importância menor, seria uma ameaça à paz.

Os EUA, como sempre, o secundaram.

Sua embaixadora na ONU, Susan Rice, declarou ;”Ações unilaterais, inclusive iniciativas de oferecer aos palestinos o status de país observador não membro ameaçariam o processo de paz e complicariam os esforços das partes para fazer negociações diretas.”

O próprio Presidente Obama enviou cartas aos líderes dos países europeus pedindo que o apoiassem na oposição ao pedido de reconhecimento palestino.

Oficiosamente, autoridades americanas acenaram com a possibilidade do seu governo cortar os fundos que anualmente fornecem à ONU.

Assim como já havia feito no ano passado, quando a UNESCO – agência de educação e ciências da ONU – aprovou o ingresso da Palestina.

Somando-se ao congresso americano que congelou 200 milhões de dólares de ajuda à Autoridade Palestina, quando ela propôs, também no ano passado, o reconhecimento da independência à ONU.

Enquanto Israel e os EUA condenavam as ações “unilaterais” (e perfeitamente legais) dos palestinos em prol dos seus direitos, como ameaças à paz, e os EUA faziam lobby com os países europeus, ameaçando a ONU e a Autoridade Palestina com corte de recursos, algo intrigante já vinha acontecendo.

Os ditos “esforços de Israel para fazer negociações diretas” consistiam na promoção de uma medida atrás da outra para torná-las cada vez mais difíceis, se não impossíveis.

Sua política de avanço sistemático na ocupação da Margem Oeste ia em frente implacavelmente.

Quase todos os meses comissões de investigação da ONU e de diversos movimentos de direitos humanos, inclusive israelenses, denunciavam um processo de contínua expulsão de palestinos de suas propriedades rurais, derrubadas de suas casas, desrespeitos aos direitos humanos- inclusive maus tratos a crianças, roubo de terras férteis (162 queixas) e destruição de oliveiras por assentados judaicos.

Ao contrário da presente iniciativa palestina junto à ONU, todas estas iniciativas israelenses são consideradas ilegais pelo direito internacional e condenadas pela ONU e até pelos países da Comunidade Européia.

Sem conseqüências, porém.

Na mesma semana em que a embaixadora Susan Rice fez sua advertência, Israel anunciou mais uma “iniciativa unilateral”, não só ilegal, mas altamente solapadora do tão almejado “processo de paz”.

Tudo começou meses atrás quando uma comissão de juristas de extrema direita (a comissão Levy) entregou ao premier Netanyahu, por solicitação dele, um estudo sobre o futuro da Palestina ocupada.

Sua conclusão era que não se devia falar em “ocupação” pois, por pleno direito, toda Palestina seria parte de Israel.

Caberia ao governo, num primeiro passo, legalizar todos os muitos assentamentos ilegais. Posteriormente, então, toda a Palestina deveria ser formalmente anexada como parte do estado de Israel.

Netanyahu agradeceu mas, na ocasião, não fez nada.

 

Fez agora.

Aproximando-se as eleições, talvez para atrair votos da extrema direita, anunciou a legalização de todos os assentamentos que foram criados abusivamente, ocupando ,contra as leis, terras de palestinos na Margem Esquerda.

Ou seja: anexou de fato mais uma grande porção do território que pertenceria ao futuro estado palestino.

O governo de Israel já vinha aumentando o número de assentamentos, o que impedia que os palestinos aceitassem iniciar as negociações de paz.

Era um fato muito sério – até Obama condenou Netanyahu, embora sem tomar qualquer atitude.

A legalização dos assentamentos ilegais é , porém, ainda mais grave pois representa uma autorização governamental para que grupos particulares se juntem ao estado israelense na sua campanha de expansão pela Palestina, tomando as terras árabes e expulsando seus moradores.

Além disso, as 797 novas unidades ficam em Jerusalém Oriental, área que os palestinos desejam que seja capital do seu futuro estado, e que, portanto, encontra-se em litígio. Seu destino deveria ser decidido no almejado processo de paz. Por negociações, não unilateralmente.

Os EUA, como sempre, fecharam os olhos para mais essas ações ilegais israelenses.

Susan Rice não fez nenhum discurso na ONU, considerando-a uma “iniciativa unilateral prejudicial do processo de paz.”

Mas, para a França, a Alemanha, o Reino Unido e a chefe de Relações Exteriores da Europa Unida , a última de Netanyhau passou da conta.

Os protestos e críticas foram unânimes.

Como Hitler,no passado, Israel argumentou, atacando.

Foi pela voz de Avigdor Lieberman, seu Ministro das Relações Exteriores: “Estas condenações não contribuem em nada para o avanço do diálogo entre Israel e os palestinos. Elas apenas encorajam o lado palestino a ficar firme na sua recusa em negociar e continuar suas atividades na arena internacional.”

Estamos diante de uma curiosa inversão de valores.

Praticar violências, cometer atos ilegais e ameaçar são ações qualificadas como perfeitamente lícitas.

“Atividades na arena internacional”, pedindo a ONU status de nação membro, absolutamente de acordo com a lei, são atitudes contrárias à paz.

Em outras palavra: o que é direito, é errado; a violência, nada tem de condenável.

Como aconteceu no caso da Tchecoslováquia.

A França e a Inglaterra, no passado, e os EUA , agora, pressionam em favor da nação opressora, contra os direitos da oprimida.

Algumas perguntas são inevitáveis..

Até quando Israel continuará impunemente violando as leis internacionais?

Até quando os vários governos americanos, por razões de política interna, continuarão aceitando e defendendo todos interesses e ações injustos e ilegais de Israel?

Até quando a Europa Unida, em parte por sentimento de culpa por omissões nas perseguições anti-semitas do nazismo, em parte para seguir os EUA, se limitará a protestar sem tomar qualquer atitude concreta?

Depois da última guerra, a Humanidade pretendia que as relações internacionais se reorganizassem sob o império da Lei e dos Diretos Humanos, sob vigilância da ONU.

O povo palestino ainda espera ser incluído nesse grande plano.

 

 

 

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