A democracia como cavalo de Tróia

Quando desistiu de encontrar bombas de destruição em massa no Iraque, Bush mudou a justificativa para a invasão: afastar um ditador sanguinário, instaurando a democracia. Gostou da idéia e daí em diante passou a anunciar que os Estados Unidos se empenhariam em fazer o mesmo em escala mundial. Por bem ou por mal.

Mas a maioria dos países desaprovou a segunda opção tal como foi aplicada no Iraque. A ONU também deu o contra, levando Bush a violar a ordem jurídica internacional, o que não fica bem num país dito paladino do direito. O pós-guerra no Iraque também tem sido decepcionante, com a morte de mais de 1,5 mil soldados e gastos de 200 bilhões de dólares.

Pesando prós e contras, Bush decidiu deixar a via militar em segundo plano e privilegiar soluções pacíficas. Agitando a bandeira da democracia e a juventude dos países ex-comunistas (sedenta de um banho de loja ocidental) e usando sabiamente o marketing político, os dólares e o trabalho de arregimentação de ONGs criadas para apoiar seus planos, ajudou a derrubar o regime de Shevardnaze, na Geórgia, e os oligarcas bilionários que dominavam a Ucrânia, levando ao poder oligarcas amigos. Um novo sucesso aconteceu nas eleições do Iraque.

Não que a democracia tivesse marcado pontos, pois ela não poderia estar presente em eleições num país ocupado por forças estrangeiras, onde 30% da população não votou e os candidatos da oposição radical não concorreram.

Bush venceu por que conseguiu separar os xiitas dos sunitas, próximos de se unirem contra as forças de ocupação. Convencidos de que, sendo maioria, chegariam fatalmente ao poder, os xiitas integraram-se no processo eleitoral. Claro, passaram a ser vistos como colaboracionistas pela resistência sunita e como tal alvo de atentados. Assim, embora sunitas e xiitas desejassem ver os exércitos estrangeiros pelas costas, acabaram tornando-se inimigos de morte, debilitando a oposição à coalizão.

Ultimamente, notícias da Arábia Saudita, Egito e Líbano evidenciariam que a democracia, impulsionada por Bush, estaria em franco progresso no mundo islâmico. Na verdade, não é bem assim…

É certo que, pela primeira vez, houve eleições na Arábia Saudita, mas somente em nível municipal e assim mesmo reservando-se à monarquia a indicação da metade dos representantes. E Hosni Mubarak, o senhor do Egito, permitiu a inscrição de candidatos à presidência contra ele desde que aprovados por um conselho político constituído por seu grupo.

As fanfarras de Washington foram particularmente estrepitosas ao saudar os eventos do Líbano. Ali, diante do assassinato de um primeiro-ministro oposicionista, multidões nas ruas teriam forçado um governo autocrático a importantes concessões democráticas e os sírios, cujas tropas dominariam o país, a se retirar…

O exército sírio está no Líbano desde 1976,quando foi chamado pelo governo local para pacificar uma guerra civil entre cristão e muçulmanos que já fizera 100 mil mortos. Pelos acordos de Taif, em 1989, convencionou-se que o presidente seria sempre cristão, o primeiro-ministro, sunita, e o presidente do congresso, xiita. Os sírios, graças à sua presença militar, exerceram sempre grande influência no governo libanês.

No começo, sua presença garantidora da paz foi benvinda mas, com o tempo, o povo começou a achar que era hora deles partirem. Aí, Israel atacou o Líbano, ocupando sua parte sul. E o exército sírio recuperou seu prestígio pelo apoio que davam ao movimento Hizbollah, milícia armada que combatia os israelenses. Com a saída do exército de Israel, em 2000, os sírios permaneceram para defender o país, mas sua presença voltou a ser contestada.

Em setembro do ano passado, o primeiro-ministro Rafik Hariri, líder dos sunitas, aderiu à oposição e foi assassinado. Logo a seguir, os sírios quiseram aprovar uma emenda que prolongava o mandato do presidente Emile Lahoud, seu aliado. Isso potencializou o sentimento anti-Síria. Uma grande manifestação popular exigiu a punição dos culpados pelo assassinato, a saída dos soldados sírios e a demissão do novo primeiro-ministro, pró-Siria. Jornais e TVs do mundo inteiro divulgaram as imagens da revolta popular. Os Estados Unidos, a França e Israel associaram-se a ela, fazendo coro com as palavras de ordem dos oposicionistas. E a ONU, prontamente, aprovou uma resolução exigindo a saída das tropas sírias. Bush ergueu o tom, como o mais veemente dos críticos, esquecendo o que seu exército faz no Iraque e seus vetos às decisões da ONU de expulsar as tropas de Israel da Palestina, onde permanecem há 38 anos.

A unidade nacional anti-Síria foi rompida pelos xiitas, maioria no país com 40% da população. Seu partido, o Hizbollah, promoveu uma gigantesca manifestação em sentido contrário com um público calculado em mais de 500 mil pessoas. A oposição respondeu com um comício ainda maior.

No momento, suas principais exigências foram atendidas. O exército sírio já está em retirada. Além da investigação da ONU, há ainda outra promovida por libaneses. Jamil Sayyed, diretor do Departamento de Segurança Geral, não procurou eximir-se: “Todos os chefes das instituições de segurança estão prontos para serem julgados e chamados à responsabilidade. Não temos segredos embaraçosos”.

Mas, a oposição quer mais: exige a demissão do presidente e do primeiro-ministro, considerados subservientes à Síria. Como se vê, a questão é muito mais de nacionalismo do que de democracia – afinal, eleições regulares estão marcadas para maio, no Líbano há liberdade de imprensa e a oposição pode tomar as ruas com manifestações de protestos, sem ser molestada pela polícia.

O que, na verdade, está em jogo são interesses políticos. Sob o disfarce dos apelos democráticos, estão os objetivos americanos de neutralizar a Síria, membro do time dos “bad guys”, destruir o Hizbollah para proteger a fronteira norte de Israel – não abrangida pelo Muro – e colocar no poder um governo pró-ocidente, amigo dos israelenses.

Esse tipo de tática já deu certo. Na guerra de Tróia, por exemplo.

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