Mélenchon: a esquerda ressurge.

O fim da União Soviética arrastou consigo os partidos comunistas do mundo. Com as raras exceções conhecidas.

A crise de 2008 feriu profundamente a social-democracia européia.

Em toda parte, os partidos de esquerda, em nome do realismo, abandonaram as propostas socialistas e se confundiram com os partidos de centro e até de direita, fazendo concessões profundas para garantir a sobrevivência, na oposição, e a governabilidade, quando no poder.

Alguns conservaram ainda a fraseologia marxista e as denúncias teóricas do capitalismo, sem porém apresentar um corpo de idéias novas, de reformas estruturais ,que se diferenciassem de um passado e seus erros e se configura-se como um autêntico socialismo para o nosso tempo.

Na França, onde a esquerda colheu uma sucessão de derrotas depois da morte de Mitterrand, surge um candidato à presidência capaz de preencher essa ausência.

É  Jean Luc Mélechon.

No começo, a Imprensa só se referia a ele para zombar do radicalismo de suas idéias, da pretensão de um desconhecido, líder de um partido minúsculo, ousar apresentar críticas e propostas tão audaciosas.

Mas, aos poucos, sua mensagem começou a ser ouvida. As pessoas começaram a discuti-las. E as pesquisas revelavam um crescimento contínuo.

A imprensa foi obrigada a tratá-lo com respeito, a dar espaço ao que ele dizia e não simplesmente ao que dele se dizia com desprezo.

Seus comícios passaram a ser os mais concorridos. Em Toulouse, foi o maior de todos  com 70 mil pessoas.

Certo que os franceses, diante da crise e do desemprego, estavam desencantados com os partidos habituais, dispostos a aceitar quem renegasse seu discurso gasto

por sucessivos fracassos.

Assim, Mélenchon e sua pregação caíram em solo fértil.

Ele se diferencia da esquerda tradicional por não se limitar a criticar o capitalismo. Nem a pretender corrigi-lo, como os socialistas franceses de hoje.

Quer ir mais longe.

Propõe a Refundação da República através de uma Assembléia Constituinte cujo objetivo seria definir as “regras  da vida comum” para enfrentar não só a crise atual mas os problemas que o planeta atravessa.

As idéias que Mélenchon defende são simplesmente revolucionárias: democracia direta, com plebiscitos freqüentes para decidir questões fundamentais como a participação do país na OTAN e o Tratado de Livre Comércio entre Europa e EUA, a vigorar em 2017.

Quer também impostos fortemente progressivos, romper com o Tratado de Lisboa para se chegar a uma nova Europa cooperativa, retirar as tropas francesas do Afeganistão, planificação ecológica, direito de veto aos trabalhadores sobre decisões das empresas que ameacem direitos sociais, direito de preempção, pelo qual os trabalhadores de uma empresa posta à venda tenham preferência, podendo assumir seu controle sob forma cooperativa.

Ele considera a União Européia gravemente enferma por causa da sua organização liberal. A saída seria o Banco Central Europeu emprestar aos Estados à mesma taxa que cobra dos bancos privados, 1%. O que acontece hoje é que os bancos privados emprestam esse mesmo dinheiro barato aos países em crise com juros de até 17% (caso da Grécia).

Àqueles que qualificam suas idéias como fantasias, Melenchon lembra que a inovação política faz parte das tradições da França.

A Sarkosy que atacou seu programa por ter custos irrealistas, ele respondeu, perguntando ; “Qual o custo da ignorância que o senhor espalhou,cortando empregos de professores? Qual o custo da saúde perdida, quando os pobres não encontram meios para se tratar? Da prisão de menores? Das 564 pessoas que morrem anualmente no trabalho? Peço-lhe contas , eu, por esta sociedade absurda.”

Na última pesquisa, realizada pela BVA, Melenchon disputava o terceiro lugar com Marine Le Pen, da extrema direita, ambos com cerca de 15% das intenções de voto.

Ele não deve ir mais longe.

Sua abordagem radical da situação política implica em transformações muito profundas, excessivamente arriscadas para a maioria da população que, apesar da crise, ainda tem o que perder.

Em termos práticos, o papel de Melenchon na eleição francesa será dar votos para Hollande, o candidato socialista, conseguir vencer Sarkosy no segundo turno.

Há, porém, quem veja sua campanha de uma forma diferente.

Como o início da Nova Revolução Francesa.

 

1 pensou em “Mélenchon: a esquerda ressurge.

  1. A questão é se o povo francês apoia as idéias de Mélenchn. Parece que não suficientemtne. Outra coisa, não seria necessário que o BCE emprestasse dinheiro a França ou a qualquer outro país. O BCE teria que proceder como o BC de um pais deve proceder com umas das entidades da federação. Desde que a orientação deste BCE não seja ortodoxa, mas heterodoxa, keynesiana,ou neo-keynesiana, mas particularmente da chamada “finança funcional” de Abba Lerner que diz que o Estado pode e deve emitir à vontade para pagar todas as suas exigibilidades. Keynes mesmo já havia dito que, enquanto houver desemprego, a Teoria Quantitativa da Moeda não vale. Portanto, enquanto houver desemprego, deve-se emitir, investir de forma estatal, gerando emprego e pagar este investimento com emissão monetária. Sobre isso ver “Trabalho e Moeda Hoje” de Randal Wray. Editora da UFRJ prefácio de Carlos Lessa e orelha de José Carlos de Assis.

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