Prisões ilegais, torturas, chantagem…é a campanha “anti-corrupção” da Arábia Saudita

Numa única noite, mais de 200 príncipes, ministros, políticos e magnatas saudita, alguns bilionários, foram presos, sem mandado judicial. Sendo, em seguida, internados no luxuoso Ritz-Carlton Hotel, em Riad, capital da Arábia Saudita, reservado especialmente para “hospedar” essas nobres figuras.

Os policiais obedeciam ordens do príncipe herdeiro Mohamed bin Salman, ministro da Defesa e eminência parda do rei Salman.

Segundo as fontes oficiais, tratava-se do início de uma campanha contra a imensa corrupção, apontada como responsável pela recessão no país.

Motivo muito contestado, considerando que a corrupção é endêmica na Arábia Saudita, cujos reis e príncipes costumam servir-se dos bens públicos como se fossem deles. Faziam o que queriam e depois criavam leis para legalizar suas ações arbitrárias.

Mais provável é que a razão de ser da campanha seja garantir a sucessão do rei Salman pelo príncipe Mohamed, ameaçada por dissidentes de outros ramos da família Saud ,senhora do poder. Importantes príncipes estavam descontentes com o excesso de poderes atribuídos pelo rei a seu herdeiro número 1, enquanto que eles tinham sido deixados de fora.

Como se viu posteriormente, objetivos financeiros também estavam por trás das prisões.

Hoje, passados cerca de 15 dias após as prisões em massa, já existem informações concretas sobre suas circunstâncias.

Entre os quase 40 príncipes detidos, destaca-se o príncipe Miteb, que, como ministro da Guarda Nacional, comandava uma força militar formada por membros de tribos leais à Casa de Saud, até o dia em que foi levado à força para o Ritz-Carlton.

Na sucessão do rei Saud, o governante anterior, Miteb era visto como concorrente de Salman, que acabou sendo o escolhido pelo conselho das famílias reais.

Atualmente, para parte dos príncipes, o príncipe Miteb- e não o herdeiro número 1, o príncipe Moahmed- é que deveria ser o próximo rei.

Sabe-se hoje que muitos dos presos como grandes corruptos foram submetidos a violentas torturas. Inclusive para informar os números de suas contas bancárias. Nada menos de 1.700 delas acabaram congeladas.

Nem os príncipes escaparam desse tipo de abuso.

Numa avant-premiére da campanha anti-corrupção, iniciada publicamente na “noite das prisões em massa, foi preso, em setembro, o príncipe Abdul Aziz bin Fahd, filho de Fahd, um rei já falecido. Ele tinha chegado há pouco do Haji (peregrinação à cidade sagrada de Meca) e não estava propriamente preparado para encarar uma prisão. Alguns dias depois, foi levado a um hospital para ser tratado das consequências do interrogatório a que fora submetido. Desde, então, não se sabe mais dele.

Sabe-se com certeza (Middle East Eye, 17-11) que, pelo menos seis príncipes passaram por torturas, sendo que, dentro das 24 horas seguintes à sua prisão, também necessitaram de cuidados hospitalares. Um deles estava em condições tão precárias que teve de ser admitido à unidade de cuidados intensivos do hospital a que fora recolhido. Lá passou por um tratamento que só é aplicado quando há elevado risco de vida, em casos como falência de órgãos, como coração, pulmão ou fígado.

A segurança do príncipe Mohamed informou ao pessoal do hospital que as lesões existentes em cada caso eram produto de tentativas de suicídio.

Seis tentativas de suicídio! Acredite se quiser.

Todas as vítimas do “interrogatório científico” apresentavam vestígios consistentes com marcas de botas militares. Todas foram brutalmente espancadas, mas nenhuma  sofreu fraturas. Os interrogadores foram bem treinados para as evitarem, para que não fique por demais evidente o tipo de tratamento com que haviam sido mimoseados os alvos da campanha anti-corrupção.

Quanto aos magnatas presos, pelo menos 17 deles tiveram também de passar por cuidados em hospital devido a torturas. No entanto, acredita-se que esse número seja muito maior. O Middle East Eye diz que suas fontes não puderam oferecer dados completos por receios quanto à sua segurança.

O príncipe Mohamed revelou-se atento a possíveis repercussões das consequências dos interrogatórios do expurgo. Elas já causaram efeito negativo na Europa, poderia ser pior se novos casos de lesões fossem reportados pela imprensa internacional.

A hábil solução foi instalar unidades médicas no próprio hotel Ritz-Carlson, onde príncipes, ministros e bilionários torturados podem ser tratados, sem precisarem dirigir-se a um hospital. Fora, portanto, dos olhos indiscretos dos jornalistas estrangeiros.

No entanto, de acordo com fontes dos EUA, MbS (apelido do príncipe herdeiro) deixou escapar inadvertidamente que pretende arrecadar 1 trilhão de dólares dos cidadãos presos.

Como?

Com um método que ele deve ter aprendido com o chefe de segurança no governo Mubarak, ex-ditador do Egito, atualmente hóspede da realeza saudita. Cidadão conhecido por métodos que até Trump reprovaria.

Reporta o  Financial Times um negócio que as autoridades sauditas oferecem às vítimas, incluindo alguns magnatas bilionários: poderão ser soltos, livrando-se de prováveis torturas e de anos prisão, em troca da cessão aos cofres reais de 70% do valor de suas riquezas.

Por mais que Mohamed exagere no total que espera ganhar com esses negócios das arábias, eles devem render, no mínimo, algumas centenas de bilhões de dólares. Dinheiro mais do que suficiente para o país sair do déficit, que no ano passado, atingiu 79 bilhões de dólares (The Guardian, 17-11). Sobrarão muitos dólares para que Salman e filho continuem importando enormes quantidades de bomba e armas, necessárias à Guerra do Iêmen e a eventuais choques contra o inimigo Irã.

Lembro ainda que é graças a estas extasiantes compras de armamentos que a Arábia Saudita atrai a amizade dos EUA, França e Reino Unido.

 

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