Eleições no Iraque: quem ganhou?

Segundo a grande imprensa brasileira e internacional, o governo Bush e seus aliados xiitas, liderados pelo grande aiatolá Sistani e pelo primeiro-ministro Allawi, foram os grandes vencedores das eleições do Iraque.

Bush teria ganho porque a alta porcentagem de votantes consagrou a democracia no país, missão assumida pelos americanos para justificar sua permanência. E os excelentes resultados eleitorais dos xiitas, em grande parte motivados pelo apoio decidido de Sistani, lhes dariam legitimidade para liderar o processo constitucional e conduzir o país até as eleições gerais do fim do ano, com a aprovação dos Estados Unidos.

No entanto, por um exame mais detido da situação, vê-se que as coisas não são bem assim. Nessa eleição, realizada à sombra dos tanques do exército de ocupação, com o boicote sunita, uma minoria de 20% da população não terá representantes. A oposição não lançou candidatos. Houve fatos graves: ausência de cédulas nas raras regiões sunitas onde a votação foi razoável (pelo menos 80 mil em 4 cidades não puderam votar), ameaças de cortes da distribuição de alimentos do governo aqueles que não votassem e centenas de candidatos sequer se identificaram com medo de represálias.

As pesquisas indicam que a Aliança Iraquiana Unida (de Sistani) terá cerca de 50% dos votos, ficando os partidos curdos com 30%, o partido do primeiro-ministro Allawi com cerca de 15% , os comunistas em quarto e os sunitas em último, com apenas 3 a 4 representantes.

Os candidatos a primeiro ministro mais fortes são Al Hakim, da Aliança e Allawi. Para ganhar esse posto, o candidato precisa ter ao menos 2/3 dos votos. Tanto a Aliança quanto Allawi procuram o apoio dos curdos. 

Sendo uma união de vários partidos e grupos, que tem em comum apenas o fato de serem xiitas, a Aliança conta com a liderança de Sistani para não se dissolver após o pleito. Allawi trabalha em sentido contrário, buscando trazer para seu lado facções que não aceitam a liderança de Hakim. A conciliação entre as forças dominantes na eleição é muito difícil.

Ex-agente da CIA e de Saddam Hussein, Allawi está firmemente alinhado com os interesses americanos, sendo que a maioria dos chefes do seu partido é integrada por ex-exilados nos Estados Unidos. Já os dois partidos principais da Aliança, o Conselho Supremo pela Revolução Islâmica no Iraque e o Dawa, tem suas raízes no Irã.

Durante o governo de Saddam Hussein, seus líderes ali viveram e ainda hoje têm sólidas ligações com o governo xiita desse país, do qual recebem apoio. Embora assumidamente xiita, Hakim tem assegurado enfaticamente que seu partido não quer um Estado governado por religiosos mas uma república secular inspirada nos princípios islâmicos xiitas, mas respeitadora das outras seitas muçulmanas e religiões. E livre dos exércitos de ocupação o mais breve possível.

Por esses ideais, o grande aiatolá Sistani, primeira autoridade xiita do país, vem pautando sua ação política. Em 2003, ele declarou: “o Iraque é para os iraquianos. Eles precisam administrar o Iraque e não se submeter a qualquer poder estrangeiro”.

Na mesma ocasião, Sistani pregou a união de todas as religiões: “Sistani beija suas mãos (dos sunitas) e pede que se unam com todos os outros iraquianos, xiitas, curdos, cristãos e turcomenos. Unam-se e contem comigo para enfrentar os americanos”.

Sendo um moderado, Sistani não participa da luta armada, preferindo usar de meios legais para tornar o Iraque livre. Em fins de 2003, ele exigiu que a constituição iraquiana fosse feita por representantes eleitos pelo povo, condenando a decisão do governo americano de fazê-lo através do Conselho Consultivo nomeado por Washington.

E usou uma fatwa (equivalente a encíclica papal) para isso: “Não há garantias de que o conselho crie uma constituição conforme os interesses maiores do povo iraquiano e que expresse a sua identidade nacional ,cuja base é o Islam e seus nobres valores sociais”.

Apesar das críticas da insurgência, Sistani defendeu as eleições, certo de que seria o caminho mais eficiente para levar os xiitas ao poder e o exército da coalizão para fora do Iraque. E empenhou-se a fundo na campanha eleitoral – haja visto a declaração “eu responderei diante Deus por quem votar na Lista 169 (da Aliança Unida), quem votar em outras listas terá de responder diante Deus por si”.

Embora inicialmente não desejando eleições populares, pois preferiam que a constituição fosse feita por gente escolhida por eles, os americanos tiveram de engolir a exigência de Sistani. Temiam que ele levasse os xiitas a aderirem à insurgência.

Agora, porém, farão de tudo para romper a unidade da Aliança xiita e eleger Allawi para primeiro-ministro. Já durante a campanha eleitoral, os campos opostos ficaram claramente definidos quando o atual chefe do governo iraquiano denunciou, repetidas vezes, a Aliança de Sistani como “a Lista do Irã”, por ele definido como “o mais perigoso inimigo do Iraque”. Da disputa entre as duas facções sairá o verdadeiro vencedor das eleições.

Questões como o papel do Islã na Constituinte iraquiana, a existência de bases americanas permanentes, os beneficiários da exploração do petróleo, a influência dos Estados Unidos ou do Irã e a saída das forças de Ocupação estarão certamente em debate.

A moderação que Sistani e seus seguidores têm adotado deverá continuar. Mas, formando o novo governo e tendo maioria na Assembléia Nacional, alguma coisa vai mudar. É esperado que o Iraque caminhe rapidamente para uma auto-determinação real e efetiva.

Com os 150 mil soldados da coalizão aquartelados no país isso será muito difícil. Hakim, o xiita candidato favorito a primeiro-ministro, já pediu, contrariando as palavras de Bush, um prazo para a retirada dos americanos e ingleses. Já é um começo.

Claro, se Allawi acabar mantendo-se no governo, tudo ficará como está. Mas, antes de se concluir que, nesse caso, as eleições de 30 de janeiro levariam à vitória americana, convém lembrar uma outra eleição legislativa, muito semelhante a essa. Aconteceu em 1966, no Vietnã. Apesar das ameaças dos vietcongs, o povo sul-vietnamita foi às urnas em massa. Nada menos do que 78% votaram. E deu no que deu, como tudo mundo sabe.

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