Matar ou matar

O operador da CIA se senta diante de uma tela e de uma série de controles. Consulta dados enviados por um informante da região onde vivem os inimigos. Com base neles, localiza o alvo, um ou mais indivíduos. A seguir, manobrando um joy stick, passa esses dados para um avião sem piloto e o dirige em direção ao alvo.

O avião sem piloto – o chamado drone – está equipado com uma câmera de precisão digna de um filme de science fiction. Através dela, o operador observa o alvo, o inimigo, com precisão absoluta – dá até para ver o cara acendendo um cigarro. Aí, é só apertar um botão e o avião dispara um míssil fulminante que atinge o alvo em cheio, acabando com ele.
É assim a nova guerra americana.  É a guerra perfeita: você mata os inimigos, sem se arriscar a morrer.
Os drones estão sendo usados em larga escala no Paquistão contra os talibãs, fazendo o maior sucesso na Casa Branca.
Só tem um inconveniente: ao invés de se concentrarem em, digamos, clubes fechados ou campos de treinamento exclusivos, os talibãs insistem em morar em regiões habitadas, em conviver com civis inocentes. Que acabam sendo mortos com ele porque a ação dos drones não tem precisão cirúrgica.  Destroem o alvo e todos que estão por perto..
Como os ataques se baseiam em informações de gente da região, acontece o que Stafford Smith, Diretor da Ong Retriever, conta: ”Nós americanos oferecemos grandes recompensas aos informantes e os informantes venderiam suas próprias mães…” E assim, não há segurança alguma de que o cidadão apontado como tenebroso talibã não seja apenas um incauto camponês apolítico.
O resultado é que, apesar dos cuidados dos operadores da CIA, além de talibãs, os drones têm matado civis em número ponderável.
Quantos?
As opiniões diferem. A Brooking Institution afirma que morrem 10 camponeses para cada talibã alvejado. Segundo o Birô de Jornalismo Investigativo, de 2004 até agora, os drones liquidaram mais de 2.300 civis, dos quais 175 eram crianças. Para a Comissão de Direitos Humanos do Paquistão, em 2011, somente até setembro, foram 957 os inocentes executados.
A história dos drones começa nos tempos de Bush, em cujo quatriênio foram lançados 42 desses mortíferos engenhos. Obama foi muito além. Já no seu primeiro ano de governo, superou os 4 anos de Bush, com 53 viagens de drones. Atualmente, é desfechado 1 ataque a cada 4 dias(dados da New American Foundation).
Certamente, Obama lamenta, mas, afinal, guerra é guerra. Guerra ao terror, no caso, expressão publicitária criada oportunisticamente pelo governo Bush para justificar a supressão de uma série de liberdades civis, medida que só costuma ser aplicada quando um país está mesmo em estado de guerra. Segundo juristas americanos, não é o que acontece nos EUA.
De qualquer maneira, o problema é que os EUA não estão em guerra com o Paquistão. São mesmo grandes amigos. Será justo matar amigáveis cidadãos paquistaneses com o argumento de que isso é inevitável na luta contra os talibãs?
Seria o mesmo que o governo brasileiro mandasse bombardear favelas para matar os narcotraficantes.
Afinal, uns e outros são inimigos das sociedades americana e brasileira.
Mas, considerações dessa ordem não abalam Obama, que, não só multiplicou os ataques de drones no Paquistão, como também os estendeu ao Iemen, Etiópia e  Somália.
Em vez de pensar pela cabeça do bélico Leon Panetta – principal responsável pela expansão dos drones, hoje Secretário da Defesa- Obama deveria ouvir seus conselheiros liberais (se é que ainda os tem).
Eles lhe diriam que, segundo a Carta da ONU, só é lícito matar inimigos em situação de batalha, ou seja, quando há grupos de soldados em conflito armado. Um talibã conversando em casa, mesmo urdindo sinistros complôs contra os EUA, não caracteriza uma situação de batalha.
Diriam também que, desde que os EUA são EUA, ninguém pode ser condenado sem julgamento. Assim o estabeleceram os “Pais da Pátria”, os heróis da independência americana. Ora, na execução com drones, não há julgamentos pois o réu não tem direito de defesa. A CIA o acusa, condena e executa. Não sendo o papa, a CIA não pode ser infalível.
Os presumíveis assessores liberais de Obama também lhe contariam que, em 1960, os EUA assinaram tratados de direitos humanos que proibiam execuções arbitrárias. Exatamente como as que são feitas via drones.
Lembrariam também que a Convenção de Genebra qualifica como crimes de guerra ataques indiscriminados, atingindo a população civil, com conhecimento de que tais ataques causam excessiva perda de vidas.
Em respeito aos “Pais da Pátria”, em 1976, o Presidente Gerald Ford, republicano dos tempos em que o partido era liberal em todos os sentidos, emitiu uma ordem proibindo os assassinatos políticos.
Em 2001, quando aviões israelenses matavam suspeitos de terrorismo, o embaixador americano em Israel afirmou: ”O governo do EUA é contra assassinatos…Eles são execuções extrajudiciais e não apoiamos isso.”
Mas veio Bush, veio o atentado de 11 de setembro e tudo mudou. O ex-Presidente concedeu plenos poderes para agentes e soldados americanos matarem inimigos em todo o mundo, inclusive através de drones.
Quanto a Obama…Não, ele não mudou.
Mais do que os direitos humanos, mais do que a Carta da ONU, mais do que os princípios dos fundadores dos EUA, para Obama pesam os cerca de 2.000 talibãs mortos, inclusive chefes e militantes importantes.
Não foi o que pensou Churchil quando recusou a execução de um plano para matar Hitler, em 1942. Um dos principais motivos foi que seria contraproducente, pois tenderia a provocar a revolta e estimular os alemães a lutar com mais garra.
É o que está acontecendo no Paquistão.
Na última pesquisa, 71% dos paquistaneses consideraram os EUA a maior ameaça para a paz no Paquistão. Os drones são os principais responsáveis por esta rejeição, condenados por 97% da população, segundo recente pesquisa da Pew Research Center.
Ron Paul, pré-candidato à presidência pelo Partido Republicano, comentando o uso de drones, declarou: “… eu acho que (os drones) nos deixam menos seguros. Para cada um que você mata, você está provavelmente criando 10 novos inimigos que nos odeiam e gostariam de nos ferir.”
De fato, é o que está acontecendo. A cada notícia de civis mortos pelos drones, a revolta dos paquistaneses aumenta. Os EUA e o governo Zardari, que autoriza os vôos mortíferos dos drones, são alvos de uma revolta cada vez mais intensa.
Essa revolta tem agora um líder, Imran Khan, de grande capacidade de comunicação com a massa. Os observadores políticos já o vêem como um candidato forte para as eleições de 2013. E sua plataforma é acabar com a corrupção e a submissão aos americanos.
Como o Paquistão é um aliado crucial para os EUA, talvez fosse conveniente para Obama, desta vez, mudar, deixando os drones fechados nos hangares.

1 pensou em “Matar ou matar

  1. Escrevi sobre esse tema no meu blog: salaferio.blogspot.com.br
    É um desrespeito total à vida humana dos que não fazem parte do império americano (como bem definiu J.Luiz Fiori).

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