Iraque forever

Em recente artigo em “Anti War” online, o jornalista Kevin Zeese mostrou alguns fatos que questionam as juras de Bush de deixar o Iraque assim que o governo local pudesse conter o terrorismo.

O governo Bush vem construindo ou ampliando uma ampla rede de bases militares no Iraque. Em meados de 2005, eram 106, das quais 14, bem grandes, chamadas pelo Pentágono de “enduring bases” (bases permanentes). O plano é consolidar estas 14 últimas em 4 mega-bases. Não se trata de instalações provisórias, o tipo de construção adotado é para durar muitos e muitos anos. Alojamentos feitos de blocos de concreto para oficiais e soldados, em vez de tendas ou trailers; edifícios projetados para resistir a impactos diretos de bombas; bunkers subterrâneos. Relata o Christian Science Monitor em abril deste ano: “Algumas bases no Iraque são gigantescas. O Camp Anaconda, por exemplo, ao norte de Bagdá, ocupa 17.700 m2 e tem duas piscinas, um ginásio coberto, um campo de golfe-miniatura e um cinema”.

Por sua vez, a nova embaixada americana em Bagdá tem dimensões colossais. É a maior do mundo, ocupando uma área de 100 acres (40 alqueires), dez vezes o tamanho de uma embaixada americana típica e com área igual à do estado do Vaticano. Cercada por autênticas muralhas, terá geradores de energia elétrica e abastecimento de água próprios. 

São obras definitivas, de quem não tem intenções de ir embora. Ainda mais considerando o custo da guerra do Iraque. Estima-se que os gastos militares dos Estados Unidos em 2006 serão de 94 bilhões de dólares. Desde a invasão, essa cifra sobe a 282 bilhões de dólares que deverão chegar a 660 bilhões em 2016, mais do que a guerra do Vietnam. Difícil acreditar que o governo Bush iria sacrificar tanto dinheiro, mais as milhares de baixas militares, só para democratizar e fortalecer o governo do Iraque, retirando-se em seguida. 

. De fato, o general Abizaid, comandante da Coalizão no Iraque, declarou em depoimento ao Congresso que os Estados Unidos não pretendem retirar-se totalmente do Iraque. Ficaria uma força capaz de conter os terroristas e “as ambições de um expansionista Irã.” Aludiu também à necessidade de preservar o fluxo do petróleo, “do qual depende a prosperidade de nossa nação e de todo o mundo”. 

Portanto, democratizado o Iraque, anulado o terrorismo e submetido o Irã, o suprimento de petróleo para os Estados Unidos estaria garantido e os soldados americanos poderiam voltar para casa, menos uma força que permaneceria para “ajudar” o governo iraquiano a manter a paz.

Mas esse cenário róseo ignora uma série de obstáculos. 

A democracia só será viável no Iraque com um governo de xiitas, que são a maioria, 60% da população. Seus principais líderes são ligados aos aiatolás iranianos. Só aceitam as forças de ocupação porque precisam delas para derrotar os terroristas e a insurgência sunita (também podem acabar obtendo a adesão desta). Se isso acontecer, os xiitas pedirão a saída dos americanos. E aí? Depois de tudo que gastaram e sofreram, vão deixar o Iraque nas mãos de amigos dos seus inimigos?

A queda do regime dos aiatolás amenizaria o problema da aliança xiitas-Irã. Como a queda de Bush nas pesquisas (32% na última, feita pela CNN) ameaça a vitória republicana nas eleições legislativas de dezembro, o governo pode decidir-se pela guerra – algo que costuma unir os americanos a seu presidente. Mas, para atacar o Iraque ou mesmo aprovar sanções duras da ONU, Bush terá de enfrentar a China e a Rússia.

O vertiginoso crescimento chinês faz com que suas necessidades de importação de energia – do que ela é carente – aumentem radicalmente. Ela já passou o Japão como segundo comprador mundial de petróleo. Para atender a essa crescente procura, a China vem penetrando em países petrolíferos. Está associada a companhias petrolíferas do Zimbábue e da Etiópia, prometeu adquirir 1 milhão de barris da Venezuela, explora dois poços no Chile e vai aumentar sua participação. E já investiu 70 bilhões de dólares no petróleo do Irã. Não irá ficar de braços cruzados assistindo aos Estados Unidos fecharem sua fonte de energia mais importante. Como, aliás, eles fizeram no Iraque: anularam todos os contratos da estatal iraquiana, inclusive com a França e a Rússia.

Assim como a China, a Rússia vem tentando evitar sanções diplomáticas contra o regime iraniano, país com quem mantém relações econômicas altamente lucrativas. É outro obstáculo a Bush.

Caso os americanos optem pelo ataque, podem-se prever retaliações que certamente atingirão os campos petrolíferos da Arábia Saudita e a navegação no Golfo Pérsico. O preço do barril de petróleo, que já chegou a bater nos 75 dólares, poderá passar dos 100. E pesará sobre o consumidor americano, trazendo uma alta de inflação fora do comum. A resposta das urnas tenderia a ser dura para o Partido Republicano.

Decididamente, o plano americano de invadir o Iraque e lá ficar indefinidamente, garantindo a “colaboração” e o petróleo dos países da região, não previu muita coisa. 

Faz lembrar aquele episódio no qual o técnico de uma seleção brasileira explicou aos jogadores o que cada um tinha de fazer para se marcar um gol. Aí, Garrincha perguntou: “Ótimo. Mas… e os adversários? O senhor já explicou pra eles?”.

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