A criatura contra o criador.

Desde sua eleição (fraudulenta), o presidente Karsai do Afeganistão foi sempre apoiado pelos EUA. Em troca, ele lhes dedicou exemplar obediência.

Mas com a aproximação das novas eleições e da retirada das tropas da OTAN, as coisas foram mudando.

De olho na sua sobrevivência política, Karsai começou a incomodar seus patronos.

Vieram sucessivas críticas contra os raids noturnos– que aterrorizam e revoltam a população afegã; as mortes de incautos civis em bombardeios; as ações individuais de alguns soldados sacrílegas ou brutais… Reclamações  sobre contactos americanos com os talibãs,  sem a participação de representantes de Karsai.

Mais grave foi o adiamento da assinatura do acordo de permanência de uma força menor depois da retirada do grosso das tropas.

Primeiro,  Karsai exigiu que os integrantes dessa força, cuja missão seria treinar os soldados afegãos e fazer ataques pontuais contra os talibãs, ficassem sob a jurisdição das leis afegãs.

Depois, a suspensão dos raids noturnos.

Obama não topou nada disso.

E deu prazo até o fim do ano para Karsai  assinar o acordo.

Do contrário, a retirada seria total. E, conforme seus enviados informaram, o Afeganistão não receberia os prometidos 8 bilhões de dólares, importantes para pagar as despesas militares e ajudar na recuperação econômica do país.

Mas Karsai não se tocou.

Disse que só depois das eleições, em abril, o acordo poderia ser assinado.

Obama esqueceu suas ameaças. Resolveu calar-se.

Karsai não ficou quieto.

Como parte do processo de passagem da segurança do país para os afegãos, o exército americano  lhes entregou o campo de prisioneiros de Bagram, repleto de suspeitos.

As autoridades de Kabul decidiram libertar 65 deles, por considerá-los inocentes.

Indignação dos oficiais americanos, clamando  que eram perigosos milicianos, com as mãos sujas de sangue americano.

Teriam de continuar encarcerados.

Em troca eles receberam uma lição democracia: não se pode manter ninguém preso sem provas, como seria o caso.

E ainda tiveram de ouvir de Karsai  que:  “o Afeganistão é uma nação soberana. Se as autoridades judiciais afegãs decidem soltar os prisioneiros, não é da conta dos EUA.”

E não foi só. Declarou que muitos prisioneiros de Bagram foram torturados pelos americanos, o que provocava ódio e sêde de revanche, tornando o campo de prisioneiros “uma fábrica de talibãs”.

Nesse episódio, o Presidente do Alto Conselho de Paz Afegão (homem de Karsai), Maulvi Shaid,  foi até mais agressivo.

Para ele a contínua presença militar americana seria a causa principal da guerra.

Disse ainda que os EUA  são “egoístas e arrogantes” na sua ação no país e “…fazem do jeito que eles querem, sob o pretexto de matar Osama (Bin Laden). Osama está morto e eles continuam por aqui.”

Incrível mesmo foi Karsai, antes beneficiário das mercês de Washington, sair-se com esta: “A paz é um  pré-requisito antes de qualquer acordo ser assinado.”

 

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