A onda esquerdista chegando no México

O establishment mexicano anda assustado. “Tudo indica que a pessoa que vai concorrer (nas eleições presidenciais de 2006) é um político de esquerda, retrógado e do tipo dinossauro, que levará o México à bancarrota”. Quem fala é Cláudio Gonzalez, importante líder empresarial do país, interpretando o sentimento dos seus pares diante de Lopez Obrador e suas chances de vitória.

O PRI (Partido Republicano Institucional) e o PAN (Partido de Ação Nacional), os maiores grupos políticos mexicanos, também estão preocupados.

Fundado em 1928, o PRI foi, a princípio, um partido de vanguarda, que concretizou a reforma agrária e a nacionalização do petróleo. Com o tempo, foi pendendo para a direita. Manteve-se no poder durante 71 anos, através de expedientes escusos. Mas, as negociatas, o clientelismo e a ineficiência dos presidentes eleitos causaram, por fim, sua derrota em 2001, com a eleição de Vicente Fox, do direitista PAN.

Tido como um executivo moderno, tornou-se logo um favorito dos Estados Unidos, que o apontaram como exemplo a ser seguido, que faria do México uma democracia modelar e progressista. 

O terceiro partido mexicano, o PRD (Partido Revolucionário Democrático), da esquerda moderada, tentou várias vezes sem êxito derrotar os donos da política. Agora, porém, as coisas podem ser diferentes.

No embalo da onda esquerdista, que vem vencendo eleições na América Latina, o PRD tem um candidato na liderança das pesquisas, Lopez Obrador, o prefeito da Cidade do México.

PRI e PAN esqueceram sua rivalidade para enfrentar esta ameaça. Foi desenterrado um antigo processo, no qual Obrador era acusado de desacato a decisão judicial para a interrupção da construção de via de acesso a um hospital.

Obrador, como prefeito, tinha imunidades mas os deputados dos dois partidos alteraram a constituição mexicana para permitir o processo e a prisão do adversário. E assim afastá-lo da corrida presidencial.

Isto pegou mal. Choveram críticas dentro e fora do país. Uma pesquisa mostrou 80% dos moradores da Cidade do Mexico condenando o casuísmo. Em gigantesca manifestação, centenas de milhares de pessoas defenderam Obrador.

Ele comentou o episódio: “eles não me julgam por violar uma lei, mas pelo que eu penso e represento para o futuro do México. Existem dois projetos competindo: um, em favor da globalização, o outro, em favor da nação. Eles não gostam que eu favoreça os pobres e esquecidos e não querem que eu faça isso em nível nacional”.

De fato, no governo da Cidade do México, Obrador, fiel a seu lema, “primeiro os pobres”, priorizou os programas sociais, inclusive dando subsídios às famílias de renda baixa, velhos, incapacitados e desempregados sem aumentar os impostos e os custos dos serviços públicos.

O programa de sua candidatura à presidência vai nesta linha, como se vê por estes trechos:

– “Temos de recuperar a força dos movimentos sociais, sindicatos e estudantes, assim como a luta pela democracia, os direitos humanos e a justiça em favor das comunidades indígenas”.

– “Um novo projeto de nação deve propor uma alternativa capaz de aproveitar a globalização e não apenas sofrê-la”.

– “É preciso pagar a dívida que a nação tem com as comunidades indígenas, onde vivem os mexicanos mais excluídos e mais marginalizados dos benefícios do desenvolvimento”.

– “É preciso tornar lei, como foi feito na cidade do México, o direito à pensão alimentar para todos os adultos”.

– “É preciso deixar de lado a hipocrisia. Cabe ao estado evitar as desigualdades sociais. Não é possível continuar deixando a justiça social de fora da agenda do governo”.

– “Não basta crescer, o desenvolvimento tem de chegar à maioria do povo.”

Neste último ponto, o governo Fox fracassou. Impulsionado pelo Nafta (acordo de livre comércio com os Estados Unidos), a economia elevou seus índices, tornando-se a 10.ª do mundo. Mas os custos foram muito pesados. De 1983 para cá, a dívida pública triplicou. Hoje, o salário mínimo é menor do que em 1980. Já se vendeu a maioria do patrimônio nacional, sem que a vida do povo melhorasse. Pelo contrário: estatísticas do Banco Mundial mostram que uma em cada três crianças vive na miséria. E, nos três primeiros anos do governo Fox, a migração para os Estados Unidos aumentou a um nível histórico de 410 mil mexicanos.

Estes números tornam inviável a reeleição de Fox, o que é mal para os americanos. Afinal, o presidente foi sempre um amigo fiel, que aderiu ao Nafta com entusiasmo, seguiu religiosamente os ditames do FMI e rompeu 102 anos de boas relações com Cuba (em 1962, o México foi um dos raros países do mundo que se recusou a aderir ao bloqueio ordenado pelos Estados Unidos) votando por condenações à ilha na ONU e chegando a chamar de volta seu embaixador.

As perspectivas da provável eleição de Obrador são sombrias para o governo Bush. Há uma tendência no continente de eleger candidatos esquerdistas. Washington tem sabido lidar com a maioria deles, mas Obrador é uma incógnita.

Se ganhar, será um “good guy” como Lula, que obedece ao FMI, manda tropas ao Haiti para aliviar o exército de Tio Sam e não rejeita a moção americana na ONU para fiscalizar direitos humanos em Cuba? Ou será um novo Chávez? Bush não gostaria nada desta última hipótese.

México e Venezuela estão entre os quatro maiores fornecedores de petróleo aos Estados Unidos. Uma aliança entre os dois traria problemas seríssimos para a economia americana, cada vez mais dependente da importação do petróleo, a qual, quando realizada da Venezuela e do México, oferece grandes vantagens pela proximidade entre as nações envolvidas.

Longe vão os tempos da “stick diplomacy” (diplomacia do porrete), quando problemas ao sul do rio Grande eram resolvidos com intervenções armadas. Hoje, as coisas ficaram complicadas. Não é chamando John Wayne ou Gary Cooper que Bush poderá debelar eventuais rebeldias mexicanas.

A onda esquerdista, que já ultrapassa o canal do Panamá e ameaça inundar o México, pode fazer naufragar os sonhos “georgistas” de uma América Latina obediente.

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