De novo, o excepcionalismo americano

O historiador Gordon Woods definiu o excepcionalismo americano assim : “Os americanos são um povo destinado a liderar o mudo para a democracia e a liberdade.”
É o que eles aprendem desde os tempos de escola. Daí em diante, a TV, os jornais, os políticos, os sacerdotes e até os filmes de Hollywood repetem esta lição, sob as mais variadas formas.

As pessoas acabam acreditando que os EUA são mesmo um país especial. E, sendo assim, não podem ser julgados por padrões normais. Quando o país faz algo condenado por lei, nem pensar em criticá-lo, pois suas ações, direta ou indiretamente, visam cumprir a nobre missão de levar a democracia e a liberdade ao mundo.
Foi o que acaba de acontecer. Os iranianos, provavelmente através de manobras cibernéticas, conseguiram fazer pousar incólume um avião sem piloto americano (os chamados drones), que voava a 240 quilômetros da fronteira.
Ora, não é preciso ser esperto para saber que esse avião estava fazendo um trabalho de espionagem, fotografando alvos em terra, provavelmente instalações nucleares iranianas. Aliás, os próprios militares americanos no Afeganistão admitiram.
A invasão intencional do espaço aéreo de um país, com objetivo de espionagem, caracteriza um ato de guerra. Profundamente ilegal diante das leis internacionais.
O governo iraniano, como é natural, protestou, exigindo desculpas dos EUA e providências à ONU.
Tudo muito lógico.
O que faria Obama se um avião sem piloto iraniano sobrevoasse Nova Iorque ou mesmo Baltimore?
No mínimo convocaria o Conselho de Segurança da ONU, exigindo punições ao Irã. Ou mesmo retaliaria, bombardeando Teerã.
Mas voltemos ao caso do avião sem piloto que os iranianos capturaram.
Sendo os EUA um povo excepcional, que está sempre com a razão, Obama inverteu a ordem das coisas. Passou de lobo a cordeiro. De réu a acusador.
Ilegal teria sido o Irã que ousou apossar-se de um avião sem piloto americano. Portanto, para reparar sua falta de compreensão, o mínimo que Teerã poderia fazer seria devolver o avião em questão.
Afinal, o drone voava sobre o Irã para realizar uma missão em defesa da lei e da democracia. Quem poderia ser censurado por isso?
O ex-vice Presidente Cheney, que também acredita na excepcionalidade americana, achou pouco o que Obama exigiu. A solução correta seria bombardear o local onde o drone estava para destruí-lo, impedindo, assim, que os aiatolás roubassem seus segredos tecnológicos. Ou, melhor ainda, promover uma incursão com as Forças Especiais para recuperá-lo intacto.
Se isso provocasse uma guerra, para Cheney, provavelmente, seria juntar o útil ao agradável. Para ele, guerra é o melhor remédio para tratar islâmicos hostis.
Como ele e Bush fizeram, ao atacar e destruir o Iraque.
Mr. Tortura, como Cheney é chamado por ser um defensor do waterboarding, é outro bom exemplo prático da aplicação do excepcionalismo americano.
Como se sabe, saíram do gabinete dele os documentos falsos que  convenceram o Congresso de que Saddam Hussein estava produzindo bombas nucleares.
Provada a fraude, que custou a vida de centenas de milhares de pessoas (inclusive soldados americanos) e 3 trilhões de dólares, seu autor deveria ser, no mínimo, processado como criminoso de guerra.
Mas, não. Ele é um ex vice-presidente americano, portanto, se errou, foi com intenções nobres. Pode continuar tranqüilo, dando entrevistas, escrevendo livros, defendendo a guerra.

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