Um fio de esperança para os palestinos.

Possíveis mudanças favoráveis na política de Israel diante dos palestinos são alentadas pelas pesquisas eleitorais.

Os últimos resultados mostram boas chances do premier Netanyahu, que não aceita a independência palestina, perder as eleições de abril e o governo do país.

Segundo a pesquisa Yedioth Ahronoth/Midgam Institute (Haaretz, 24-2-2019), o Blue and White (oposição de centro) passou o Likud (partido de Netanyahu), devendo conquistar 35 postos no Parlamento, contra 29 dos seus rivais.

O regime de Israel é parlamentarista, com o eleitor votando em listas de candidatos de partidos ou coalizões.

O Blue and White, a lista da oposição, é integrado por candidatos dos partidos Resilience, liderado por Benny Gantz, Yesh Atid, por Lapid, e Telem, por Ya´Alon. Em caso de vitória, indicará Benny Gantz para primeiro-ministro.

A lista do Likud, partido de Netanyahu, é reforçada por alguns partidos de direita e ultra-direita.

De acordo com a lei, o presidente deve chamar o representante do partido mais votado para tentar formar um gabinete ministerial aceito pela maioria dos deputados.

Tomando por base a pesquisa mais recente, que dá a primazia ao Blue and White e partidos aliados, Benny Gantz será quem receberia esta missão. Se a situação não mudar, ele contaria com apenas 55 deputados, menos do que os 61 exigidos.

O Likud, de Netanyahu também não teria êxito, pois ganharia 59 cadeiras, insuficientes para dar a seu chefe um sexto mandato.

 Nesse quadro, quem decidiria a parada seriam, de um lado, o Meretz (esquerda) e os partidos de maioria árabe, tendentes a fechar com a oposição, de outro lado, os partidos ultra-ortodoxos, que provavelmente se decidirão por Netanyahu.

A ideologia que une os três grupos do Blue and White é a total rejeição a Bibi Netanyahu. Ele é combatido pelo seu autoritarismo, corrupção, a forma violenta com que interpreta as leis e trata os adversários, suas políticas racistas e a incapacidade de resolver a questão palestina.

As propostas dos líderes da lista são genéricas, de um modo geral, prometem unir o povo israelense, trazer a paz, combater a corrupção, etc

Faltam posições concretas sobre temas fundamentais como a independência palestina, o racismo e a política repressiva do exército de Israel, por exemplo.

A maioria dos analistas e políticos palestinos não acredita em mudanças em relação à criação do Estado da Palestina.

No outro extremo, a ministra da Justiça, Ayelet Shaked, uma feroz falcoa (embora bonita), pergunta, em desafio aos líderes do Blue and White: “Não está claro o que eles são. Em favor de um Estado palestino, ou contra? Em favor das leis, ou contra?

Encontramos algumas respostas em posições e atos passados e atuais dos principais nomes do grupo oposicionista.

Benny Gantz deixou entrever que não apóia as recentes leis que colocam os árabes como cidadãos de 2ª classe, quando declarou: ”Nossas portas estão abertas para todos: direitistas, centristas, esquerdistas…religiosos e seculares, judeus e não-judeus (Reuters, 30-1-2019)”

Quanto à solução do conflito com os palestinos, foi classificada como o objetivo número um do seu governo.

Falando sobre essa questão, em entrevista a jornal israelense, Gantz revelou ser contra dominar outro povo, sugerindo que Israel poderia repetir a forma com que removeu  os habitantes dos assentamentos de Gaza, em 2005. Que foi bem avaliada pelos palestinos.

Mas nem tudo foram flores nas atuações e posições públicas dele.

Como general-comandante do Estado-Maior de Israel na última guerra de Gaza, ele não pode fugir à responsabilidade pelas e violações do Direito Internacional praticadas por seus oficiais e soldados, dos quais nem um só foi punido.

Palestinos criticam também Gantz por entrevista sobre assentamentos na Cisjordânia, onde afirmou que os blocos de Gush Etzion, e ainda Atiel, Ofra e Elkana “permanecerão para sempre” (AL Jazeera, 17-2-2019).

Lapid, o segundo membro da lista, é um político que já foi ministro ds Finanças de um governo de união nacional de Bibi Netanyahu. Não durou muito, voltando logo a se opor ao líder direitista. Firme defensor da classe média e do secularismo, Lapid combateu os privilégios do rabinato ortodoxo.

Pouco falou de problemas como a segurança nacional e a independência palestina, sabendo-se que é favorável a negociações e à solução dos dois estados independentes, o que não quer dizer muito. Depende dos termos do acordo final.

Com tais posturas, não me parece que se possa rotular Lapid de centro-esquerdista.

Mas também não concordo com o que diz Mouin Rabbani, senior fellow no Institute for Palestine Studies: “sob uma perspectiva palestina, as diferenças entre Netanyahu e as preferências de Lapid não são significativas” (Al Jazeera, 17-2-2019).

Afinal, é dele esta corajosa promessa: ”Vamos mudar a lei do Estado-nação para adicionar a clausula de igualdade civil.!”

O que igualaria os direitos dos cidadãos árabes aos dos judeus.

Como o general Benny Gantz, Moshe Ya´Alon também foi chefe do Estado-Maior das forças de Israel, ocupando essa posição na penúltima guerra de Gaza. Lá também os militares israelenses ignoraram as leis internacionais, violando direitos humanos dos palestinos.

No entanto, não deixa de ser significativo o que o jornal independente Haaretz disse a seu respeito: com ele, ”o alto comando do Exercito era um fator de moderação, que contribuiria para contrabalançar os confrontos cada vez mais intensos entre israelenses e palestinos nos últimos meses.”

O chato é que o mesmo Ya´ Alon não vacilou em veicular um vídeo onde membro de um assentamento proclama a validade dos “nossos direitos de fazer assentamentos em cada parte das terras de Israel (incluindo a Cisjordânia).”

Sendo rigoroso, a coalisão anti-governo me parece mais centrista.

Não para Netanyahu que apresenta a próxima eleição como uma luta entre a direita, representada por ele, e a esquerda, pelos oposicionistas.

Em matéria de propaganda, ele sabe o que faz.

Nos seus muitos anos de governo, conseguiu criar em Israel  um clima de terror associado aos “bárbaros terroristas árabes”. Somente ele, com sua dura repressão aos inimigos árabes, poderia garantir a segurança das famílias dos judeus de Israel.

É claro que os militantes palestinos colaboraram com a credibilidade da comunicação do governo, lançando foguetes a partir de Gaza e praticando atentados terroristas, principalmente a onda de esfaqueamentos de judeus que, aliás, virtualmente acabou.

Como a esquerda (Meretz) e o Labor (socialista) condenavam as políticas brutais, defendendo os direitos humanos das vítimas- os árabes israelenses e palestinos- foi fácil para o agit-prop do Likud pintá-los como aliados desse povo ameaçador.

Conseguindo firmar uma imagem de guerra entre o cavaleiro andante Netanyahu e os árabes e os israelenses esquerdistas, linha auxiliar do Terror, o ex-premier ganhou várias eleições, roubando muitos votos que eram da esquerda.

Tantros que, o Labor, historicamente o grande adversário do Likud, abandonou suas ideias social-democratas.

Elegendo o pragmático Gabbay para líder, o Labor renegou sua aliança Anti-Likud com os partidos árabes.E boa parte dos seus deputados tem apoiado leis racistas e violências do governo contra pacíficas manifestações palestinas, levando seu partido para a centro-direita.

Na busca dos votos de todos os grupos direitistas, Netanyahu se excedeu. Ele próprio patrocinou a união do partido Jewish Home, defensor dos assentamentos e de sua contínua expansão, ao partido Otzma Haeyhundi, que, sem exagero, pode ser considerado fascista.

Quem o dirige são cidadãos leais ao rabino Meir Kahane, que defendia ideias xenofóbicas e políticas terroristas. Kahane pretendia que Israel fosse habitada sometre por judeus, promovendo atentados e até assassinatos de figuras inconvenientes.

Ele formou seu movimento a princípio nos EUA, onde nasceu, lá praticando ações tão violentas e racistas que indignaram os judeus do país, o que o forçou a se mudar para Israel. Ali, não se mancou, continuou agindo de forma tão brutal que se transformou numa bête noire. Proscrito pelo governo de Telaviv, Kahan foi processado, condenado e passou alguns anos na cadeia.

Viajando a Nova Iorque para pregar suas ideias, acabou assassinado, mas deixou fanáticos seguidores, unidos num partido que nunca conseguiu eleger o número mínimo de candidatos para ter assento no parlamento.

Como o total de candidatos eleitos é que define o vencedor do pleito, Netanyahu, bem-visto pelo discípulos de Kahane, tratou de promover a união do partido eles ao ao Jewish Home. Fundaram então o Jewish Power, que se estima poderá eleger 6 a 7 deputados.

Isso dará voz e poder no parlamento a pelo menos aos seguidores das posições fascistas de Kahane. Por isso, o empreendimento de Bibi está sendo recebido com indignação pela parte mais politizada do povo de Israel. Talvez acabe saindo pela culatra e Netanyahu acabe perdendo mais do que ganhou.

Outro possível míssil na estratégia eleitoral do líder do Lkud é seu possível (ou mesmo provável) indiciamento pelo procurador-geral em diversos crimes, apontados em relatórios de autoridades policiais

Os investigadores apresentaram evidências sólidas de chantagens, fraudes, quebra de confiança e aceitação de presentes praticadas pelo então chefe do governo de Telaviv. Demonstram que Netanyahu revelou decisões sigilosas para beneficiar Shaul Elovitch, controlador das ações da Bezeq, a maior empresa de telecomunicações do país – apesar da oposição dos assessores técnicos do Ministério da Comunicação, na ocasião gerido pelo primeiro-ministro. Fartos que propiciaram concessões enormemente lucrativas ao amigo Shaul.

As generosas concessões de Netanyahu renderam a seu amigo algumas centenas de centenas de milhões de shekels. O empresário não deixou de retribuir a gentileza com 32 milhões de dólares agraciados aos envolvidos nas transações (New York Times, 2-12-2018).

É voz corrente em Israel que o procurador-geral aceitará os indiciamentos policiais, iniciando um processo criminal contra o ex-primeiro-ministro.

Gantz e seus companheiros não vão perder esta chance de esculpir de forma definitiva uma imagem suja do seu contendor.

Será que os israelenses toparão ter um primeiro-minisro sujeito a condenação judicial, que o faria pegar alguns anos de cadeia?

A comparação com a honestidade inatacável dos três hombres-fuertes do Blue and White poderá retirar muitos e decisivos votos ds mãos até de eleitores do Likud.

Pesquisa Haaretz-Dialog, em 5 de fevereiro deste ano, revela que 47% dos israelenses não gostariam de manter Netanyahu no seu último cargo.

Se os pesquisados fossem palestinos, esse número iria para as alturas.

Para eles, igual Netanyahu, impossível. Ele sabotou as negociações de paz na Palestina, garantiu não ceder um centímetro de terreno dos assentamentos, reprimiu movimentos pacíficos a tiros, promoveu leis racistas e prometeu que em seu governo nunca haveria um Estado palestino independente.

Ainda que Gantz concorde com apenas umas poucas  reivindicações palestinas, parece certo que ele buscará negociações construtivas com os líderes palestinos.  Seu governo tende a ser moderado, respeitando as leis, em vez de moldá-las a seus interesses; procurará dar aos árabes de Israel os mesmos direitos usufruídos pelos judeus e não restringirá as ações de Ongs humanitárias, ainda que críticas ao regime.

Embora pareça pouco, para muitos, estas perspectivas não passam de wishful thinking.

Como disse o grande poeta Calderon de la Barca, “la vida es sueño e los sueños, sueños son.”

 

 

 

 

 

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