Um congresso paranóico, um presidente fraco. E a democracia americana sai derrotada

O Congresso americano está aprovando uma lei que vai desmoralizar a democracia do país. Ela permite que qualquer pessoa, nos EUA ou em outro país, por suspeita de ligação com o terrorismo, pode ser presa e encarcerada indefinidamente pelas autoridades militares.

Sem direito a julgamento, nem qualquer tipo de recurso.
O presidente Obama havia anunciado que a vetaria.
Foi mais uma de suas promessas não cumpridas. Apenas uma estratégia para conseguir que os congressistas colocassem um adendo na lei que preservasse, ao menos um pouco, a sua autoridade: o direito presidencial de excluir das restrições da lei algum dos presos pelos militares.
Com isso, as liberdades civis, que são princípios sagrados da democracia americana, foram golpeadas profundamente.
De agora em diante, os EUA não podem mais se considerar uma democracia plena. Prisões sem julgamento e sem prazo definido, executadas por decisão de militares ou do presidente, caracterizam os regimes ditatoriais. Como em alguma republiqueta centro americana do passado, os cidadãos estarão sujeitos, a qualquer momento, a serem aprisionados, talvez para sempre. Basta que alguma autoridade militar desavisada considere-o um apoiador da Al Qaeda ou outro movimento similar.
Feita com o propósito de aumentar a segurança, a nova lei vai, na verdade, criar insegurança.
Por isso mesmo, nos tempos do McCartismo, o Presidente Truman vetou uma lei, que  previa que pessoas rotuladas de comunistas pudessem ser detidas e condenadas sem julgamento a prisão por tempo indefinido.
Mas Obama não é Truman.
Esperava-se que ele fosse maior, revelou-se muitas vezes menor.
Forte diante dos fracos, como os palestinos e Gadafi, ele é fraco diante dos fortes, como o Congresso, Israel (fortalecido pelos lobbies) e os generais do Pentágono.
Ainda traumatizado pelo 11 de setembro, o Congresso aceitou a absurda tese da “Guerra ao Terrorismo” e a leva a extremos doentios.
Acreditam que os EUA são também um campo de batalha, onde ferozes terroristas, habilmente disfarçados, estão sempre prontos a desfechar golpes no “american way of living”.
Seu viés direitista os leva a ver nos militares os “good guys” que defenderão a pátria contra aqueles que a ameaçam.
E como o país está em guerra, que se trava também nos 50 estados da União, convém dar todo poder aos “good guys”, sem embaraços legais que atrapalhem sua ação.
Pois essa guerra é de vida ou morte.
Eles não sabem que a lei que acabaram de votar é uma ameaça maior para a democracia do que o terrorismo.
Bem que Obama poderia enfrentá-los. A última pesquisa CBS News, em dezembro, revelou que 82,5% da população do país desaprovam o congresso.
Com uma reprovação desse nível, é possível considerar que os membros das duas câmaras não representam mais a opinião dos americanos.
Se Obama vetasse a lei e apelasse para seu povo, teria grandes chances de vencer.
Mas um presidente, que tem marcado sua gestão por sucessivas rendições, recolhendo todas as principais bandeiras que o elegeram, “grandes chances” significam pequenos riscos. Ele costuma fugir deles.
Ingênuos e fantasistas são aqueles que acreditavam que, um dia, o Obama da campanha presidencial ressuscitaria. Mesmo para os céticos, que duvidavam disso, o novo Obama jamais desceria tão baixo ao ponto de aceitar uma lei liberticida.
Pois desceu.
E, ao render-se a algo que ele sabe ser monstruoso, concedeu uma grande vitória aos terroristas. Eles não precisaram dar um tiro ou lançar uma única bomba para que a democracia americana fosse gravemente ferida. Com essa lei, a declaração dos direitos ficou capenga, as liberdades civis perderam sua integralidade.
Enquanto ela perdurar, os EUA não serão mais uma democracia plena.
Não poderão criticar os regimes de força por que se tornaram um deles.

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