Afinal, qual é a de Macron?

Apesar da aprovação da IAEA (Agência Internacional de Energia Atômica), Trump negou-se a certificar o Irã. Era o começo da campanha americana para destruir o acordo nuclear.

Todas as demais potências do chamado P5+1 apressaram-se a se manifestar contra a posição do presidente dos EUA.

Elas defenderam o acordo nuclear como justo e essencial para a paz, recusando-se a aceitar qualquer mudança, como The Donald queria. De passagem, as potências europeias demonstraram preocupação com o programa balístico de Teerã e suas ações intervenções nas guerras do Oriente Médio.

O presidente das França, Emanuel Macron, seguiu esta linha, em diversas declarações públicas, entrevistas à imprensa e até em reuniões com o próprio Trump.

Foi sempre enfático e assertivo, firme em suas posições.

Porém, em 10 de dezembro, em reunião com o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, por sinal também ministro da Defesa e condutor da política internacional do reino, Macron mudou seu discurso.

Noticiando as conclusões dos dois estadistas, o Quai d´Orsay emitiu um comunicado cuja parte final trata do acordo nuclear: “Esse acordo deve ser preservado, mas complementado com dois pilares, uma negociação sobre a atividade balística do Irã, com sanções, se necessário, e uma discussão estratégica, enquadrando a hegemonia iraniana na região (L´ Express, 10-11-2017).”

Com isso, Macron somou com o príncipe Mohamed, inimigo declarado do Irã, condenando o programa balístico do governo Rouhani, com tal ênfase que sugere aplicação de sanções.

A busca iraniana de hegemonia no Oriente Médio também é alvo da crítica de Macron e seu partner, como algo altamente reprovável, que precisa ser contido. O fato da Arábia Saudita objetivar o mesmo é esquecido.

Nos dias seguintes ao surpreendente comunicado, o presidente francês passou a explicar sua opinião com mais detalhes.

Primeiro disse esperar que o Irã adotasse “uma estratégia regional menos agressiva”, a seguir qualificou como “descontrolada” a política balística de Teerã. Logo, foi adiante, através de sua porta-voz, que defendeu a necessidade de uma investigação pela ONU “se necessário com novas sanções europeias contra entidades ou pessoas iranianas envolvidas no programa balístico.”

Assim, não apena endossou os ataques de Israel, EUA e Arábia Saudita, classificando atividades do Irã como condenáveis, também reforçou a posição de Trump contrária ao acordo nuclear. Quem pratica atividades dessa ordem teria de ser controlado com alterações no acordo nuclear, impondo cláusulas ainda mais severas do que as já previstas.

Na sua campanha anti-iraniana, Macron foi secundado pelo seu ministro do Exterior, Jean-Yves Le Drian, que atacou a política regional do governo Rouhani, chamando-a de um show de “desejos hegemônicos”.

Diante da reação de Teerã, que o acusou de parcialidade, Macron procurou justificar-se: ”Queremos que o Irã seja um poder menos agressivo e que seu programa de mísseis balísticos seja restringido.”

Só que uma autoridade francesa (falando em condições de anonimato) deixou claro que a acusação dos iranianos seria justa. Esse cidadão admitiu que a França estaria pressionando os poderes do Ocidente, inclusive os EUA, a trabalharem juntos para conterem o Irã e seu engajamento em favor da desestabilização, atingindo desdeo Afeganistão até o Líbano.

E o debate foi ganhando mais intensidade.

Depois da polida intervenção do presidente Rouhani, Akbar Velayati, assessor-top do Supremo Líder Kamenei foi categórico: “Não precisamos da permissão de ninguém para construir nossa capacidade em mísseis. O que o senhor Macron tem a ver com isso?   (Express, 20-11-2017) ?

Por sua vez, Bahram Qassemi, porta voz do ministro do Exterior, não deixou por menos: “Infelizmente, parece que a França tem uma visão parcial e enviesada em relação às infindáveis crises e catástrofes humanitárias no Oriente Médio.”

Imperturbável, Macron respondeu, denunciando o que chamou de “atividades desestabilizadoras do Irã e do Hisbolá na região (France Soir, 20-11-2017).”

Não deixou, porém, de manifestar sua suposta neutralidade. Disse que apela aos EUA para preservar o acordo nuclear ao mesmo tempo que lhes pede que unam esforços para conter o Irã, na região.

Para mim os iranianos têm todo o direito de desenvolver um programa balístico. Se países do Ocidente podem ter os seus, por que Teerã não pode?

Os iranianos afirmam que seu programa balístico visa defender o país dos seus inimigos. O governo Trump já deixou claro que os EUA é um dos principais. Na verdade, acho que eles ameaçam o Irã mais do que o contrário.

Com a palavra o secretário de Estado, Rex Tillerson.

Em entrevista a jornalistas, ele foi categórico: ”A administração Trump não tem a intenção de passar o pacote do irã à futura administração (New York Times, 19 de abril) ”.

Depondo no Congresso, Rex afirmou que a política americana em relação ao Irã estava sendo desenvolvida e que a derrubada do regime iraniano continuava objetivo do governo (Newsweek, 20 de junho).

A largamente divulgada intenção iraniana de “tirar Israel do mapa” pouco tem a ver com os fatos. De fato, o Supremo Líder Kamenei e seus acólitos várias vezes profetizaram a queda do regime sionista (não do país Israel), nunca através das forças iranianas, mas de movimentos revolucionários internos. Algo como: a História os condenará

Se Teerã arma o Hisbolá, inimigo de Israel, o governo de Telaviv já propôs várias vezes a Washington que intervisse militarmente, bombardeando o território do sempre rebelde país xiíta.

Acredito ser perfeitamente compreensível que os dois inimigos, Israel e Irã, aperfeiçoem sus forças militares como forma de se defenderem reciprocamente.

O Irã tem mais razões para se preocupar com sua defesa. Atualmente, precisa se haver com a poderosa Arábia Saudita e seu príncipe todo-poderoso, empenhado em manobras visando acabar com o regime revolucionário iraniano.

Quanto a acusação, endossada por Macron, de que as ações agressivas do Irã estariam desestabilizando os países árabes, trata-se de outra falácia.

O Irã, direta e indiretamente, luta na Síria, em defesa do governo Assad. Arbitrário e violento, ou não – foi escolhido pelo povo em pleito considerado honesto. Ao que me consta, apoiar militarmente um governo legal não é vetado pelo direito Internacional.

O governo de Teerã presta apoio político (não militar) aos houthis na guerra do Iêmen. Não há uma única prova de que forneceu o míssil, lançado recentemente pelos rebeldes contra Riad..

No Líbano, o Irã fornece armamentos ao Hisbolá, que só é terrorista porque os EUA e Israel querem. Prefiro ficar com o respeitado jornalista israelense Uri Avnery que diz: “Chamar o Hisbolá de terrorista é simplesmente estúpido.”

O Hisbolá, como partido político faz parte da coalisão que governa o Líbano. E foram suas milícias que tiveram o papel mais destacado na luta contra a última invasão israelense. É fato que já promoveram atentados terroristas, mas foi há muito tempo, eles já abandonaram essas condenáveis práticas.

Onde está então o “engajamento na desestabilização dos países árabes?”

Provavelmente, na Arábia Saudita.

Foram os sauditas que promoveram o bloqueio aéreo, terrestre e naval do Qatar, para dobrar o país à vontade de Riad. Foram também os sauditas que lançaram uma guerra terrível contra os houthis, criando a maior catástrofe humanitária no Iêmen. Foram ainda os sauditas que, na revolução síria, financiaram e armaram milícias jihadistas, como uma filial da al Qaeda, o grupo Nussra. Foram, finalmente, os sauditas que pressionaram o governo do Líbano a romper com o Irã e o Hisbolá, com uma absurda declaração de guerra e ameaças veiculadas pelo fugitivo (talvez sequestrado) primeiro-ministro Hariri.

Para demonstrar imparcialidade, Macron deveria formar um grupo de nações para conter as iniciativas ilegais e desestabilizadores  do reino governado (de fato) pelo príncipe herdeiro, Mohamed, o notório MbS.

Mas ele prefere viajar a Riad para trocar afagos com os personagens da realeza. Lá, convidou MbS a visitar Paris na primavera. Colocou esta ambiciosa e agressiva figura principesca no nicho dos principais estadistas da humanidade.

Não sei como explicar esses caminhos perigosos que Macron começou a percorrer neste ano de 2017.

Talvez ele pretenda alçar-se na política internacional, como mediador nos conflitos que assolam o Oriente Médio e entre o Oriente Médio e o Ocidente. Papel tradicionalmente assumido pelos EUA, que Trump vem desempenhando de modo desastroso.

Talvez ele pretenda usar as “preocupações com o Irã” para desviar as atenções do povo francês das suas ações no país, que fizeram seu IBOPE cair para apenas 28% de aprovação.

Talvez ele esteja de olho nas esplêndidas compras de armas que o reino dos petrodólares costuma fazer. Em 2015, a França, somente num contrato, lhe vendeu armamentos no valor de 12 bilhões de dólares (Vice News, 10-10-2015). Nessa edição do Vice News, diz Yannick Queau, diretor da Open Source Intelligence on Politics: “A França realmente favorece a Arábia Saudita e compartilha com ela fortes preocupações sobre o acordo (nuclear) com o Irã.” E acrescenta; “A França vê a indústria de armas como uma grande maneira de apoiar o emprego e a industrialização no país.”

Acho que toda estas motivações devem existir, com maior ou menor peso, conforme as circunstâncias.

Há quem coloque uma quarta motivação: a ética presidencial.

Se fosse real, a postura de Macron seria diferente.

 

 

 

 

 

 

 

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