Chavez não morreu

Para a grande mídia brasileira, Chavez já era.
Lendo a Folha ou o Estado, a idéia que fica da Venezuela é que vai mal, muito mal. Inflação galopante conjugada com recessão. Carestia, falta de alimentos. Criminalidade em alta. Imprensa perseguida.

Enquanto isso, a oposição, finalmente, está unida, bem organizada. Irá realizar uma prévia para escolher seu candidato a presidente. E, mais importante, os líderes das várias facções prometem respeitar o resultado, apoiar o vencedor.
E, para piorar ainda mais esse quadro sombrio para Chavez, veio o câncer.
Chavez vai a Cuba tratar-se. Volta abatido, careca, os diagnósticos não parecem animadores.
Seus adeptos esperam que volte um leão ferido, pronto para lutar ferozmente pela 3ª reeleição, no pleito do ano que vem.
Mas não é o que acontece.
Quem chega é um Chavez humilde que, ao invés de mostrar as garras, faz sua auto-crítica.
Começa afirmando que não se deve deixar as críticas para os adversários fazerem: o certo é nós mesmos admitirmos os erros, mudar para solucionar.
O que precisa ser corrigido? Chavez diz : o sectarismo, o dogmatismo e a hiper liderança,  coisas que, afinal, sempre foram marcas dele. Também critica a corrupção e a ineficiência, acusações que costumam ser feitas pelos adversários.
E o Chavez socialista pede a colaboração do setor privado, convida os pequenos e médios empresários a se unirem ao estado em empresas mistas.”Vamos fazer uma aliança”, diz o novo Chavez.
E surge o Chavez “paz e amor”, que defende um tratamento especial para os presos com doenças graves. Por coincidência, a maioria deles são políticos, pessoas que cometeram crimes de subversão, corrupção, desrespeito às leis – segundo os meios oficiais. Suas famílias reclamaram que não estão sendo adequadamente cuidados. E Chavez pede á Justiça que lhes conceda o benefício da prisão domiciliar, internações em hospitais, o que for preciso. A Justiça atende a seus pedidos e os opositores, “mal agradecidos”, clamam que isso é uma prova de que “Chavez controla o judiciário.”
Doente, admitindo erros, propondo mudanças, pedindo apoio aos empresários, oferecendo benefícios aos opositores, Chavez de imagem renovada, entra em campanha pela 3ª. reeleição.
Junto com ele, a Venezuela também vive um momento de virada.
Com a crise mundial, a economia venezuelana, que crescia a uma média superior a 10% durante o período de Chavez, havia encolhido para -2,9%, em 2009. Depois de um 2010  igualmente negativo, os números passaram a crescer e prevê-se que cheguem a 4% positivos neste ano, embora a inflação continue alta: entre 23 e 25%.
A recuperação do ritmo do crescimento é um dado da maior importância, mas não definitivo. Afinal, no governo de Alan Garcia o Peru também apresentava crescimento alto e ele não conseguiu fazer seu sucessor. É que o progresso peruano não beneficiou o povo, que continuou muito pobre.
Na Venezuela é diferente. Chavez vem priorizando o Social. Em Educação, os investimentos passaram de 3,4% do PIB, antes do governo dele, a 5,1%. Em Saúde, foram de 1,6% a 7,7%.
O salário-mínimo venezuelano, de cerca de 1.000 dólares, é o maior da América Latina.
Em conseqüência das políticas chavistas, a Venezuela apresenta a menor desigualdade social do Continente, um índice de 0,38. A pobreza extrema recuou de 21% da população em 1999 para 6,9%, nos dias atuais. E a pobreza foi de 49,9%, em 1999, para 28%, em 2008. Reflexo deste quadro é o aumento de 150% na capacidade de consumo das classes D e E.
A oposição também dispõe de fatos para argumentar contra o governo de Chavez. Além da inflação alta, ele tem contra si o fracasso em não ter conseguido, até agora, superar a imensa dependência da economia venezuelana em relação ao petróleo. A insuspeita Anistia Internacional critica Chavez  por ter efetuado prisões com motivações políticas. A Freedom House, outra ONG insuspeita, coloca a Venezuela apenas “parcialmente livre” no seu anuário “Liberdade no Mundo”, devido às ameaças à liberdade de imprensa.
Daqui a um ano, em outubro de 2012, o povo venezuelano vai decidir se reelege ou não o presidente Chavez.
Apesar de seus defeitos, ele tem qualidades que mantém vivas suas chances de vencer.

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