Uma arma palestina preocupa Israel.

Não é um novo míssil, nem uma bomba ou explosivo.

É uma arma que não mata nem fere, mas já provou sua força, quando foi usada pelo povo sul africano para derrubar o regime do Apartheid.

É o boicote.

O boicote palestino se chama BDS- boicote, desinvestimento e sanções contra Israel. É uma campanha internacional que propõe o boicote dos produtos e serviços de Israel, além de contactos e acordos científicos, culturais, artísticos ou esportivos, enquanto continuar a ocupação da Palestina e os assentamentos.

Os palestinos são um povo pobre. Eles não tem petróleo. Nem interesse estratégico. Nem dinheiro para contratar lobistas que promovam sua causa no establishment ocidental. Nem a proteção dos EUA, auto-considerado a “polícia do mundo.”.

Não podem esperar justiça dos governos dos grandes países e das instituições internacionais.

Diante das muitas ilegalidades e violações dos seus direitos humanos por Israel – a ocupação militar, os assentamentos, as demolições de casas, a limpeza étnica, o roubo de terras, os assassinatos- a comunidade internacional limita-se a condenações verbais.

Não tem tomado nenhuma atitude.

E, indiferente às condenações gerais,  Israel segue repetindo as mesmas ações criticadas pelas grandes potências e pela ONU.

Sozinhos e desamparados, os palestinos já tentaram livrar-se do domínio de Israel militarmente e ainda através de revoltas populares.

Perderam sempre.

O exército Israel, reforçado anualmente pelos 3 bilhões em armamentos fornecidos pelos EUA, é incomparavelmente mais poderoso.

O BDS é a única arma que já está causando danos no adversário e tendendo a alcançar efeitos realmente graves num futuro próximo.

Centenas de empresas, universidades, sindicatos, igrejas,  artistas, intelectuais, acadêmicos, uniões estudantis e até países já aderiram ao BDS. Como a Noruega que colocou na lista negra do seu fundo soberano, o maior do mundo, avaliado em 818 bilhões de dólares, duas companhias israelenses : a Africa Israel Investiments e a Danya Cerbus, por ”sua contribuição para sérias violações dos direitos individuais  através da construção de assentamentos em Jerusalém Oriental.”

A União Européia acaba de obrigar os produtos dos assentamentos a indicarem sua origem nos rótulos. O que, certamente, vai reduzir suas vendas, considerando a grande rejeição no Velho Mundo pelos assentamentos. Fato agravado pela Europa ser o principal mercado de Israel, 33% dos compradores dos seus produtos de Israel serem de países europeus.

No caso do boicote continuar crescendo na Europa, acredita-se que Israel poderá perder cerca de 5,7 bilhões de dólares por ano e 9.800 trabalhadores ficarão desempregados, além dos preços sofrerem um “dramático aumento.”

Não tenho dados do mercado americano, mas também deve ser muito importante para Telaviv.

Como o boicote vem ganhando muitos adeptos nas terras de Tio Sam, a AIPAC  (maior lobby israelense nos EUA) planejou e vem executando uma vasta campanha nacional contra o BDS.

Ela está exercendo forte pressão para a aprovação no Congresso e em duas dúzias de legislativos estaduais de leis com potencial altamente destrutivo da iniciativa palestina. E vem se saindo bem, já conta com a adesão de muitos representantes e senadores americanos.

De um modo geral, essas leis colocam na lista negra ou punem com sanções quaisquer governos, empresas, organizações ou cidadãos que boicotem, retirem investimentos, recusem convites para participar de eventos culturais, técnicos ou esportivos  ou imponham sanções a Israel ou a produtos israelenses.

Esse tipo de leis tornam o Congresso americano caudatário do Knesset (congresso de isdrael) israelense pois são muito próximas das leis aprovadas pelos legisladores israelenses em 2014.

Entende-se, foram elaboradas pela AIPAC, notório lobby de defesa dos interesses do governo de Telaviv.

O que não se entende é congressistas americanos favoráveis a leis que colocam a soberania do seu país sob um país estrangeiro.

Mais incompreensível ainda é a condenação do BDS por ser uma organização que tem como um dos seus principais objetivos combater os assentamentos.

Como se sabe, os assentamentos foram considerados ilegais pela Corte Internacional de Justiça e pela ONU.

Assim também, a maioria dos países se manifesta contra Israel cada vez que são anunciados novos assentamentos. E os criticam por tornarem cada vez mais difícil a paz no Oriente Médio.

Fazer campanha contra algo notoriamente ilegal, que é também um obstáculo à solução dos 2 estados na Palestina, único caminho para se conseguir a paz na Palestina segundo o Ocidente, só deveria merecer apoio.

No entanto os EUA, e alguns poucos países europeus como a França, começam a aumentar a repressão ao BDS – pelo crime de atuar contra algo ilegal.

Felizmente a União Européia, como um todo, parece estar se curando da sua miopia ao exigir a indicação da origem no rótulo dos produtos dos assentamentos.

Isso enfureceu a AIPAC e seus seguidores nos legislativos dos EUA. Algumas das leis ora em trânsito no Congresso e nas câmaras estaduais mencionam de forma crítica a decisão européia. E sancionam os países que seguirem a orientação da União Européia.

Mais uma vez, vemos Israel ditando a política americana, contra os interesses do país pois caso essas leis sejam promulgadas os EUA terão problemas com seus tradicionais aliados da Europa.

Os defensores das leis anti-BDS passam por cima de todas essas considerações para clamar que o movimento palestino ‘é um ato unilateral que vai contra a busca da paz”.

A verdade é bem outra.

Israel é que age contra a paz. Não só pelos assentamentos, mas também por outros malfeitos causadores do conflito que o BDS quer eliminar : o confisco das terras de propriedade palestina, a demolição dos lares palestinos, o muro de Sharon que separa Israel da Cisjordânia – passando por dentro de cidades e fazendas palestinas, a construção de colônias e estradas privativas de israelenses- que tornam impossível o estabelecimento de um Estado Palestino em terras contíguas.

Todas estas ações foram também consideradas ilegais pela ONU, feitas por Israel para que a paz com a Palestina permanecesse no terreno da fantasia.

Defendendo quem pratica ilegalidades contra quem luta contra elas é mias uma causa injusta já abraçada pelo partido Republicano e por alguns democratas.

Com grandes chances de êxito..

Mas, a vitória dos pobres negros sul-africanos contra o apartheid das bilionárias empresas e duras lideranças da União Sul-Africana também parecia extremamente difícil.

O BDS pretende seguir o mesmo caminho. E está avançando apesar da “justiça” da comunidade internacional, embora costume  dar ganho de causa aos palestinos, deixa o réu em liberdade para continuar suas práticas ilegais.

Mas, á vezes a força das idéias acaba vencendo a  força do dinheiro e dos canhões.

Há que dar tempo ao tempo.

 

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