McDonald´s boicota assentamentos e anima resistência civil.

A rede McDonald´s, apontada internacionalmente como um dos ícones do american way of life, deixou todo mundo de boca aberta.

Não para comer hamburgers ou hot-dogs, mas por defender a causa do povo oprimido da Palestina.

E o fez esquecendo seus interesses comerciais ao se negar a abrir uma de suas lanchonetes num shopping- center planejado em Ariel, um assentamento israelense na Cisjordânia.

A medida nada tem a ver com a McDonald´s internacional, pois foi de responsabilidade exclusiva do proprietário judeu da franquia em Israel.

Ele é Omri Padan, que foi um dos fundadores do movimento “Paz Agora”.

Sua política é não participar de forma alguma da vida econômica dos assentamentos pois considera a ocupação dos territórios da Cisjordânia por Israel como ilegal e injusta.

A população dos assentamentos e os habitantes de Israel que os apoiam ficaram furiosos com a atitude de Oran. Nos jornais e na TV, saíram matérias, chamando o dono do McDonald´s de “traidor” e “inimigo de Israel”.

Sentiram o golpe.

De fato, a recusa de uma multi- nacional do porte da McDonald´s em investir nos assentamentos é potencialmente muito prejudicial aos interesses de consolidação da ocupação.

Ou da anexação total da Cisjordânia, como querem alguns ministros do governo Netanyahu.

Tzahi Nahmias, co-proprietário do shopping de Ariel, deu uma ideia da gravidade do problema ao jornal Calcalist. Ele contou que diversas empresas internacionais ou com franquias em Israel, convidadas a participar do seu shopping, demonstraram preocupação sobre possíveis  consequências negativas nos seus negócios no exterior, caso abrissem lojas num assentamento.

Para Rafael Ziadah, do “Movimento de Boicote, Desinvestimentos e Sanções”, a recusa da McDonald´s Israel “irá estimular outras corporações a encerrar sua cumplicidade com a ocupação de Israel.”

Foi mais uma vitória da campanha “Boicote Israel”, iniciada em 2005, que propõe o boicote de empresas, produtos, serviços e contatos culturais com Israel, enquanto não for interrompida a criação de novos assentamentos e instituído um estado palestino independente, nos limites de 1967.

 Muitas entidades já apoiaram o boicote, como a Assembleia Geral da Igreja Presbiteriana (EUA), o Conselho Mundial das Igrejas e a União dos Trabalhadores da Irlanda, a União dos Jornalistas da Inglaterra e a Igreja Metodista desse país.                O governo belga proibiu a venda de armas a Israel. E a Olympia Food Corporation (EUA) deixou de trabalhar com produtos israelenses.

O desinvestimento – saída de empresas instaladas nos assentamentos- foi defendido pelo Sínodo da Igreja da Inglaterra e pelo Conselho Regional da província de Trondelag (Noruega).

 Artistas como Elvis Costello, Meg Ryan, Bom Jovi e Santana cancelaram suas apresentações em Israel.

A Caterpillar, que vinha fornecendo tratores para o exército israelense demolir casas e outras construções de palestinos, foi também objeto de boicote.

Uma empresa americana, a MSCI, retirou a Caterpillar de três dos seus índices que relacionam empresas socialmente responsáveis.

Como resultado dessa decisão, o TIAA-CREF, um fundo mútuo americano gigantesco, deixou de trabalhar com ações da Caterpillar, que totalizavam 72 milhões de dólares do seu fundo de “Opção Social”.

Ainda neste ano, o cientista Stephen Hawking, recusou-se a aceitar convite para participar de reunião internacional de intelectuais, cientistas e chefes de estado, em Israel.

Isso provocou ruído em todo o mundo pois o cientista dispõe de grande prestígio em toda a parte.

Ele recebeu criticas, alegou-se que a reunião não teria objetivos políticos alem de ser proposta por, Shimon Peres, considerado por muitos um defensor da paz.

Mas Hawkings ficou firme, sem entrar nos méritos de Peres, afirmou que  o sentido de sua recusa era não pactuar com um regime (presidido por Peres) que praticava atos contra os direitos humanos dos palestinos.

O boicote vem se expandindo ano após ano. No princípio, o governo de Telaviv não se preocupou, mas há 2 anos, as coisas mudaram.
Numa demonstração de que o boicote estava tirando o sono de Nethanyau, o Knesset (Congresso de Israel), em 11 de julho de 2011, aprovou uma lei que criminaliza pessoas ou instituições israelenses que se pronunciassem publicamente a favor do boicote.

A lei dispõe ainda que qualquer pessoa ou empresa de Israel ou dos assentamentos que se sentir prejudicada por declarações pró-boicote poderá processar o autor, pedindo indenizações, sem precisar provar os danos.

 A lei anti- boicote foi considerada anti- democrática  e condenada pelas entidades israelenses de defesa dos direitos humanos como séria violação do direito de expressão.

Foi quando a organização Paz Agora, pela primeira vez, declarou-se favorável ao boicote dos produtos dos assentamentos.

 A Anistia Internacional, diversos membros do parlamento europeu e até o New York Times (normalmente favorável a Israel) condenaram a lei como contrária aos princípios democráticos. 

O boicote é uma das ações indicadas por Marwan Barghouti, respeitado líder palestino, como parte da sua proposta de resistência pacífica.

Torna-se cada vez mais viável, uma vez que John Kerry não está conseguindo convencer Abbas e Netanyahu a se sentarem na mesa de negociações.

De outro lado, a solução militar parece sem chance, dada a desproporção do poder militar das partes, em favor de Israel..

O Hamas continua a defende esse caminho, mas é incoerente pois, não só deixou de atacar Israel, como também criou uma força de 600 homens para impedir que os radicais de Gaza continuassem lançando seus mísseis domésticos contra o território judaico.

Não será fácil que se criem condições para que os palestinos busquem a independência pela resistência pacífica.

Seria necessário que Hamas e Fatah se reconciliassem e se unissem, o que não foi conseguido em pelo menos 4 tentativas.

O Hamas teria de desistir das suas ilusões de derrotar Israel pelas armas.

Por sua vez, Abbas teria de interromper a colaboração de suas forças de segurança com o exército de Israel e declarar o fim da Autoridade Palestina.

Sem ser forçado, ele jamais topará porque visivelmente não deseja perder sua confortável posição, alem de já ter se comprometido demais com os EUA.

A ampliação dos boicotes seria um reforço à auto- estima dos palestinos, que os faria se sentirem capazes de resistir e até vencer.

Boicote e resistência civil podem ser utópicos.

Mas, existirá outra saída?

 

 

 

 

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