O império vive ?

O Presidente Barack Obama já falou em diversas ocasiões em “relações igualitárias” com diversos países do mundo.

Também é inegável que procura, ao menos ostensivamente, tratar com outros países de igual para igual, evitando comportamentos imperiais. Veja por exemplo como ele vem discutindo há cerca de um ano com o governo Karsai o tratado que vai regulamentar a permanência de forças americanas depois da partida do grosso do exército em 2014.

Em vez de impor a continuação dos raids noturnos, odiados pelo povo afegão, ele discutiu longamente a questão. Por fim, apresentou uma solução conciliatória: os raids passariam a ser realizados por tropas afegãs, com apoio americano, depois de autorizados pelo governo local.

É verdade que seus militares já informaram que isso seria apenas na teoria. Todos os raids que o exército americano achasse necessário seriam tocados por eles, evidentemente, o governo de Kabul não iria vetar.

Na retirada do Iraque, os EUA pretendiam deixar uma força especial, para o que desse e viesse, mas desistiram depois que o governo iraquiano exigiu que os soldados de Tio Sam ficassem sujeitos à lei afegã.

No caso do Paquistão, porém, Obama tem escorregado e se comportado como um legítimo suserano desse país asiático.

No ano passado, suas forças especiais entraram no território afegão, sem pedir licença ao governo de Islamabad, e lá atacaram e mataram Bin Laden, mais uns tantos sequazes.

Alegou  que o sigilo dessa operação era necessário pois a policia secreta afegã seria nada confiável e, provavelmente, preveniria o líder da Al Qaeda.

Talvez tivesse até razão, mas para o Direito Internacional a ação americana constitui uma violação da soberania paquistanesa.

Se o Paquistão fosse uma colônia americana, nada a opor.

Como não é, Obama agiu de uma maneira, digamos, imperial.

Mas não ficou nisso.

Desde os tempos de Bush, os EUA bombardeiam a região do Waziristão, limítrofe ao Afeganistão, para matar talibãs ali refugiados, usando drones – os aviões sem piloto.

Mas, tudo bem, o governo autorizava.

Tudo bem, mas em termos.

O povo protestava indignado por que os drones – apesar de sua elevada precisão tecnológica – acabavam matando ou ferindo pacíficos camponeses que estavam próximos aos alvos.

As estatísticas variam muito. É possível estimar em cerca de 1.000 vítimas inocentes.

Os militares também protestavam. Para eles, os drones violavam  a soberania nacional. Afinal, tratava-se de aeronaves estrangeiras, invadindo o espaço aéreo do país, bombardeando seu território e, ainda por cima, matando pacíficos cidadãos que nada tinham a ver com talibãs ou quejandos.

Os protestos cresceram no governo Obama porque ele aumentou muitas vezes os vôos mortíferos sobre o Paquistão.

Os deputados somaram-se aos protestos. E até mesmo ministros.

Mas o presidente Zardari, bom amigo dos EUA, era grato aos 3 bilhões de dólares que recebia anualmente, e , embora de boca para fora, também clamasse contra os drones,  continuava dando sinal verde para eles.

Mas, em novembro último, houve um erro estratégico e a aviação americana atacou dois postos de fronteira afegã, matando 26 soldados.

Foi demais para o povo e os militares afegãos.

Pressionado, o governo exigiu desculpas formais e tomou umas quantas medidas contra os interesses americanos, inclusive, proibiu os vôos dos drones. E, ainda, declarou enfaticamente que seria necessário rediscutir as relações EUA- Paquistão.

De cara, Obama lamentou o sucedido mas, desculpas não, enquanto o exército não processar um inquérito sobre o fato.

Durante um certo tempo, enquanto as discussões se processavam, os EUA mantiveram os drones em terra.

Passadas algumas semanas, como quem não quer nada, os drones voltaram a atacar.

Aí a coisa ficou feia.

O Parlamento, não só reafirmou a proibição dos drones, como também das tropas da OTAN e dos EUAS entrarem no território afegão em perseguição de talibãs em fuga.

E Zardari foi posto contra a parede. Agora, seria pra valer!

O presidente não teve jeito.

Mandou o primeiro ministro Gilani a Washington para discutir com Obama diversos contenciosos com a Casa Branca, inclusive a questão dos drones.

Mas, deixou bem claro: cuidado ai, Gilani, vai numa boa!

Gilani foi.

Obama ouviu educadamente. E, naquele seu tom amigável, ele comunicou que os EUA “não estavam ainda preparados para suspender os ataques    dos drones”. Portanto, passemos para outro assunto.

Gilani voltou completamente sem jeito.

Mas o Parlamento ficou enfurecido.

Reuniu-se de novo e, desta vez por unanimidade, exigiu um imediato stop nos vôos dos drones e de qualquer incursão de tropas estrangeiras em território afegão.

Gilani, que estava presente, garantiu que todas as recomendações do Parlamento seriam  implementadas.

Foi aí que, Chaudry Nisar Ali Khan, o líder da oposição, fez uma pergunta indiscreta: o que o governo faria se os EUA se negassem a aceitar a decisão paquistanesa?

A resposta foi bombástica :”Nós estamos fazendo História, hoje. E demonstramos que temos a força, a resolução e a capacidade de tomar decisões críticas no interesse da nação.”

E assegurou que todas as decisões do parlamento seriam implementadas.

No dia seguinte, a imprensa americana ouviu altas autoridades da Casa Branca.

Elas explicaram que o bombardeio dos drones sobre as áreas tribais do Paquistão não cessariam. Continuariam acima de qualquer objeção porque os ataques provaram ser muito bem sucedidos.

E estamos conversados.

Falta agora ouvir duas pessoas.

O presidente Zardari precisará responder se exige respeito pela soberania do seu país ou se submete de vez à hegemonia americana.

O presidente Obama precisará mostrar se respeita o Direito Internacional ou se prefere comportar-se como o chefe de um império.

 

 

 

 

 

1 pensou em “O império vive ?

  1. Indago o mesmo que já indaguei neste blog em outro post, há uma diferença siginificativa entre os govrernos democratas e os governos republicanos ? Entre Obama e Romney ? Entre Obama e Bush ?

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