Trump prêmio Nobel da paz. Piada sem graça.

Christian Tybring-Gjedde, deputado norueguês, anunciou que havia registrado Donald Trump para concorrer ao Prêmio Nobel da Paz, de 2021.

Não, não se tratava de uma brincadeira, nem está provado que esse membro do Partido Progresso, de extrema-direita, andou ingerindo Acquavit em excesso.

Muito sério, ele sustenta que The Donald é altamente merecedor da honraria por patrocinar um tratado que trará a paz no Oriente Médio, ao garantir o estabelecimento de relações completas de Israel com a União dos Emirados Árabes e, logo a seguir, com o Bahrein.

Na verdade, não houve tratado de paz algum, simplesmente porque as partes não estavam em guerra, nem mesmo haviam trocado ameaças ou ofensas.

 Apenas, como quase todos os países árabes (exceção da Jordânia e do Egito), as duas ditaduras do Golfo Pérsico simplesmente não mantinham relações oficiais com o governo de Jerusalém, condicionando-as à independência da árabe Palestina, até hoje ocupada pelo exército israelense.

Nos últimos anos, essa separação era teórica, pois os três países sabidamente promoviam acordos e negociações -não muito secretas- entre eles nas áreas de comércio e de segurança, unidos pela inimizade total e irrestrita contra o Irã. No duro mesmo, Bahrein e Emirados não eram inimigos de Israel, eram apenas vizinhos que não se visitavam, nem se desejavam feliz natal.

Para sair um acordo de paz no Oriente Médio real, e não fake, Israel teria de assiná-lo junto com o Irã, o Líbano, o Iraque ou a Síria, países que Israel hostiliza e é por eles hostilizado.

Acredito que o errático marido da bela Melanie seja talvez, a antítese do que se espera de um prêmio Nobel da Paz.

 Na Palestina, por exemplo, prometeu criar o que ele próprio antecipadamente batizou como o “acordo do século”, a solução mágica que resolveria o conflito entre israelenses e palestinos, deixando todos eles exuberantes de felicidade, dançando fraternalmente uma fusão do Haya Naguila com o El Arbi.

Depois de quase três anos, na apresentação do tão esperado acordo, provou-se que as palavras de The Donald não foram exatamente proféticas, pois só Israel pulou de alegria. Os palestinos receberam o acordo do século, ao som da marcha fúnebre, já que a “solução do século” não passava de uma farsa: em vez de tratar as duas partes com equidade e justiça, privilegiava Israel. E de forma desmedida, parecendo ter sido encomendado pelo premier Netanyhau, vulgo Bibi, pois concedia tudo que os israelenses queriam (e até mais) e praticamente nada aos palestinos.

 Se aprovado, o sonho de um Estado palestino independente e viável viraria um pesadelo, com seu território reduzido em mais de 30%, mediante a anexação por Jerusalém de quase todos os assentamentos israelenses e do vale do Rio Jordão. O novo país seria uma constelação de enclaves não-contíguos, separados entre si pelos assentamentos judaicos e acessados somente através de estradas e túneis, sob controle do exército de Israel.

Tendo suas fronteiras fechadas por assentamentos e israelenses, o novo Estado ficaria enclausurado no Estado de Israel, sem fronteiras com outras nações.

 Os palestinos também não poderiam ter nem aeroportos, nem portos, devendo seu espaço aéreo e águas costeiras ficarem controlados pelas forças armadas israelenses. Que teriam direito de destruir qualquer instalação palestina que Jerusalém considerasse, unilateralmente, risco para a segurança do país sionista.

Ao contrário de qualquer Estado autêntico, o palestino não teria exército: rigorosamente proibido. Armas só para a polícia, assim mesmo depois de sua aprovação pelo regime sionista.

 Um país indefeso, portanto.

E, ainda tem mais: a proibição dos palestinos firmarem acordos de segurança com qualquer outro país ou entidade, sem o nihil obstat de Israel, deixaria seu país sem política internacional.

Em suma, os palestinos não teriam propriamente um Estado, mas algo muito próximo a uma colônia de Israel.

A reação dos palestinos foi violenta, embora apenas verbal.

Por enquanto.

 Eles estão esperando pela reunião geral da ONU, em setembro-outubro, e (principalmente) pela eleição presidencial americana, em 3 de novembro. Se Biden ganhar, o que é provável, pensam contar com pressões do governo democrata para fazer Israel ceder, aceitar condições justas para o nascimento da nova nação.

Mas, e se [i]Trump vencer?

 Nesse caso, os palestinos podem desistir de conseguir sua liberdade através das leis e das instituições internacionais, pois os meios pacíficos estariam esgotados. Não é viável que a União Europeia se disponha a conseguir justiça para a causa palestina, usando os poderes conferidos pelas regras da ONU, ou decretando sanções contra Israel. Se o fizer, dificilmente passará das palavras, inclusive porque a hegemonia dos EUA de Trump reeleito se tornará mais poderosa do que nunca.

Da violência ao terrorismo será um passo. Nesse contexto de beligerância sem freios, a intervenção militar do Hisbolá e do Irã não pode ser desprezada. Bem como a dos EUA de Trump. Daí em diante, é melhor nem imaginar no que vai dar…

O detonador dessa crise de vulto imponderável viria pela atuação do morador atual da Casa Branca.

Ele é também o protagonista principal no conflito com o Irã, que já deixou o mundo próximo de uma guerra.

 De uma grande guerra.

Tudo começou quando, no governo Obama, os EUA, as principais potências da Europa e a China firmaram um acordo nuclear com Teerã para impedir que o Irã produzisse armas nucleares.

Ele foi aplaudido pelos países civilizados e pela ONU como a solução para se evitar uma guerra, que já pintava no horizonte, opondo EUA e Israel ao Irã.

Só Israel não gostou, o que lhe interessa é outra coisa: liquidar o regime iraniano, para não ter quem o ameace no Oriente Médio, especialmente com armas nucleares, apesar de Israel já possuir entre 80 a 200 desses engenhosos apocalípticos e não estar provada a existência de um programa iraniano para os produzir.

 A tranquilidade universal se esfumou quando o autocrático republicano assumiu o poder.

Rapidamente, ele retirou os EUA do pacto nuclear e impôs sanções que jogaram na lona a economia iraniana.

Nos meses seguintes, The Donald continuou sua máxima pressão, ameaçando Teerã repetidas vezes com seu fogo e fúria, e recebendo semelhantes ameaças em retribuição.

Como os iranianos continuavam resilientes, o morador da Casa Branca resolveu engrossar: ordenou o assassinato no Iraque do general Suleimani, líder das ações iranianas no exterior no enfrentamento das intervenções americanas na Síria, no Iraque e no Iêmen.

Esse ato, em si, foi um crime internacional, violando normas da Convenção de Genebra. E, como o general foi morto quando estava no Iraque, a soberania iraquiana foi desrespeitada.

Temia-se uma retaliação á altura, que seria pelo menos brutal, pois Suleimani era um herói em seu país, a segunda personalidade mais importante. Caso os iranianos apelassem na mesma moeda, The Donald não hesitaria em dar o troco, diante da provável e enorme indignação do seu povo. Nessa circunstância, os EUA teriam de ir além, atingir um alvo mais delicado, matando muita gente ou destruindo bens, militares ou não, de alto valor.

Isso seria lógico. O que ficou claro, quando, na semana passada, Trump demonstrou o que seu governo faria no caso dos iranianos reagissem de forma mortal: responderia de forma “1.000 vezes maior em magnitude (Reuters, 19-09-2020).”

Mas, e os iranianos ficariam na janela vendo a banda passar?

Dificil. Nessa escalada de agressões, plenamente viáveis, uma guerra no Oriente Médio poderia ser um último e inevitável fato.

Só não aconteceu porque o moderado presidente Rouhani, que não é insensato como seu correspondente na Casa Branca, quis evitar uma tragédia. Mandou bombardear duas bases dos EUA no Iraque, sim – porém, antes preveniu os chefes militares americanos locais com tempo suficiente para que providenciassem abrigos seguros para todos os seus soldados.

O resultado foi que nenhum deles morreu, só houve danos materiais, não se sabe se expressivos. E o fantasma da guerra recolheu-se, ficando à espera de novos pretextos.

The Donald não os decepcionaria, se ganhar em 3 de novembro. Assim acontecendo, Trump deve ser ainda mais duro com os palestinos- pela sua extrema ligação com os bilionários pró-Israel e pelo seu ódio ao Irã, expressado com palavras fortes, desde sua primeira campanha eleitoral.

 Também na Síria e no Iêmen, a contribuição trumpniana em nada favoreceu a paz. Muito pelo contrário.

No front do primeiro país, ele já mandou matar o presidente Assad, só tendo sido contido pelo então secretário da Defesa, o general James Mattis, numa fase do governo em que os líderes militares ainda conseguiam impor certos limites às exuberantes insanidades do presidente.

Parece que atualmente esses limites se tornaram bem mais amplos. Foi com a colaboração Pentágono que Trump roubou um campo de petróleo na região de Deir al- Zour, em pleno Estado sírio, concedendo sua exploração a uma empresa criada para esse objetivo, a Delta Energy.  Um dos seus donos foi oficial das Forças Especiais de elite dos EUA.

Quando perguntado se os planos de Trump no local incluiriam choques com forças russas ou sírias, o secretário de Defesa, Mark Esper respondeu: ”A resposta curta é sim, atualmente é sim: meu trabalho é tornar (a Síria) um pântano para os russos.”

O problema é que Putin pode não aceitar manter-se num local tão insalubre. Seu país foi autorizado a explorar o petróleo sírio pelo detentor legal, o governo Assad. Tem todo direito de procurar recuperar a região explorada pela Deltas Energy, inclusive usando a força contra os soldados americanos, que atuam no inglório papel de seguranças da empresa.

O risco é sério. No mês passado, o Observatório Sírio de Direitos Humanos, sediado em Londres, informou: “As tensões continuam a crescer significativamente nos últimos dias entre a forças dos EUA e da Rússia, no nordeste da Síria.”

Basta um oficial de um ou do outro lado pisar na bola, provocando um conflito que vá para as s primeiras páginas dos jornais, para as coisas ficarem realmente pretas. Até a turma do “deixa disso” conseguir acalmar os patriotas exaltados, Inês é morta, muitos soldados russos ou americanos terão passado desta para outra.

O papel de Trump de co-responsável pela guerra do Iêmen não é de ser menosprezado.

De acordo com a ONU, cerca de 24 milhões de iemenitas, ou 80% da população necessitam de algum tipo de assistência ou proteção para sobreviverem, no que considera o pior desastre humanitário do mundo. Diz a Al Jazeera que mais de 100 mil pessoas foram mortas,  360 mil crianças estão arriscadas a morrer de má nutrição aguda e mais de 3 milhões de pessoas foram desabrigadas.

E o que tem Trump a ver com isso?

Seu governo forneceu a munição necessária para tanques de guerra, lança-mísseis e aviões militares da Arábia Saudita e da União dos Emirados Árabes bombardearem objetivos nas regiões controladas pelos houthis, dando predileção especial a áreas densamente habitadas por civis, inclusive cortejos funerais, casamentos e ônibus transportando crianças, como foi fartamente comprovado.

Trump não deu importância à opinião do povo americano, revelada em pesquisa do You Tube que mostrou 58% condenado a participação dos EUA na guerra do Iêmen, contra apenas 13% favoráveis. E vetou várias resoluções aprovadas pelos democratas e até por vários republicanos, pedindo o fim do envio de munições para os sauditas continuarem essa guerra brutal.

Com esta folha de serviços, ainda há quem ache possível que The Donald ganhe o Nobel da Paz.

Uma dessas pessoas, por sinal altamente posicionada, numa entrevistas à imprensa, profetizou que em 2021, a academia de Estocolmo escolheria o presidente dos EUA “por uma porção de coisas, desde que eles decidam com justiça.”

Isso mesmo, quem disse estas palavras foi Trump.

Ninguém riu.


[i]

1 pensou em “Trump prêmio Nobel da paz. Piada sem graça.

  1. Trump nao merece NADA! Espero que o povo americano vote com mais responsabilidade e sabedoria….

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