Israel contra a guerra.

A reunião do P5+1 (EUA, Rússia, China, Inglaterra,  França e Alemanha) com o Irã sobre seu programa nuclear foi uma agradável surpresa.

Todas as partes declararam-se satisfeitas e otimistas quanto à próxima reunião em Bagdá, em fins de maio, quando se espera o esboço do acordo.

Mas Netanyahu e seu Ministro da Defesa, Barak, não gostaram nada.

O Primeiro-Ministro de Israel chegou a condenar as negociações, dizendo que o segundo turno em Bagdá seria um prêmio para o Irã continuar o enriquecimento do urânio, aumentando seu estoque. Para ele, os aliados deveriam exigir que Teerã imediatamente parasse de enriquecer urânio, entregasse tudo que tivesse e desmantelasse a usina de Qom. A qual, sendo subterrânea estaria fora do alcance dos bombardeiros israelenses.

Por sua vez, Barak afirmou que a próxima reunião não teria chance alguma de dar certo. A ameaça persistiria.

Incidentalmente, o mesmo Barak há alguns meses atrás declarou:”Não penso que os iranianos mesmo que tivessem a bomba, lançariam contra os vizinhos. Eles tem consciência total do que se seguiria. Eles tem um processo de tomada de decisões muito sofisticado e compreendem a realidade.”

Como o estadista israelense pôde transformar-se de pomba em falcão é um mistério, menos biológico do que político. Seja como for, depois disso, a credibilidade de Barak ficou um tanto prejudicada.

O fato é que, ele e Netanyahu seguem pregando o ataque implacável ao Irã. O argumento é a ameaça representada pela afirmação de Ahmadinejad de que “Israel será varrido do mapa”, a qual poderia concretizar-se num novo holocausto graças às armas nucleares que estariam sendo produzidas pelo Irã.

Embora tenham conseguido muitos adeptos entre os seus aliados no Congresso americano, na sua terra eles estão longe de terem a maioria.

Pesquisa recente do Israel Democracy Institute, de Telaviv, mostrou que 63% dos israelenses são contra um ataque de Israel ao Irã, por sua conta e risco.

Figuras importantes dos serviços de inteligência tem a mesma opinião.

Em uma reunião na sexta-feira passada, Diskin, antigo chefe do Shin Bet, afirmou a respeito de Netanyahu e Barak : “Eu os tenho observado de muito perto. Eles não são pessoas a quem eu, em termos pessoais, confie para dirigir Israel num evento desta escala (o ataque ao Irã) e ter êxito… Eles dizem ao público que se Israel atacar , o Irã não terá uma bomba nuclear.Isto é falso. Na verdade, muitos experts dizem que um ataque israelense aceleraria a corrida nuclear iraniana.”

O ex chefe  do Mossad, Meir Dagan, qualificou o ataque aos iranianos como uma decisão “estúpida”, pois eles responderiam com uma chuva de mísseis, secundados por mísseis do Hisbolá e do Hamas, que causariam grandes destruições e muitas mortes.

Outro antigo chefe do Mossad, Efrain Halevy afirmou que “o Irã não tem poder para destruir Israel” e que “a crescente radicalização do Haredi (o judaísmo ortodoxo) é uma ameaça maior do que Ahmadinejad”.

Mesmo Tamir Pardo, atual chefe do Mossad, portanto subordinado de Bibi e Barak, falou numa reunião com diplomatas israelenses que um Irã nuclearizado, não constituiria uma ameaça a Israel, como o Primeiro Ministro vem apregoando.

No mês passado, o General Benny Gantz, comandante do exército israelense, expressou confiança numa solução diplomática. Afirmou ainda que não acreditava que os líderes do Irã tentariam desenvolver armas nucleares pois eles seriam pessoas racionais. E, finalmente, advertiu contra a “histeria” na tomada de decisões radicais.

Entre os políticos contrários à guerra, vale citar Ehud Olmert, antecessor do atual Primeiro Ministro e  Shaul Mofatz, líder do Kadima, principal partido de oposição e ex chefe do exército israelense.

Diz Olmert : “Neste momento, não há razão para não falar em atividades militares, mas, definitivamente, não (se deve) iniciar um ataque militar por Israel.”

E Mofatz considera o ataque uma obsessão de Netanyahu. “A grande ameaça ao Estado de Israel”, ele assegura, ”não é o Irã nuclear. ”Para ele, o principal a ser resolvido é o conflito com os palestinos.

Além de todas essas opiniões de autoridades respeitáveis e do próprio povo, temos de considerar ainda que os 16 serviços secretos americanos, mais os serviços secretos israelenses, concluíram:

1-    Não existe programa nuclear iraniano;

2-    Não há nenhum indício de que as autoridades de Teerã estejam pensando nisso.

Estes fatos são inegáveis, o que levou os defensores da guerra, em Israel e nos Estados Unidos, a elaborar uma nova justificação:

– no estágio em que se encontra o programa nuclear iraniano é só eles resolverem que, depois de um  certo número de meses, produzirão sua bomba para, conforme Amadinejad,  ser  lançada sobre Israel.

O próprio serviço secreto israelense desmentiu esse argumento, mesmo antes de ser anunciado. Afirmou que, a vigilância sobre a indústria nuclear iraniana é tão perfeita que, assim que eles derem os primeiros passos no mau caminho, Telaviv será informada.

Os 16 serviços secretos americanos não falaram nada sobre isso. Nem precisava. A revelação de todo o tipo de controles que eles tem sobre as instalações nucleares iranianas não deixa dúvidas. É só o Irã decidir-se que Washington já fica por dentro. E Obama pode mandar alguns mísseis.

Toda essa coleção de depoimentos e informações de experts não sensibilizam nem um pouco a dupla Bibi- Barak.

Eles enxergam longe.

Acusar o Irã de produzir, agora ou no futuro, bombas nucleares para destruir Israel é uma mera desculpa para conseguir realizar seu verdadeiro objetivo: a destruição do regime islâmico do Irã e sua substituição por um governo senão amigo, pelo menos indiferente.

Como todo mundo sabe, o principal problema de Israel é a segurança. Por isso, ela tem de ser uma potência militar muito mais forte do que seus inimigos naturais, os países islâmicos.

Israel pode aceitar uma Arábia Saudita forte e modernamente equipada para a guerra porque esse país é um satélite fiel dos EUA. Além do que os sheiks se preocupam muito mais em faturar com seu petróleo do que com qualquer outra coisa.

O Egito era problema. Mas, depois da última guerra, o então Presidente, Anuar Sadat levou o país para a sombra dos americanos e chegou até a estabelecer relações diplomáticas com Israel. Mubarak continuou a mesma política.

A Primavera Árabe vai, fatalmente, afastar o Egito de Israel. Mas, como ainda dependem dos EUA, demorarão a romper relações diplomáticas com Telaviv. Mesmo aí dificilmente constituirão perigo,  pois suas forças armadas estão extremamente fragilizadas.Levará muitos anos para o país ter condições de reformá-las e reequipá-las até se tornarem modernas e fortes.

Somente o Irã, potência claramente hostil, é páreo para Israel.

Embora seja lógico supor que muito dificilmente o Irã faria guerra com medo dos EUA, a obsessão israelense por segurança leva seu povo a temer um rival poderoso, cujo presidente fez ameaças terríveis.

Medo habilmente explorado por Netanyahu e seus falcões que transformaram uma frase tola de Ahmadinejad, dita num rompante e repetidas vezes desmentida, na senha de um novo holocausto que estaria sendo preparado em sinistras usinas nucleares, escondidas em tenebrosos subterrâneos.

Mesmo acreditando em seu Primeiro Ministro, o povo israelense não quer se arriscar numa guerra potencialmente devastadora. Prefere confiar numa solução diplomática e em Obama, que prometeu atacar o Irã caso ele passasse a “linha vermelha” das ambições nucleares.

Por enquanto, só nos resta esperar pelo segundo turno do jogo, a realizar-se em Bagdá, no dia 23 de maio.

Se tudo der certo, se as grandes potências e o Irã chegarem a um bom acordo, Bibi e Barak ficarão falando sozinhos.

E o povo de Israel terá sua posição anti-guerra respeitada.

 

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