O anjo da morte vai para o inferno

Durante a ditadura militar argentina (1976-1983), cerca de 30 mil pessoas “desapareceram”, foram executadas. As Mães da Praça de Maio eram um grupo de senhoras que se reunia na Plaza de Mayo, em frente ao palácio presidencial, pedindo notícias de seus filhos e netos, levados pelas forças de segurança.

Um jovem alto, louro, de ar inocente, uniu-se a elas, em solidariedade. Ele ganhou a confiança de todas e, graças a isso, organizou o seqüestro e assassinato das líderes Azucena Vilaflor, Esther Ballestrino e Maria Ponce.
O jovem era um tenente da Marinha, Alfredo Astiz, que trabalhava na Escola de Mecânica da Armada (ESMA), o principal centro de torturas da ditadura. Dos 5.000 presos que passaram por lá, 90% foram mortos. Alguns executados por esquadrões da morte, outros lançados vivos de aviões no Oceano Atlântico.
Conhecido como o “anjo da Morte”, Alfredo Astiz teve grande participação nestes crimes. Tornou-se um símbolo das torturas do regime.
Findo o regime militar, as vítimas começaram a processar os responsáveis pelas torturas e assassinatos. No entanto, com a “Lei da Obediência Devida”, do presidente Alfonsin, aqueles que alegaram ter de seguir ordens foram anistiados. E com a lei do Ponto Final do presidente Menem, os comandantes também ficaram isentos de responsabilidade penal. Automaticamente, todos os processos foram suspensos.
Com Néstor Kirchner, a situação mudou. Ele realizou uma profunda depuração nas Forças Armadas e no aparelho de segurança, demitindo ou aposentando aqueles que eram notoriamente comprometidos com o regime de terror. Para renovar a Suprema Corte, afastou os ministros que sempre haviam votado automaticamente a favor do governo Menem. Foram substituidos por advogados e juízes defensores dos direitos humanos para buscar um equilíbrio ideológico entre os membros da Corte.
Em seguida, a nova Suprema Corte declarou inconstitucionais as leis de Obediência Devida e Ponto Final. E os processos contra os criminosos da ditadura foram reabertos, muitos por iniciativa do próprio governo.
Assassinos civis e militares, inclusive generais-presidentes, já foram condenados. Muitos já estão na prisão, outros, velhos generais, vivem em prisão domiciliar devido à sua idade.
Chegou a vez de Alfredo Astiz.
Em 1982, durante a Guerra das Malvinas, ele fora aprisionado pelos ingleses e levado para o Reino Unido.
A França e a Suécia reclamaram sua extradição para responder por crimes de tortura e assassinato de tres freiras francesas e de uma adolescente sueca. Margareth Thatcher, então governante do Reino Unido, negou, alegando respeito à Convenção de Genebra. Em seguida, devolveu-o à Argentina.
Sob a proteção das leis de anistia, Astiz viveu tranquilamente.  Numa entrevista, confessou: ”Digo que a Marinha me ensinou a destruir. Não me ensinaram a construir. Sei colocar minas e bombas, sei infiltrar-me, sei desarmar uma organização secreta, sei matar. Tudo isso sei fazer bem. E digo sempre: sou bruto, mas tive só um ato de lucidez na vida, que foi entrar na Marinha.”
Com a queda da anistia, Astiz foi preso e submetido a processo iniciado em 2009, no Tribunal de Buenos Aires, juntamente com 17 outros indivíduos ligados à repressão.
Pesavam contra eles acusações da prática de 85 crimes contra a humanidade, incluindo seqüestro, tortura e assassinato.
Cerca de 200 testemunhas foram ouvidas durante 22 meses.
Alem de Alfredo Astiz, acabaram também condenados à prisão perpetua o ex-capitão Jorge Eduardo Acosta, conhecido como “El Tigre”, chefe de operações da ESMA; o ex-almirante Oscar Montes; os ex-capitães Adolfo Donda e Alberto Gonzalez: os ex-tenentes Julio Cezar Cronorel, Jorge Radice e Nestor Savio; e os ex-agentes Raul Scheller e Ernest Weber.
Quanto aos demais, 4 foram condenados a penas entre 18 e 25 anos e 2 absolvidos.
O principal réu, o ex-almirante Emilio Masserta, comandante da ESMA, não foi condenado por ter morrido no ano passado.
Assim o “Anjo da Morte” recebeu, por fim, seu castigo. Muito inferior ao que ele infringiu a tanta gente.
Talvez nem tanto.
Na solidão de sua cela, seu inferno particular, as recordações dos crimes que ele cometeu serão seus companheiros diários.
Para sempre.

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