O que esperar de Rouhani.

A vitória do moderado Rouhani na eleição iraniana criou esperanças de solução do contencioso com o Ocidente.

Mas, será que ele pode ser tudo isso?
Acho que sim, baseado no seu passado e nas suas últimas declarações.

Rouhani foi chefe dos negociadores da questão nuclear, no governo do reformista Khatami, no período 2003/2005.

Sobre ele, depôs Jack Straw, na ocasião chefe dos negociadores ingleses e ministro do Exterior do governo Tony Blair: “Quando Rouhani estava do outro lado da mesa estava claro que ele dispunha de autoridade. Ele era sempre cortês, claramente determinado a defender os interesses do povo iraniano e da república islâmica. Exatamente como nós defendíamos nossos interesses. E ele o fez pragmaticamente.”

E foi o pragmatismo que  levou Rouhani a fazer concessões.

Voluntariamente, ele suspendeu o enriquecimento do urânio entre 2003 e 2005 . Além disso, implementou o Protocolo Adicional da IAEA (Agência Internacional de Energia Atômica), o que fortaleceu o poder de inspeção da IAEA.

Foram decisões que pegaram muito bem nas chancelarias das grandes potências.

E, assim, em 2005, Rouhani e o então presidente da França, Jacques Chirac, chegaram a um acordo sobre o enriquecimento iraniano de urânio para fins pacíficos.

Os representantes da Alemanha aprovaram mas Bush rejeitou. Sob pressão americana, o Reino Unido também foi contra e nada se resolveu.

Em 2006, Rouhani escreveu um artigo na revista Time, afirmando que o Irã não tinha interesse algum num programa de armas nucleares.

Disse coisas que até os EUA endossariam: “Um Irã nuclearmente armado desestabilizaria a região, promoveriam uma corrida regional por armas e esgotaria os escassos recursos (de minérios nucleares) da região.”

E foi realista: “Considerando a política dos EUA de garantir a posição estratégica de Israel, uma bomba atômica iraniana não traria ao Irã quaisquer dividendos em matéria de segurança.”

Em conclusão, Rouhani propunha: “”Uma solução negociada precisa ser encontrada para fortalecer o principio de não- proliferação e evitar um estúpido e desnecessário conflito.”

Na campanha eleitoral, ele expôs que se chegaria a esta solução “fortalecendo a confiança entre o Irã e os outros países.”

Refazer as boas relações com os EUA, rompidas desde 1979, com a revolução islâmica, foi um dos objetivos apresentados pelo novo presidente.

Há muito tempo que EUA e Irã são inimigos.

Atualmente, os americanos vêm os iranianos como ferozes fanáticos, prontos a produzir bombas nucleares para lançá-las, primeiro em Israel e depois nos EUA.

Por sua vez, os iranianos atribuem o desemprego, a carestia, a inflação e o desabastecimento às sanções, engendradas pelo governo americano.

Rouhani admite que mudar essa situação será difícil.

Mas, declarou que, com boa vontade e moderação, será possível que se consiga que os dois povos façam as pazes.

Manifestar esse desejo não é pouca coisa num país onde políticos e imprensa só se referem aos EUA como um inimigo mortal.

Rouhani foi também corajoso numa área extremamente delicada: a dos direitos humanos.

“Abrir os cadeados que estreitam a vida das pessoas”, “acabar com o clima de perigo iminente”, condenar as perseguições dos civis pelos “policiais à paisana” – são frases fortes, que representam firmes críticas ao autoritarismo do establishment iraniano.

Note-se que Rouhani não pretende eliminar o regime político vigente.

Seu objetivo é substituir o fanatismo pela moderação, estabelecer princípios democráticos e humanistas, que estariam nas raízes da revolução islâmica, mas dos quais os mandatários do poder se desviaram nos últimos 8 anos.

Ele tem profundas ligações com os principais líderes do país.

Por isso mesmo, pode fazer muito mais pelas mudanças no Irã do que faria o reformista Rafsanjani, proibido de concorrer à presidência pelo Conselho dos Expérts.

Mas surge uma dúvida: sendo Khatemi e os clérigos que governam o país figuras autoritárias, que possuem total controle do país, porque aceitaram a eleição de alguém que esboça um governo radicalmente diferente do deles?

Rouhani teve mais votos do que todos os outros candidatos juntos. E o sentido da sua candidatura foi de clara oposição ao governo Ahmadinejad.

Mesmo regimes autocráticos respeitam a voz das ruas, especialmente em momentos de crise, quando não se sentem em condições de tirar o país do buraco.

Khatemi e os seus sabem que as sanções estão destruindo o Irã. E eles não podem fazer nada.

Preferiram passar o bastão para alguém com ideias diferentes, mas que vai conservar o regime revolucionário islâmico.

No primeiro momento, os líderes ocidentais reagiram de forma positiva à vitória de Rouhani.

Obama expressou votos otimistas. Falou até em dar um prazo de anos para que se alcance uma saída diplomática na questão nuclear.

Hollande, o presidente da França, ficou tão satisfeito que admitiu que o Irã, agora sob nova administração, poderia fazer parte da conferência de Genebra, para discutir a paz na Síria.

Até há pouco ele fechava questão contra a participação iraniana, endossando a posição da diplomacia americana.

Como se esperava, Netanyahu está esperneando de raiva.

Ele não admite paz com o Irã. Quer porque quer o confronto, de preferência armado.

Está em jogo, não a sobrevivência de Israel, mas sua hegemonia na região.

Netanyahu clama contra a “inocência” dos que acreditam que o Irã pode mudar.

Faz exigências exageradas: paz, só se o Irã renunciar totalmente ao enriquecimento do urânio, mesmo a 3,5%, que todos os seus aliados aceitam.

Bem, Rouhani não vai topar.

Ele disse que há outros modos de garantir ao Ocidente certeza de que o Irã não esconde perigosos planos nucleares.

Na verdade, tudo depende da confiança.

No Irã de Ahmadinejad ela não existia depois que o presidente prometeu riscar Israel do mapa. Ele esclareceu que falava em sentido figurado mas a propaganda israelense e americana convenceu o mundo que era mesmo pra valer.

Rouhani, por sua vez, embora não morra de amores por Israel (longe disso), não fez qualquer ameaça.

Tem um passado limpo, com uma folha corrida de ações bem intencionadas no trato com as grandes potências.

Já fez, em diversos anos, afirmações claramente contrárias à ideia de armas nucleares iranianas.

Até prova em contrário, nenhum país tem o direito de desconfiar dele quando garante que o programa do seu país é pacífico.

 

 

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