Israel, isolamento por opção.

Em termos políticos, Israel já vem sofrendo um processo de isolamento que começou a muitos anos, pelo qual é responsável.

A construção de  assentamentos ; a ocupação militar da Margem Oeste; o tratamento violento das crianças palestinas pelo exército e pela polícia israelense; a política de demolições em Jerusalém Oriental; as discriminações sofridas pelos palestinos; o bloqueio de Gaza; as invasões do Líbano; o massacre da Flotilha da Liberdade; as brutalidades na invasão de Gaza…

São muitas as violações das leis internacionais e das resoluções da ONU por parte dos governos de Israel.

Em mais de 60 ocasiões, os EUA vetaram na ONU resoluções contrárias a Telaviv.

É  graça,  aliás, ao governo americano que Israel nunca sofreu sanções econômicas ou políticas internacionais.

Hoje, embora nos EUA e nos principais países da Europa o governo de Israel ainda seja bem aceito pelas autoridades, a maioria da população de quase todos os países do mundo condena suas políticas em relação aos palestinos.

Por sua vez, a idéia prevalecente em Israel é de que a ONU é inimiga, sua Assembléia Geral dominada em número por povos da África, Ásia e América Latina, a maioria muçulmanos e  ou atrasados, não entende Israel e o trata de forma injusta.

Embora haja muitos israelenses de mente aberta e idéias progressistas, a maioria coloca o país numa posição isolada do resto do mundo, tendo apenas os EUA e alguns governos aliados da Casa Branca a seu lado.

No Oriente Médio, o isolamento de Israel é também físico.

A crença geral é de que Israel está cercada por povos inimigos.

Daí origina-se o conceito do país-fortaleza, que precisa ter forças armadas mais poderosas do que todos os vizinhos juntos.

Por isso, e não por causa das tolas fanfarronadas de Ahmadinejad, o governo de Telaviv  não aceita que o Irã tenha armas nucleares já que, se isso acontecesse, Israel perderia o monopólio militar nuclear na região.

Como autêntico estado-fortaleza, Israel está construindo muros e cercas em todas as suas fronteiras para se fechar sobre si mesmo e se isolar completamente dos seus vizinhos.

Desde o governo de Ariel Sharon, está sendo construído um muro de 8 metros de altura – chamado de “Muro do Apartheid” pelos palestinos – na Margem Oeste, em volta dos assentamentos.

Segundo o governo destina-se a proteger sua população, impedindo a entrada de terroristas palestinos.

Segundo os palestinos, é uma forma de anexar terras árabes já que o muro penetra fundo na Margem Oeste sob ocupação.

Já 62% do muro tinham sido concluídos em abril deste ano.

Quando ficar pronto, ele fechará toda a fronteira com a Margem Oeste, anexando 530 quilômetros quadrados de terras palestinas.

Uma cerca de 230 quilômetros de extensão acha-se em fase de conclusão na fronteira com o Egito.

Seu objetivo é duplo: impedir a penetração de terroristas árabes e, mais importante, impedir  a entrada de imigrantes africanos em Israel. No momento, Israel desenvolve um processo para expulsão dos 60 mil africanos que entraram ilegalmente no país.

Em junho, foi completada a construção de um muro de 7 metros de altura na fronteira com o Líbano, equipado com câmeras e sensores de detecção de movimentos, cobrindo cerca de 1.200 metros.

No começo do ano, Netranyahu anunciou que, depois de concluída a cerca na fronteira egípcia, será iniciada a construção de outra cerca, ao longo da fronteira com a Jordânia.

Com isso, Israel ficará totalmente cercado por muros e cercas.

Não foi informado qual seria o objetivo desta construção já que nem terroristas, nem imigrantes costumam circular por esta fronteira.

Em setembro do ano passado, ao saber das intenções de Netanyahu, o rei Abdula II, da Jordânia (que tem relações com Israel) comentou em entrevista ao Wall Street Journal: “Israel tem de decidir: deseja ser parte da vizinhança ou deseja ser Israel, a fortaleza?:”

Parece que, pelo menos no governo Netanyahu, a resposta é mais do que evidente.

Embora alguns raros governos, especialmente o de Isaac Rabin, procuraram estabelecer boas relações com os países do Oriente Médio; Bibi não está nem aí para isso.

Ele sabe que a paz com os vizinhos passa por uma solução justa para o problema da Palestina, no que ele já demonstrou não ter o menor interesse.

Talvez ainda mais do que os seus mais belicosos antecessores, Netanyahu é adepto da tese do Israel-fortaleza. Não pretende mudar em nada as políticas discriminatórias do seu país, confiando em que o melhor é impor respeito aos vizinhos, através da força.

Especialmente porque ele tem os EUA para proteger seu país contra eventuais sanções ou boicotes internacionais, apoiar suas guerras e fornecer os mais atualizados e mortíferos armamentos.

Esse isolamento que Israel escolheu, e Netanyahu vem incrementando, tem sido condenado por alguns intelectuais israelenses de valor.

O acadêmico Neve Gordon diz:”O que quer que exista do outro lado do muro é um monstro, é o desconhecido, é algo que você teme. Portanto, ele (o muro) definitivamente aumenta o nível de animosidade, o ódio e assim por diante, porque é algo desconhecido, algo assustadoramente desconhecido.”

O historiador Ilian Pappe afirma que a “mentalidade de fortaleza“ não tem nada de novo: “Quer tenham inimigos reais ou imaginários, no seu próprio estado ou nas fronteiras do estado, a sociedade israelense voluntariamente deseja ser confinada para não se misturar com o primitivo ambiente árabe ou palestino.“ Isso porque, segundo Pappe, o sionismo se considera europeu e não oriental.

Ele tem um pensamento bastante corajoso e original sobre o problema: “Derrubar os muros reais ou imaginários só poderá ser feito quando Israel, absurdamente o mais forte poder militar da região, for corajoso o suficiente para desistir de alguns dos seus privilégios e fazer de Israel e da Palestina estados  mais iguais e aceitar que é parte do Oriente Médio, dos seus problemas e das suas  soluções.”

Ou em outras palavras: enquanto considerar a Palestina um problema, não uma solução, Israel segue um povo à parte, num mundo cada vez mais voltado para a união como hipótese de sobrevivência.

Luiz Eça

www.olharomundo.com.br

24/07/2012

 

 

 

 

 

 

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