Tunisisa, entre a Europa e o Islã

A Tunísia já fechou sua polícia secreta e o Ministério da Informação, responsável pela censura. E agora prepara-se para dar mais um grande passo no caminho da democracia.

Breve, será o primeiro país do Norte da África a ter um governo livremente eleito.
Nas eleições parlamentares de 23 de outubro, os tunisinos escolherão os membros da Assembléia Constituinte que governará o país enquanto elaboram sua nova constituição. 11.000 candidatos, de mais de 100 partidos, concorrerão a 217 vagas.
Embora as mais variadas ideologias estejam em jogo, a disputa principal será entre os islâmicos e os secularistas.
O Nahda, partido tradicional ligado à Irmandade Muçulmana, aparece como o mais votado nas pesquisas, com 20 a 30% das preferências. Nos dois governos ditatoriais que dirigiram o país desde sua independência, em 1956, os militantes dos partidos islâmicos eram presos e torturados. Isso deu ao Nahda grande credibilidade junto ao povo, especialmente aos setores mais pobres. Seu líder, Rashid AL-Gannunchi teve uma recepção apoteótica ao desembarcar no aeroporto, chegando do exílio, em Londres.
Desde logo, Gannunchi declarou que, apesar do Nahda ser um partido de inspiração islâmica, não pretendia implantar um regime islâmico, com aplicação da Sharia (conjunto de leis do Alcorão). Segundo Gannunchi o modelo do seu partido era a Turquia, país com religião oficial islâmica, mas de governo moderado, com liberdade para todas as religiões e direitos iguais para as mulheres. Ele colocou para a imprensa uma metáfora do posicionamento do Nahda : “Somos contra a imposição do véu para as mulheres em nome do Islã, mas também somos contra a proibição do véu, em nome da modernidade.”
Há muita preocupação quanto a uma possível vitória eleitoral do partido de Gannunchi.
Apesar da Tunísia ter sido sempre governada por ditadores, ela é o país mais liberal do mundo árabe. As mulheres tem direitos iguais aos dos homens, os índices de analfabetismo são baixos, a liberdade religiosa sempre foi absoluta. A influência da civilização francesa é marcante na Educação, na vida social e na economia. Os membros da elite econômica e intelectual, cuja maioria vive na região costeira, consideram-se franceses que, por circunstancias do destino, nasceram e moram na Tunísia.
Eles lembram que, desde os tempos de Bourguiba, o primeiro ditador do país, Gannunchi e seu partido fizeram radical oposição, com atentados e tudo, à imposição dos valores ocidentais que o governo promovia. Por suas ações agressivas, Ghannunchi  chegou a ser condenado a morte (sentença posteriormente suspensa). Os políticos secularistas duvidam da conversão dele e temem que, uma vez no governo, acabe implantando um regime islâmico no estilo do Irã.
Declarações de Moadh, filho do líder do Nahda, não foram nada tranquilizadoras: ”Os franceses,” disse Moadh,”criaram uma elite neste país que deseja imitar os seus antigos patrões coloniais. Essa elite se sente desconfortável com os árabes e passa essa insegurança ao povo.” E Moadh esclareceu que o Nahda deseja criar um estado moderno, baseado na cultura tunisina, próximo às pessoas comuns.
Não acredito que os secularistas tenham razão. Não há por que Ghanunchi estar escondendo suas verdadeiras idéias.
Ele já se comprometeu de forma muito clara com um “islamismo à turca”.
 A conjuntura mundial favorece um regime moderado, coisa que a própria Irmandade Muçulmana  – à qual o Nahda está ligado- já percebeu há muito tempo. Haja visto sua ação no Egito, marcada pela procura de acordos que assegurem o bem maior que é, no caso daquele país, a realização de eleições livres.
Além disso, como a economia da Tunísia, que já não ia nada bem, foi ainda mais prejudicada pela revolução (crescimento inferior a 1% neste ano), o país precisa de paz interna, não só para animar os empresários locais a  investirem, como também para obter créditos externos.
Embora a constituição provisória, feita pelo governo interino tenha proibido o reestabelecimento de relações com Israel, espera-se ajuda americana. De fato, Obama tem demonstrado intenções de não perder o bonde da Primavera Árabe.
Um regime estilo aiatolás iranianos provavelmente afastaria tanto investimentos privados, quanto créditos e ajudas externas.
 De qualquer maneira, o mais provável é que o novo governo seja formado por uma coligação de vários partidos e de políticos independentes – a lista de candidatos independentes é enorme. O Nahda, que deve ter a maior votação, provavelmente fará parte dela. E pesará bastante nas decisões do novo governo.
Espera-se que a Tunísia democrática não tenha uma política externa acomodatícia e exerça um papel ativo na Liga Árabe. Como berço da Primavera Árabe, ela tem o direito e o dever de contribuir para que essa organização saia da posição subalterna em que vem se mantendo.

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