Chantagem e castigo.

A derrota na condenação pela Assembleia Geral da ONU da abertura da embaixada americana em Jerusalém não foi o pior para o governo de Washington.

Afinal, na ONU, os EUA já perderam em 42 votações contra Israel, obrigando Washington a usar seu poder de veto para salvar o protegido. Embora, desta vez, foi diferente, era uma ação americana que estava sendo julgada.

Certo que uma derrota de 128 a 9 é humilhante, uma autêntica goleada. Ainda mais, considerando a qualidade de quem votou com Tio Sam: um punhado de arquipélagos e minúsculas ilhas do Pacífico, mais Honduras, Guatemala, a ditadura do Togo e Israel (claro). Enquanto que, entre aqueles que ficaram do outro lado, estavam todos os países da Europa Ocidental, do Oriente Médio, do mundo islâmico, a maioria da América do Sul e quase todos os principais países africanos.

No entanto, o mais significativo, o que deve atingir os EUA com maior gravidade, são os efeitos colaterais desta histórica decisão da ONU.

Em muitas ocasiões, presidentes americanos pressionaram outros países para que apoiassem suas posições. Mas, sempre o fizeram em off, longe de olhos ou ouvidos indiscretos.

Trump fez tudo às escancaras.

E de maneira bruta e arrogante, como um ditador dirigindo-se a súditos recalcitrantes.

Coube à representante dos EUA na ONU, a vociferante Nikki Haley, dar início ao jogo sujo em nome do seu godfather. No dia anterior à votação, ela declarou: “Os EUA não podem ser informados por qualquer país aonde vamos instalar nossas embaixadas. É um insulto!”

Para desencorajar insubmissões, ela enviou carta a cada um dos  membros da ONU, que não primava pela sutileza:” Quando você estiver decidindo seu voto, eu lhe faço saber que o presidente e os EUA vão levar em conta seu voto, pessoalmente. O presidente examinará este voto cuidadosamente e pedirá que eu lhe forneça os nomes daqueles que votaram contra nós.”

Até mesmo as delegações de países europeus aliados-chave dos EUA – França, Alemanha e Reino Unido – receberam esta advertência, digna daquelas organizações americanas que vendiam proteção, deixando entrever sérias consequências no caso de recusa.

Neste texto de Nikki, uma ameaça está claramente implícita. Votem por nós ou encarem o presidente…

Por sua vez, The Donald preferiu caracterizar melhor a chantagem. Ou votam comigo ou eu corto todas as ajudas financeiras que vocês recebem. Vejam como isso foi transmitido aos repórteres:”: “Eles (os ingratos) ganham centenas de milhões de dólares e mesmo bilhões de dólares, e então votam contra nós. Bem, estaremos de olho nesses votos. Deixem-nos votar contra nós. Nós economizaremos bastante…Não nos incomodamos (Middle East Eye, 21-12).”

A incansável Nikki Haley ainda conseguiu exceder o chefão em, digamos, criatividade. Ameaçou as próprias Nações Unidas, lembrando seus membros de que não deveriam esquecer as generosas contribuições dos EUA à organização e que os EUA esperam que serão (devidamente) respeitados, em retribuição.

Depois de mimosear o planeta com esta bizarra consideração de ordem moral, a sra.Haley, anunciou ameaçadoramente que Washington iria reavaliar suas contribuições a ONU para “aplicar nossos investimentos de outros modos.”

Indignados, diversos estadistas responderam aos argumentos do presidente americano e de sua porta-voz.

Vou fazer só duas citações. Ambos de autoria de altos membros do governo turco. Você pode não gostar deles, mas suas frases são bastante expressivas.

Erdogan, presidente: “Mr.Trump, você não pode comprar a vontade da democrática Turquia com seus dólares.”

Çavusoglu, ministro das Relações Exteriores: “Nenhum Estado honrado cederia diante de tal pressão. O mundo mudou. A crença de que ‘sou forte portanto estou certo’ acabou. O mundo de hoje está em rebelião contra a injustiça.”

Como se sabe, a chantagem de Trump não colou.

Mesmo países que recebem grandes investimentos americanos como o Afeganistão, o Egito, a Jordânia, o Paquistão e a Nigéria tiveram coragem de rejeitar as pressões.

Até eternos aliados dos EUA, como todos os países da Europa Ocidental (inclusive França, Reino Unido e Alemanha), o Japão, a Arábia Saudita e os demais países do Golfo votaram contra a contestada mudança para Jerusalém.

A Coreia do Sul, que depende muito do apoio político-militar dos EUA, também adotou essa posição.

Admito que a pressão americana não falhou de todo.

35 nações ficaram em cima do muro. Fora 19 ausentes.

Não tiveram coragem, nem de desagradar os EUA, nem de apoiar sua posição injusta e ilegal (resolução anterior da ONU já condenara a tomada de Jerusalém pelo exército israelense, em 1967).

Ao reconhecer o inexistente direito de Israel à cidade que conquistou pela força, os EUA retroagiram na História. Aceitaram um tipo de comportamento que, vulgar até o século 19, fora desde então repudiado pelas nações civilizadas.

Com essa posição, apoiada por ameaças, Trump tirou a máscara.

Revelou o que muitos já sabiam, mas a maioria apenas receava: os EUA não tinham credenciais para mediar o conflito na Palestina por ser favorável a uma das partes, o Estado de Israel.

Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina, foi definitivo ao proclamar que seu povo não aceitaria mais os EUA como mediador. Pediu inclusive que a ONU assumisse a função de tocar o processo de paz.

Perder esse papel é péssimo para os EUA.

De um lado, porque era uma sólida afirmação de posição hegemônica no Oriente Médio.

De outro lado, aceitando a ONU a missão solicitada por Abbas, quer ela própria a exerça, quer seja atribuída a outras nações, os EUA passam de protagonista a papel secundário num questão que transcende os interesses palestinos, pois é da maior importância para o mundo islâmico, inclusive os aliados árabes da Casa Branca.

Acredito que a forma agressiva e arrogante com que Trump pretendeu impor sua posição aos países membros os ofendeu e estimulou a marcar independência, contrariando o dikktat da Casa Branca.

A Alemanha, a França e o Reino Unido devem ter se sentido humilhados ao serem tratados como uma republiqueta centro-americana ou africana dependentes da ajuda de Wshington.

As tentativas de Trump impor o América First na Europa, colocando os desejos do seu eleitorado acima das necessidades globais, já fora percebido. Mas, a prepotência do presidente americano desta vez passou dos limites.

Provocou novo impulso a tendência da União Europeia de buscar caminhos próprios, não necessariamente vinculados à liderança americana.

Acredito que os EUA perderam pontos junto à Arábia Saudita, os Emirados Unidos, o KuwaIt, o Bahrein e o Qatar. Não acredito que sua relação com os governos desses países mude muito, embora o anti- americanismo provavelmente cresceu entre os habitantes. O que nunca é saudável nos regimes autoritários.

A Arábia Saudita pode lamentar as posturas e atitudes de Trump, mas continuará parceira dos EUA pois precisa do seu apoio militar na campanha contra o odiado Irã. Os Emirados Unidos e outros países caudatários de Riad vão continuar seguindo as ordens do reino dos petrodólares.

O problema principal da política americana no Oriente Médio está na aliada Turquia, pois os affairs na ONU acelerarão um processo já em desenvolvimento de aproximação de Ancara com o Irã e a Rússia.

O Paquistão, antes ameaçado por The Donald, que o acusa de se omitir na Guerra do Afeganistão, é outro que sai do evento da ONU mais longe de Washington. Por sua vez a Jordânia, que gostaria de continuar fã dos EUA para continuar recebendo sua vultosa ajuda financeira, ficou numa saia justa. Seu povo, enfurecido pelo gesto americano e as ameaças do seu chefão, foi em massa (80 mil manifestantes) às ruas, exigindo que o rei se posicione com firmeza em favor dos palestinos.

A recomendação da ONU contra a mudança da embaixada para Jerusalém foi um desafio ao poder hegemônico dos EUA, ilustrado pela chantagem do seu presidente durante a Assembleia Geral.

Acredito que agora não há mais dúvidas sobre a natureza e os métodos do império americano especialmente no governo Trump.

Para muitos analistas, ele já os revelara, desde quando The Donald justificou a retirada dos EUA do acordo global para combater o aquecimento do clima:

“Eu governo para Pittsburgh, não para Paris.”

E que o resto do mundo se vire.

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