Pragmatismo acima de tudo.

Cada vez mais pragmático, o presidente Obama não tem hesitado em sacrificar valores éticos no altar dos interesses de sua política externa.

Em duas oportunidades, ele acaba de violar solenes juras e de se opor à condenações de forças repudiadas pela humanidade.

Ele cansou de repetir que em 2014 as tropas americanas deixariam o Afeganistão, o que lhe rendeu certamente largos dividendos eleitorais, como homem de paz, num país cansado de guerras.

Mais tarde, ele fez uma distinção: sairiam apenas as tropas de combate, permanecendo um certo número de militares para treinar e assessorar o exército afegão. Menos de 9.800, segundo o presidente.

Durante todo o ano de 2013 e até as eleições presidenciais no Afeganistão, ele discutiu com o então presidente Karzai as condições  do acordo de retirada de tropas. Obama queria que os soldados de Tio Sam não tivessem de se submeter à Justiça local e Karsai exigia que, antes de mais nada, o exército dos EUA acabasse com os famigerados raids noturnos.

Nessas operações, odiadas e temidas pelo povo afegão, as tropas americanas invadiam lares de zonas suspeitas, arrombando portas e arrancando pessoas da cama para serem investigadas.

Quando havia reação, os soldados abriam fogo e muita gente, culpada ou inocente, acabava morrendo.

Como Obama e Karsai não acertaram as pontas, o problema foi adiado até a posse do novo presidente, Ghani, que não criou mais caso.

Na semana passada, o  Parlamento afegão, por fim, aprovou o acordo, por 152 votos contra apenas cinco, determinando que as tropas americanas seriam usadas apenas em missões de treinamento e assessoria, jamais em combate.

Alguns dias depois, foi revelado um acordo secreto Obama-Ghani, ignorando as limitações que o Parlamento ordenara e dispondo que as tropas de Washington iriam entrar em combate, sim senhor, inclusive promovendo raids noturnos. E que se dane o povo afegão porque, afinal, guerra é guerra!

Claro, agora os “menos de 9.800”, não seriam suficientes. Fala-se em 11, 12 mil.

O prazo da permanência desses combatentes se prolongaria por todo o ano de 2015.

Pelo menos.

Em outras palavras: a retirada americana, prometida de pés juntos por Obama para fins de 2014, continuará até fins de 2015. Ou mais.

Chato faltar com a palavra, mas o fantasma do ISIS assombra o Pentágono e a Casa Branca.

Como a força aérea não está dando conta dos ultra-extremistas e, por outro lado, os generais não confiam em que o exército afegão derrote os talibãs sozinho, eles pressionam Obama para incrementar a guerra nos dois fronts: lançando exércitos terrestres contra o ISIS e mantendo forças de combate no Afeganistão.

Para o exército do mais poderoso país do mundo, é inaceitável sair mal em duas guerras ao mesmo tempo.

Este argumento calou fundo nas decisões de Obama.

O dever que ele se impôs de ganhar uma terceira guerra (esta fria) contra Putin, levou Obama a mais um vacilo na sua integridade ética. E na ONU, o pragmatismo presidencial foi proclamado urbi et orbi como a ideologia, ou falta de ideologia, ora dominante em Washington.

A Rússia, ainda neste mês, propôs uma resolução na Assembléia Geral da ONU de condenação do racismo fascista, ou nazismo, e à negação do Holocausto.

O texto enfatizava preocupações contra o crescimento de crimes racistas em todo o mundo e a influência que os partidos de extrema-direita estavam ganhando na Europa.

Apelava para a adoção universal da convenção internacional sobre a eliminação de todas as formas de discriminação racial.

Era oportuno.

Aproveitando o desencanto dos europeus com a incapacidade dos governos democráticos em enfrentar a grande crise, os grupos fascistas de extrema-direita estão ganhando força em quase todos os países da comunidade.

Por suas idéias anti-imigrantes, anti-islâmicas, anti-semitas e anti-União Européia e a brutalidade das seus métodos ameaçam as instituições democráticas do continente.

O progresso desses grupos ficou assustadoramente evidente nas últimas eleições do Parlamento Europeu.

Dois deles, a Frente Nacional, da França, e o Partido do Povo, da Dinamarca, foram os mais votados em seus países; o Partido Nacional Democrático, da Alemanha, e o Madrugada Dourada, da Grécia, pela primeira vez elegeram deputados ao Euro Parlamento e o Movimento Social Italiano, desde 1979, ganha posições nesse colegiado.

Dentre eles, o Madrugada Dourada já cometeu crimes, com o indiciamento de diversos membros.

Na Finlândia, Noruega e Holanda, os partidos proto-nazistas também aumentaram suas votações.

Como resultado dessa ascensão da extrema-direita, seus partidos elegeram um recorde de 52 deputados no Parlamento Europeu, 15 a mais do que no pleito anterior, em 2009.

Além disso, na Hungria, o ultra-nacionalista partido Fidesz já é governo, sendo que o ainda mais extremista Jobbik cresce nas urnas.

Já o Partido Nacional Britânico, fascista e anti-imigração, é o terceiro nas últimas pesquisas de opinião, suplantando o tradicional Partido Liberal. Seu líder, Nigel Griffin disse em 1998 que o Holocausto era “…um conto de extermínio e uma mistura de propaganda aliada de guerra (posteriormente retratou-se).”

Diante dessa situação, qualificada pela mídia internacional como “um terremoto” esperava-se uma aprovação unânime da resolução anti-fascista russa.

Ledo engano.

115 nações votaram “sim”, mas três – Ucrânia, EUA e Canadá – foram contra, enquanto 55 se abstiveram.

A explicação do voto contrário ucraniano foi porque a resolução não pedia também a condenação do estalinismo.

Estavam de brincadeira.

Se o objetivo era condenar ameaças reais – o crescimento do fascismo europeu – não havia porque condenar ameaças inexistentes de partidos estalinistas – se é que existe algum.

A verdade é bem outra.

Partidos e grupos ultra-nacionalistas, fascistas e mesmo anti-semitas tiveram parte destacada na revolução de Kiev, fazem parte do governo Poroschenko e das forças militares ucranianas.

Sua condenação não iria pegar bem junto a esses aliados, ativos na guerra contra os separatistas do leste da Ucrânia.

Esses grupos são, em primeiro lugar, o Skovoda, cuja grande figura histórica é Stefan Bandera, até hoje reverenciado, que na última guerra mundial liderou tropas que lutaram ao lado dos nazistas alemães e promoveram massacres de judeus.

Seu maior dirigente atual é Olen Tyanhnybok, um dos três principais chefes da revolução de Kiev. Ele costumava proclamar que o país era controlado por uma máfia judaico-moscovita…

O Skovoda recebeu importantes postos no primeiro ministério revolucionário, inclusive de vice-primeiro ministro, e no Conselho de Segurança Nacional.

Outro desses partidos extremistas, o Setor de Direita, considerado pelo New York Times como “…uma coalizão de ultra-nacionalistas e em alguns casos de organizações neo-nazistas”, é um dos mais agressivos.

Vários grupos desse pessoal foram aceitos e integram o exército nacional ucraniano, distinguindo-se por suas ações brutais.

Como o chamado “massacre de Odessa”, quando militantes do Setor de Direita cercaram manifestantes  pró-separação num edifício que incendiaram, atirando em todos que tentavam fugir e matando cerca de 40.

Como os EUA estão investidos até os olhos na derrota da Rússia por apoiar os separatistas contra o governo de Kiev, apressaram-se em acompanhar o voto dos seus aliados ucranianos, contra críticas ao nazi-fascismo.

Samantha Power, embaixadora dos EUA na ONU, justificou a posição de seu país, alegando que havia motivos políticos evidentes na resolução russa, sendo ofensiva contra o país que tanto sofrera com o nazismo.

Estranho, porque a resolução não mencionava a Ucrânia, nem mesmo indiretamente.

Falando sério, enquanto o governo Poroschenko não queria se arriscar a desagradar seus talvez incômodos aliados nazistas, o governo Obama não quis se arriscar a desagradar seu aliados de Kiev, importantes na luta contra Putin.

Mesmo ao preço de proteger o ressurgente fascismo europeu dos raios da ONU.

Quanto aos 55 abstencionistas, eram ilhas do Pacífico e os países da Europa Unida, para não ficar contra seu todo poderoso líder, o presidente dos EUA.

Não tiveram coragem de acompanhar o voto americano, seria por demais vergonhoso.

Faltou falar do Canadá.

Ah, o Canadá…

Você acha que ele iria contrariar a Casa Branca?

 

 

 

 

 

 

 

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