BUMERANGUE: ataque secreto a Gaza atinge o governo Netanyahu.

A 2ª Guerra de Gaza (2014) já ia na segunda semana, com baixas de cerca de 900 palestinos e 1 soldado de Israel mortos. Por iniciativa do Egito, um cessar-fogo estava praticamente concluído.

Algumas crianças de Gaza brincavam de pega-pega numa praia do estreito quando um avião de Israel disparou contra elas.

Apavoradas, tentaram fugir, mas foram atingidas. Três caíram mortas, várias saíram feridas.

Jornalistas assistiram tudo de um hotel próximo. Contaram que o avião de Israel estava muito perto, não dava para não ver que estavam atirando em crianças, não em milicianos inimigos (The Guardian, 11 de junho de 2015).

Com a população revoltada, o Hamas recusou o cessar-fogo. E a guerra prosseguiu por mais três semanas, causando mais devastação em Gaza e o massacre de 2.200 dos seus habitantes.

A história parece estar se repetindo agora.

O massacre dos manifestantes palestinos, junto à cerca que divide Gaza de Israel, detonou uma série de conflitos militares.

Uma guerra parecia provável. Novamente graças aos egípcios, o cessar fogo começou a ser discutido, com grandes chances de se declarar.

Foi quando uma unidade de comandos de Israel penetrou em Gaza, à noite, com a missão de matar um comandante do Hamas, o movimento que governa o estreito.

Era para ser uma operação secreta, mas acabou descoberta. Alertados, milicianos do Hamas atacaram os invasores.

Seguiu-se um tiroteio acirrado.

Aviões de Israel vieram socorrer os comandos, lançando mísseis contra os palestinos. E os comandos israelenses conseguiram fugir.

Morreram no conflito um coronel israelense e 8 milicianos do Hamas, inclusive o comandante Nour Baraka.

O raid fracassado provocou pronta retaliação, uma chuva de 470 foguetes do Hamas caiu sobre o território israelense. Somente um quarto deles foi interceptado pelo sistema anti-míssil de Israel.

A maioria dos restante atingiu áreas não povoadas. Alguns explodiram em Sderot,  cidade próxima da fronteira, matando um israelense, por sinal, árabe, e fazendo 18 feridos.

Por seu lado, as forças armadas israelenses realizaram 160 bombardeios aéreos em Gaza. 8 palestinos morreram e 26 saíram feridos, em geral civis, e prédios foram destruídos, inclusive uma emissora de TV.

Depois de 25 horas de terror, Israel e o Hamas negociaram um cessar-fogo.

Parte significativa da população israelense, políticos e a imprensa de direita sentiram-se profundamente decepcionados. Enfurecidos pelos foguetes, que os milicianos de Gaza lançam contra Israel nos frequentes conflitos com o exército, eles exigiam do governo a destruição do Hamas.

O governo Netanyahu era responsabilizado por uma política  considerada complacente com os rebeldes palestinos.

Em Sderot, cidade mais atingida pelos foguetes de Gaza, centenas de manifestantes fecharam as estradas, queimando pneus e gritando “vá para casa, Netanyahu”.

Surfando na onda belicosamente anti-palestina,  Avigdor Lieberman, o ministro da Defesa, renunciou a seu cargo, alegando que não podia reconciliar sua visão com as políticas de Israel no estreito de  Gaza. Para ele, o governo deveria tomar  “ações decisivas e violentas” contra a cidade.

Seu partido , o Yisrael Beiteniu, solidarizou-se com ele, retirando-se da coalisão que dirige Israel. Com isso, o governo Netanyahu fica ameaçado pois passa a contar com uma maioria no Knesset  de apenas um voto.

Também em protesto, Neftali Bennett renunciou ao ministério da Educação. Ele já estava descontente com a situação, tendo mesmo acusado o direitista e belicoso Lieberman de fraqueza na condução de uma política de defesa até mesmo “esquerdista.”

Seu partido, o ultra-direitista Jewish Home, tornou a ameaça de queda do governo ainda mais séria ao avisar que sairia do governo caso Netanyahu não nomeasse Bennett ministro da Defesa.

Se não aceitasse, Netanyahu perderia o controle do Knesset, e seria obrigado a convocar novas eleições.

Tanto Neftalli Bennett, quanto Avigdor Lieberman perfilham posições extremamente radicais.

Ambos já pediram o assassinato de Ismael Hanyieh, líder político do Hamas (Middle East Eye, 14 de novembro). Para dar uma ideia do pensamento dos dois políticos, lembro que Hanyieh é tido por analistas como um moderado, aberto ao diálogo com Israel.

Os líderes de partidos da oposição de centro deixaram-se contaminar pelo clima de ódio à resistência palestina, personificada nos dirigentes do Hamas.

Yair Lapid , do Yesh Atid, Hamas, afirmou que as ações israelenses contra Gaza não são nem de longe suficientemente violentas.

Como os chefões da direita, ele tem péssimas intenções quanto a Ismael Hanyieh: “se eu fosse primeiro-ministro, Ismael Hanyieh só seria bom sendo morto”.

Lapid chegou mesmo a pedir o bombardeio das casas dos líderes palestinos em Gaza.

Outros centristas, Avi Gabbay (Trabalhista) e Tzipi Livni responsabilizam o Hamas pelos conflitos com Israel e afirmam que o governo Netanyahu é incapaz de defender o país devido a sua fraqueza. Portanto, deve cair.

Todos eles esquecem de que quem provocou o último conflito foi Israel, através do raid dos seus comandos, infiltrando-se secretamente no território de Gaza.

Um tipo de ação que Israel está acostumado a fazer sem sofrer qualquer sanção da comunidade internacional. Como, por exemplo, os mais de 100 ataques aéreos sobre território sírio, visando atingir objetivos iranianos e do Hisbolá.

Mais grave me parece é um Estado promover o assassinato de um inimigo em território alheio.

É o que se convencionou chamar de “assassinatos seletivos”, justificados como a forma do Estado se defender de pessoas prestes a praticarem atentados, que não podem ser presas por meios legais.

Anteriormente, Israel praticava estas execuções fora da lei, como política oficial. Hoje continua fazendo, porém sem dar bandeira, através do Mossad (serviço secreto no exterior) e das forças especiais.

Sucede que a escolha dos alvos é feita de forma discricionária.

A pessoa que autoriza a operação – em Israel tem de ser o chefe do governo – decide livremente se alguém preenche os critérios éticos exigidos para ser assassinado.

Nada garante que um inimigo, sem vinculações diretas com ações terroristas, seja executado, somente porque convém aos interesses dos governantes.

Há ainda outro problema importante a considerar.

Mesmo que os executores procurem evitar vítimas colaterais, muitas vezes isso acaba acontecendo.

De acordo com a B´Tselem, organização de direitos humanos israelense, de setembro de 2000 a agosto de 2011, entre os 425 palestinos vitimados pelos “assassinatos seletivos” promovidos forças de Israel, 251 (40,9%) eram civis inocentes.

Talvez devido a esse alto índice de efeitos colaterais desumanos, ou a protestos da comunidade internacional, Israel passou a matar inimigos no exterior de forma secreta, através principalmente do Mossad.

No momento atual, quando a raiva está obscurecendo a consciência da sociedade israelense, muitos políticos pedem a volta dos “assassínios coletivos”, executados oficialmente. Nesse contexto, a queda do primeiro-ministro Netanyahu não me parece benvinda.

Ele tem atuado de forma moderada, procurando evitar uma nova guerra de Gaza, contra o que parece ser o desejo da opinião pública de Israel.

Acho que sua posição pró-paz é unicamente pragmática.

Ele sabe que em uma nova guerra de Gaza, serão inevitáveis violências e violações das leis internacionais, que irão piorar a imagem já um tanto capenga de Israel.

Novas condenações serão lançadas do exterior e a causa dos palestinos acabaria mais fortalecida.

Seria então progressivamente muito difícil resistir à ideia da independência da Palestina.

A causa do Grande Israel, que Netanyahu defende- unificação dos territórios de Israel e da Cisjordânia num Estado sionista- correria perigo.

A estratégia do primeiro-ministro é continuar ganhando tempo.

Enquanto os Palestinos e países árabes aliados limitam-se a protestar contra a ocupação da Cisjordânia, com apoios crescentes da Europa, ele vai aumentando o número de assentamentos judaicos na região.

Violações dos direitos humanos dos palestinos fatalmente acontecerão. O Hamas não deixará de reagir com manifestações públicas e com foguetes lançados desde Gaza.

Esses incidentes de percurso gerarão novos conflitos, que o primeiro-ministro prevê resolver negociando cessar-fogo atrás de cessar-fogo.

Se os ventos não mudarem de direção, os assentamentos avançarão tanto que restará para os palestinos um território insignificante, sem condições para a viabilidade de um Estado palestino independente.

Embora o chefe do governo saiba que seu povo costuma estar do seu lado, conforme as pesquisas indicam, não lhe convém antecipar eleições agora, quando a oposição de direita e de centro tenta pintá-lo como fraco, baseando-se em sua recusa em apelar para a guerra contra o odiado Hamas.

Com possíveis perdas de votos nos partidos que garantem sua manutenção no poder.

No entanto, além enfrentar a oposição para conseguir adiar as novas eleições parlamentares, Netanyahu, possivelmente, tem também de superar obstáculos na área militar.

Há sinais de que ele não dispõe de controle absoluto das forças armadas.

Como foi possível o lançamento da operação secreta em Gaza, justamente no ápice das negociações de cessar-fogo entre o governo de Telaviv e o Hamas?

Haverá um grupo de militares interessados em provocar situações que acabem gerando um estado de guerra contra  o Hamas?

Há outra hipótese que também tenta explicar os porquês da importuna operação secreta em Gaza.

Em entrevista à rádio ds Forças Armadas, general reformado informou que raids nas localidades do estreito são comuns. Nunca foram descobertos, nem se cogitava que os palestinos seriam capazes disto.

De qualquer forma, o chefe do governo de Telaviv conseguiu que uma guerra desnecessária – e mesmo prejudicial a seus planos – foi evitada.

As coisas melhoraram para ele quando Neftalli Bennett voltou atrás em sua ameaça de se retirar do governo. O que trouxe um efeito colateral vantajoso: o partido desse ultra-direitista não teve mais por que abandonar a coalisão que governa Israel.

Numa débil tentativa de salvar a face, Bennett e o Jewish Home afirmaram que mantêm sua crítica à política do primeiro-ministro em relação ao Hamas e a Gaza.

Não quer dizer que Netanyahu tenha afastado o perigo de perder sua maioria e ser obrigado a renunciar e convocar eleições antecipadas.

A saída de Lieberman e do seu partido deixou a coalisão de governo com apenas um voto a mais no Knesset.

É uma vantagem muito pequena para garantir segurança a Netanyahu. Basta um único deputado mudar de lado e ele dá adeus poder.

Ter de marcar nova eleições num futuro muito próximo é tudo que ele não quer.

Ele precisa manter sua posição pelo menos num tempo suficiente para ser aplacada a revolta da população, diante da trégua assinada com o Hamas.

Superada essa fonte de atritos, o primeiro-ministro voltaria a ser visto pelo eleitorado como o líder capaz de defender Israel do terrorismo.

Até o próximo conflito com o Hamas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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