Obama cover de Bush.

Esperava-se que o governo Obama fosse uma antítese do governo Bush.

Para a frustração de muitos, ele tem sido um continuador fiel das políticas do seu antecessor.

Claro, houve algumas poucas diferenças a favor do atual presidente como a Reforma da Saúde; os esforços para eliminar a redução de taxas dos mais ricos e manter certos programas sociais; a proibição das torturas, além de uma ou outra realização de menor importância.

Nas áreas fundamentais da política de segurança, direitos humanos e política externa, Obama imitou o republicano, algumas vezes para melhor, outras até para pior.

A saída das tropas americanas do Iraque é apontada pela propaganda oficial como uma  grande mudança de Obama.

Não é bem assim: Bush já havia acertado com os iraquianos a data para o fim daquela desastrosa invasão.

Obama ainda tentou negociar a permanência de uns 10 a 20 mil “assessores” militares, mas não deu certo porque o governo de Bagdá exigiu que eles se submetessem à lei iraquiana.

O que o orgulho americano jamais aceitaria.

Já na guerra do Afeganistão, iniciada por Bush, Obama não fez por merecer seu Nobel da Paz. Aumentou as tropas americanas em mais 30 mil soldados, deu maior importância às forças especiais – não a toa, odiadas e temidas pelo povo afegão – e, agora, com a retirada marcada para 2014, quer manter um número não especificado de soldados americanos (fala-se em 20 mil).

Com a permanência dessa tropa não dá para pensar que os EUA estarão fora do Afeganistão em 2014.

Agora, Obama está em vias de lançar os EUA em uma terceira guerra, a guerra da Síria.

Como se sabe, o governo e os rebeldes se acusam mutuamente da autoria de um ataque químico nos arredores de Damasco.

Antes de apontar o dedo para um deles, a ONU enviou uma equipe de especialistas para analisar in loco o incidente.

Obama não se tocou. Ele diz que seus serviços de inteligência teriam provas de que Assad era o culpado e, portanto, a investigação da ONU seria desnecessária. Os EUA iriam dar uma lição ao ditador, lançar ataques para que ele nunca mais repetisse seu ato desumano.

Antes de autorizar o lançamento de mísseis,  Obama busca o apoio do Congresso.

Se for rejeitado, não importa, ele vai atacar do mesmo jeito.

Claro, é um desrespeito às normas da ONU e ao direito internacional, que vetam ataques militares contra nações soberanas, a não ser em defesa própria ou com aprovação do Conselho de Segurança.

Também aqui Obama imita Bush, agindo de forma unilateral, ao intervir quase sozinho na Síria (apenas a França prometeu ajuda militar).

Em certos casos, Obama supera Bush.

Cabe ao presidente republicano a duvidosa primazia de inaugurar o assassínio de suspeitos no Paquistão, através dos drones, os impiedosos aviões sem piloto.

Mas, enquanto  Bush realizava um ataque por mês, com Obama eram 4 por semana, nos anos mais explosivos.

Como os drones não se desviam de civis, nem são infalíveis, a mortandade de inocentes tem sido grande – muito maior com Obama que tem enviado muito mais ataques.

E não vamos esquecer que os drones voam e matam também no Yemen e na Somália sob o patrocínio do governo Obama.

Esta violação dos direitos humanos, comum aos dois presidentes, aconteceu em outros casos.

Nas renditions do governo Bush, a CIA raptava suspeitos no exterior e levava-os clandestinamente para serem interrogados em países onde se podia torturar secretamente.

Aliás, como se sabe, Bush não tinha muita ojeriza por torturas, inclusive aprovava o waterboarding, que reproduz a sensação de afogamento.

Aqui, Obama até que se saiu bem.

Proibiu as torturas e as renditions, pôs o waterboarding no índex.

Pena que protegeu os torturadores dos tempos de Bush.

Vamos esquecer o passado, Obama disse, afinal os agentes estavam obedecendo ordens e as regras vigentes.

Foi o que os nazistas alegaram no tribunal de Nuremberg.

E deu no que deu.

Atrás de Bush no quesito “torturas”, Obama registra em sua folha corrida algo muito próximo: os assassinatos selecionados.

A CIA elabora listas de terroristas e suspeitos a serem mortos em qualquer parte do mundo, por drones ou forças especiais.

Obama autoriza e os indigitados levam chumbo. Eles e quem estiver por perto, mesmo não tendo qualquer ligação com o terror.

Tudo para garantir a segurança dos EUA, para que não se repitam atentados como o das Torres Gêmeas.

Foi por esse motivo que Bush propôs e o Congresso aprovou a “Lei Patriota”, que torna sem efeito uma série de direitos individuais, para que os agentes possam investigar suspeitos de terrorismo sem maiores problemas.

Esta lei foi prorrogada no governo Obama, com plena aprovação do presidente.

Nesta troca de direitos por segurança, Obama foi além de Bush.

Em dezembro de 2011, Obama recebeu do congresso o “Ato de Autorização de Defesa Nacional”, que, nas seções 1021 e 1022 permite ao presidente deter suspeitos em prisão militar indefinidamente e sem julgamento.

Ele assinou, promulgou essa lei que lhe dá poderes acima do Direito e da Justiça. Normal somente em regimes como os de Hitler, Stalin, Pinochet e Trujillo.

Foi uma violência contra a Constituição dos EUA, referência histórica nas legislações em defesa dos direitos individuais.

Ela é desrespeitada também no caso da espionagem eletrônica.

Bush começou tudo, autorizando o NSA (Agência Nacional de Segurança) a realizar sem mandado judicial, escutas telefônicas nas investigações de terrorismo.

Quando, em 2007, o New York Times denunciou, Bush desistiu, passou a ser exigida a aprovação de uma corte criada especialmente para julgar mandados assim: a FISA.

E daí? A FISA era da turma, basta dizer que funciona no próprio prédio do Departamento de Estado. Ela quase nunca recusa pedidos de mandados.

Obama não mudou nada. Pelo contrário: multiplicou as ações de espionagem das comunicações, abrangendo também tudo que as pessoas fazem nos computadores, não só nos EUA, como também em outros países.

Claro, com esse acúmulo de trabalho, foi necessário ampliar consideravelmente o aparelho da NSA.

Hoje, ela está instalada num enorme edifício nos subúrbios de Washington e em outras unidades na Georgia, Texas, Japão, Alemanha e Reino Unido. E constrói um novo centro de vigilância em Utah, a um custo estimado de 2 bilhões de dólares.

A NSA é um estado dentro do estado, praticamente sem controle do Congresso, empregando entre 35 e 55 mil pessoas. Seu orçamento é secreto. Sabe-se que, em 2009, era de 8 bilhões de dólares, hoje deve ser muito mais.

As atividades da NSA foram reveladas publicamente por Edward Snowden, deixando cidadãos americanos e países aliados indignados  com a bisbilhotice oficial.

Atiçado pelos serviços de nteligência, Obama vem perseguindo ferozmente Snowden e outras pessoas que ousaram revelar podres ocultos do governo.

Bradley Manning é um bom exemplo.

Passou 11 meses preso em condições que o representante da ONU classificou como equivalentes a tortura. Por fim, foi condenado a uma pena cruel e desmedida.

A lei que justificou sua condenação, o Espionage Act – criado em 1917 para punir espiões – só foi aplicada 9  vezes.

Nada menos de 6 vezes, Obama usou essa lei para processar jornalistas e funcionários que revelaram fatos que o governo queria esconder do povo.

Como os escândalos de Guantánamo, por exemplo.

Foi Bush quem criou a prisão, enchendo-a com suspeitos de terrorismo, recolhidos principalmente no Oriente Médio.

Inicialmente, Obama jurou que iria acabar com “essa vergonha”, mas pouco fez.

Chegou a liberar alguns prisioneiros – comprovadamente inocentes – para suspender as liberações, depois que foi preso um nigeriano planejando atentado contra um avião comercial.

Neste ano, mais promessas de fechar Guantánamo.

Como primeira medida, foi anunciada nova liberação de inocentes, a maioria yemenitas.

Mas foi só as ações terroristas no Yemen aumentarem para a proibição voltar.

Há ainda o caso especial de 50 ou 60 detidos, carimbados como perigosos pela CIA e o Pentágono.

Eles seriam absolvidos num julgamento porque as provas contra eles foram conseguidos por torturas.

Solução do governo: jamais serão julgados e ficarão presos indefinidamente.

No campo de prisioneiros de Bagram, no Afeganistão, acontece algo semelhante.

Bush fez o trabalho sujo, concentrando ali gente do talibã e suspeitos, que foram submetidos a maus tratos piores  do que em Abu Ghraib.

Com Obama, uma parte desse pessoal foi solta.

Mas ficaram dezenas, presos sem julgamento, por quanto tempo ninguém sabe.

E agora chegamos à política internacional.

No histórico discurso do Cairo, Obama prometeu amizade e justiça para os povos islâmicos – uma guinada de 180 graus na postura de Bush.

Em relação à independência da Palestina, parecia que Obama iria realizar o prometido: ele exigiu que os israelenses parassem de construir novos assentamentos para que se pudesse negociar a paz com os palestinos.

Netanyahu concedeu uma moratória de 6 meses. Por ser apenas parcial, os palestinos protestaram. E o prazo passou em meio a discussões.

Nada acontecendo, Netanyahu voltou a expandir seu programa de assentamentos.

Depois disso, Obama se rendeu e passou a defender os interesses israelenses intransigentemente, doa a quem doer, e que se danem os árabes! Igual a Bush.

Na ONU, os EUA impediram condenações aos assentamentos – ilegais segundo o direito internacional; à anexação das colinas de Golã ; aos crimes de guerra do exército israelense no ataque a Gaza; aos assassinatos de pessoas na Flotilha da Liberdade.

Bloquearam o reconhecimento da Palestina como membro efetivo da ONU no Conselho de Segurança e votaram contra o ingresso da Palestina na UNICEF e na ONU como país não- membro.

Vem fornecendo a Israel as mais avançadas e devastadoras armas produzidas nos EUA.

Sem falar num sem número de declarações e ações do governo americano em defesa de Israel nos mais diversos organismos. Mesmo quando Telaviv não tem razão.

Agora, a propaganda da Casa Branca proclama que, graças aos esforços dos EUA, palestinos e israelenses negociam a paz e a criação de uma Palestina livre e soberana.

Esquece que, em sua visita a Ramallah, Obama pressionou o presidente palestino Abbas para que desistisse de exigir moratória nos assentamentos.

E Abbas renunciou a esta legítima pré-condição, que há muitos anos era defendida pelos palestinos.

As negociações começaram, mas seu futuro não é nada promissor,  pois Bibi, desafiadoramente, continua com novos assentamentos. 3.000 foram aprovados recentemente, provocando a indignação dos palestinos.

Uma ameaça de Ahmadinejad de tirar Israel do mapa (ele desmentiu, depois) levou os EUA e parceiros a exigirem o fim de um suposto programa nuclear militar iraniano.

Teerã negou, como os próprios serviços de inteligência americanos confirmaram.

Não adiantou nada. Sanções foram impostas pela ONU.

Descontente com elas, os EUA e a União Europeia vieram com sanções ainda mais duras, que estão destruindo a economia iraniana.

Várias reuniões para negociar a questão nuclear foram realizadas entre o Irã e os EUA, mais seus parceiros da Europa, a China e a Rússia.

Na última, as grandes potências exigiram que o Irã parasse de enriquecer urânio, entregasse seu estoque desse material e fechasse a usina de Fordow.

Em troca permitiriam que os iranianos comerciassem usando ouro e lhes exportariam partes sobressalentes de aviões. Um negócio pra lá de leonino.

Bush começou a campanha anti-Irã. Obama deu continuidade, fielmente.

De um modo geral, no governo dos dois, os EUA suprimiram alguns dos principais direitos individuais em favor da segurança.

Bush dizia que o país estava em guerra com o terror, o que justificaria violações da Constituição americana e dos direitos humanos.

Neste ano, Obama declarou que era tempo de terminar esse estado de guerra.

Mas, em nome da defesa nacional, pinta e borda com assassinatos de suspeitos, prisões com prazo indefinido sem julgamento, espionagem eletrônica, permanência de Guantánamo e da Lei Patriota. Numa análise fria, se conclui que Bush passou, mas suas políticas continuam vivas.

Obama foi eleito com a promessa de mudar tudo nos EUA pós-Bush.

Quem mudou foi ele.

 

 

 

 

1 pensou em “Obama cover de Bush.

  1. Eça, já lhe disse muitas vezes que seus artigos são otimos e importantes.
    Mas esta bateria de agora me faz pensar que poderiamos lançar uma campanha de RECALL para o premio Nobel de Obama. E o momento seria agora, com o Brasil bisbilhotado pra valer pela NSA.
    Suspeito (ou sonho) que teriamos apoio mundial, sem muito esforço.
    E depois… depois da campanha vitoriosa poderiamos pensar numa 2a parte, passando o Nobel para o Maning.
    Abraço

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