Palestina: o processo de paz por um fio.

Considerar o documento enviado a Israel pela Autoridade Palestina a última tentativa para reatar as negociações de paz é uma das interpretações possíveis.

Talvez a menos possível.

As condições que Abbas, o Presidente da Autoridade Palestina, coloca para iniciar as discussões são as de sempre: a interrupção dos assentamentos, base nos limites das fronteiras de 1967, a divisão de Jerusalem entre as partes e a solução para o problema dos refugiados.

A resposta de Netanyahu será, provavelmente, também a de sempre: não aceita pré-condições mesmo porque as fronteiras de 1967 não garantiriam a segurança a Israel e os outros assuntos teriam de ser objeto das negociações, não condições para sua realização.

Portanto, a menos que Netanyahu tenha mudado de estratégia para lidar com a questão, sua resposta será negativa.

Havendo recusa, Abbas diz que fechará a Autoridade Palestina dada a sua inutilidade para o processo de paz.

Isso quer dizer que o documento, mais do que uma iniciativa de paz, é um ultimato. Ou vocês topam ou o jogo acaba.

Antes de analisar as conseqüências dessa possível decisão, deixo claro que não é certo que Abbas cumpra sua ameaça.

Ele tem uma longa história de concessões aos EUA e a Israel, culminando com sua lamentável retirada do pedido palestino à Comissão de Direitos Humanos da ONU para que enviasse ao Conselho de Segurança o relatório Goldstone, acusando Israel de crimes de guerra em Gaza.

Pode muito bem, atendendo a seu amigo Barack Obama, retirar a ordem de encerramento da Autoridade Palestina.

Caso ele resista, o que aconteceria?

Provavelmente, os palestinos atenderiam ao recente apelo de Barghouti, para que adotassem a não-violência e a não-colaboração no seu conflito com Israel.

E para que levassem de novo à ONU o pedido de reconhecimento da independência da Palestina, que estaria então fortalecido pela recusa de Israel reiniciar a negociação da “solução dos 2 estados.”

Sem contar que, com a provável vitória do socialista Hollande, a causa da Palestina teria na França – não mais um adversário como foi com Sarkosy – mas um aliado.

A essas alturas, ainda que Obama novamente vetasse o ingresso da Palestina na ONU como membro pleno, não poderia evitar que ela fosse aprovada pela Assembléia Geral na categoria de país não-membro, o que lhe  daria direito a processar Israel na Corte Criminal Internacional.

O fim da Autoridade Palestina pode também ser entendido como o fim da  “solução dos dois estados”. O que abriria espaço para os defensores da idéia de um único país, o “Grande Israel”, compreendendo toda a Palestina.

Para os partidos de direita israelenses, seria um presente.

Haveria, porém, o problema de implicar fatalmente num estado despótico e escancaradamente racista.

A razão é muito simples.

Hoje existem em toda a Palestina cerca de 7 milhões e quinhentos mil judeus e 5 milhões e quinhentos mil árabes. Como os índices de natalidade dos casais árabes é bem mais alto do que dos judeus, a médio prazo haverá mais árabes do que judeus. E se estes quiserem manter o caráter judaico do estado e os privilégios do seu povo, serão obrigados a impor leis fortemente discriminatórias, que só um estado policial teria condições de sustentar.

O dado da evolução demográfica é visto de forma positiva também por aqueles que idealizam um estado único mas completamente diferente da fantasia do “Grande Israel”.

Eles defendem uma Palestina laica, democrática e multi- racial, idéia que acabaria triunfando com o aumento desigual da população árabe.

A dissolução da Autoridade Palestina é aprovada por personalidades como Yossi Belin, que foi o líder dos negociadores de Israel nos acordos de Oslo, em 1993.

Para Belin, o processo de paz que então se iniciou, está completamente morto, bem como seu objetivo: “a solução dos 2 estados independentes”.

Ele acha que o desmantelamento da Autoridade Palestina poderá forçar Israel a um acordo justo.

São suas palavras: “Se alguma coisa assim acontecer e os palestinos disserem aos israelenses: OK, estas são as chaves. A responsabilidade agora é sua, paguem pelos nossos serviços… Eu penso que algo assim os fará se mexer…”

Com a dissolução da Autoridade Palestina, centenas, senão milhares de palestinos na polícia, nas escolas, nos serviços públicos, em geral, ficarão desempregados.

É possível que o estado de Israel seja obrigado a contratar todo esse pessoal, o que representaria um problema financeiro não previsto.

Mas, não é certo.

Pelo menos uma parte desses postos de trabalho seria ocupada por israelenses, atualmente sem emprêgo.

Tudo isso, porém, são conjecturas.

O certo é que o processo de paz está seriamente ameaçado.

Para Barghouti, hoje o mais respeitado líder palestino, essa ameaça não existe já que o processo acabou há muito, quando ficou claro o plano israelense de ocupar com assentamentos a maior parte possível do território da Margem Oeste e de Jerusalem. E, assim, tornar inviável um futuro estado palestino.

O que faltava era uma atitude radical, de renúncia, que denunciasse ao mundo a mentira de Israel e das grandes nações do Ocidente, que apóiam verbalmente uma Palestina independente, mas ou agem contra essa idéia, ou são cúmplices da sua frustração.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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