Por trás da demonização de Assad.

A proposta russa de destruição das armas químicas, sob controle internacional pode ter evitado o ataque à Síria.

Inicialmente os EUA aceitaram, depois voltaram atrás para, por fim, Obama concordar. Claro, sem se interromper a investigação feita pela ONU do incidente de Ghouta.

Mais importante do que isso seria acabar com a guerra, que está martirizando o povo sírio.

Duvido que, se os EUA e a Arábia Saudita pressionassem os rebeldes e a Rússia e o Irã fizessem o mesmo com o governo, as partes não topariam reunir-se e engolir um acordo de paz, mesmo a contra gosto.

Mas acho que dificilmente acontecerá, o principal objetivo americano não é o fim do conflito, é o fim do regime sírio.

A guerra civil não tinha ainda um ano e já Obama e a secretária de Estado de então, a sra.Clinton, apresentavam Assad como um misto de Hitler e Gengis Khan, que perdera legitimidade por massacrar o povo.

Sua defenestração era mais do que necessária.

Embora os rebeldes também praticassem violências, somente as de responsabilidade do governo eram divulgadas e aceitas como verdade pelos EUA e aliados.

Coisa que nem sempre eram.

Como em Houla, quando vídeos no You Tube mostravam os corpos de 100 civis que teriam sido mortos pela gente de Assad.

A opinião pública mundial ficou absolutamente chocada até que reportagem no jornal alemão Frankfurter Algemine Zeitung mostrou que os autores do massacre teriam sido provavelmente os rebeldes, pois a maioria dos mortos eram xiitas e alauítas, firmes apoiadores do governo.

Em Tremseh, a história se repetiu: mais de uma centena de civis mortos pelo “satânico” Assad. Desta vez o desmentido veio pelo New York Times: “…as evidências disponíveis sugerem que os eventos de quinta-feira estavam mais perto de terem acontecido conforme a versão do governo.”

Com o prosseguimento da guerra, o imenso número de mortes civis, mais as multidões desalojadas, fugindo para os países vizinhos, reclamavam uma ação da comunidade internacional.

Os EUA apresentaram várias propostas à ONU: todas condenando o governo de Damasco, exigindo sua derrubada.

Talvez pressionado pela Rússia, Assad várias vezes declarou-se a fim de discutir a paz com os rebeldes.

Os EUA sempre se manifestaram contra, alegando que seriam apenas medidas protelatórias.

Os russos chegaram a preparar um plano de paz, baseado em ideias negociadas em Genebra, numa reunião das potências interessadas em ajudar os sírios.

Hillary Clinton logo colocou obstáculos: declarou que só seria aceitável se previsse “consequências” caso o regime não cumprisse o acordado.

Os russos desistiram. Foi com base numa cláusula destas que a resolução de zona de exclusão aérea na Líbia foi transformada em licença para intervenção militar estrangeira.

Por sua vez, o Irã, grande aliado de Assad, ofereceu-se para ajudar a mediar a paz. O Secretário-geral da ONU apoiou, declarou que “o Irã não poderia ser ignorado”. Impossível, responderam os americanos, como eles podem ajudar se são  parte do problema, por fornecerem armas ao governo.

Estranho argumento pois Arábia Saudita, Turquia, Qatar e Emirados também fornecem armas e são aceitos pelo Ocidente nas conversações para resolver o impasse sírio.

Há uma diferença: eles ajudam os rebeldes…

Foi dos iranianos a melhor proposta apresentada até então. Ela previa que todos os países que enviavam armas ou dinheiro, parassem com isso; conversações de paz entre as partes em luta; supervisão, por potências da região, do processo de encerramento das violências e de negociações, entre outras medidas.

Os EUA continuaram rejeitando qualquer participação iraniana. Afinal, nada de bom poderia vir desses bad guys.

Como rejeitaram outra tentativa de acabar com essa guerra devastadora.

Al-Khatib, líder da coalizão da oposição síria, propôs negociar com o inimigo. Foi também fortemente criticado pelos seus parceiros.

E tudo não deu em nada.

Diante destes fatos, a pergunta que fica é: porque os EUA querem tanto destruir o regime Assad?

Eliminamos as “razões humanitárias”, os americanos certamente sabem que violações do direitos humanos acontecem dos dois lados.

Há quem diga que o petróleo seria um bom motivo, pois descobriu-se que a Síria tem imensas jazidas inexploradas. Certamente, não faria negócio com empresas de países tão pouco amigáveis.

Acredito que por traz da fúria anti- Assad estejam razões políticas.

A primeira é o fato do regime sírio ser o principal aliado do Irã no Oriente Médio.

Sendo o único país em condições de contestar a hegemonia dos EUA no Oriente Médio, por seu poderio econômico e militar, o Irã é uma pedra no sapato de Tio Sam, desde a revolução islâmica, que derrubou o xá.

Enfraquecer o Irã via queda de Assad atenderia também aos satélites Israel, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Kuwait.

Israel porque o Irã é seu mais duro inimigo.

A Arábia Saudita, que é sunita, se ressente muito da influência dos iranianos sobre os xiitas, concentrados justamente na principal região petrolífera do país.

Teme também a força militar de Teerã, assustadora, devido a seu possível programa atômico.

O Bahrein se vê na mesma situação.

O Kuwait e os Emirados sentem-se ameaçados por uma república islâmica nas suas proximidades, capaz de estimular os dissidentes desses países.

Todos eles não vêm a  hora de Obama ordenar a partida dos mísseis.

A rejeição do Parlamento britânico e do povo americano fez o presidente adiar esse momento tão ansiosamente esperado pelo war party.

Para reforçar sua posição, ele resolveu submeter sua belicosa decisão ao Congresso americano.

Não deu certo.

A oposição cresce nas duas casas. Considera-se hoje duvidoso o apoio do Senado. E na Câmara dos Representantes, a derrota é bem provável.

Afinal, as eleições vem aí e os congressistas não querem desgostar o eleitorado americano, majoritariamente contra o ataque à Síria, conforme todas as pesquisas.

Diante deste quadro nada otimista, a discussão do ataque foi adiada no Congresso.

Mesmo que o governo americano acabe aprovando a proposta russa de liquidar as armas químicas sírias, o principal problema, a guerra, ainda está longe de ser solucionado.

Há quem espere que, com a ascenção  do moderado Rouhani ao governo, o Irã e os EUA cheguem a um acordo de convivência pacífica.

Com isso, não seria mais tão importante para os EUA arrasar o governo Assad.

Ficaria mais fácil se chegar a um acordo que pusesse fim à guerra da Síria.

 

 

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