Quando os interesses dos EUA não interessam aos países amigos.

Os EUA são hábeis em apresentar como se fossem dos outros países, problemas que são só seus. Isso não é armação original de Trump, é prática comum nos governos de Washington desde há muitos anos. Não raro ameaças políticas ou econômicas reforçam seu poder de convencimento. A diferença é que, enquanto os presidentes americanos costumavam endurecer suas argumentação off the records, com Trump é diferente.

Depois de justificar suas recomendações com egrégios valores tais como “democracia”, “segurança” e “paz”, destacando a postura sempre isenta dos americanos, ele e auxiliares partem para ameaças ás caras

”Se não agirmos agora, em breve o CCP (Partido Comunista Chinês) irá corroer nossas liberdades e subverter a ordem baseada em regras que a nossa sociedade trabalhou tanto para construir (South China Morning Post, 28-07-2020).” Foi assim que o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, apelou para a Europa sair fora da construção compartilhada do gasoduto Nord Stream2, que irá garantir com gás russo as necessidades dos países do continente a preço mais baixo. E, assm, vencer a concorrência com o gás liquefeito americano na disputa pelo mercado local.

 O que Trump não admite.

E Pompeo ainda profetizou: caso o maligno projeto da Gazprom não fosse bloqueado, os países do Velho Mundo dependeriam totalmente do gás russo e se tornariam submissos às ordens de Putin.

Não colou, era visivelmente papo furado.

Irritado, The Donald decidiu pelo jogo bruto: seus acólitos no congresso aprovaram sanções para forçar as empresas diretamente envolvidas no projeto a se retirarem, impedindo assim a conclusão da obra. Quem resistisse seria proibido de realizar negócios nos EUA e teria bloqueados seus bens e valores existentes no território americano.

As proibições atingiriam 120 empresas, de 12 nações europeias. Segundo um porta-voz do Nord Stream2: “Em tempos economicamente difíceis, as sanções bloqueariam investimentos de cerca de 800 milhões de dólares na finalização do gasoduto.”

E Mike Pompeo, secretário de Estado, bradou no estilo de valentão: “Agora, ou vocês caem fora, ou sofram as consequências!”

Não faz você lembrar filmes sobre a Máfia?

A reação não foi a esperada pela Casa Branca.

Os dirigentes dos países europeus mostraram-se indignados, rejeitando esta intervenção americana na sua soberania e no seu direito de optar pelo que lhes fosse conveniente.

Entre os muitos protestos, Heiko Maas, ministro do Exterior da Alemanha, clamou: “A política europeia de energia é decidida na Europa, não nos Estados Unidos”.

Claro, Trump não concorda absolutamente com isso.

Especialmente agora que ele está em plena luta para brecar o crescimento da     China, que começa a disputar a hegemonia sobre o planeta, de igual a igual com os EUA.  

Em economia, o ex-império do meio deve, em 2020, ter um PIB de 26,36 trilhões de dólares deixando os EUA num desconfortável segundo lugar com 20.655 trilhões.

No momento, The Donald está focado na Huawei chinesa -maior fabricante mundial de tecnologia de comunicação – para impedi-la de expandir internacionalmente sua tecnologia 5G.

“A tecnologia 5G é a próxima geração de rede de internet móvel. A promessa é de que ela trará ainda mais velocidade para downloads e uploads, cobertura mais ampla e conexões mais estáveis. A ideia é usar o melhor espectro de rádio e permitir que mais aparelhos acessem a internet móvel ao mesmo tempo. De acordo com especialistas, a 5G permitirá que mais de 1 milhão de aparelhos se conectem por metro quadrado. A proposta é tornar tudo conectado: celulares, carros, geladeira, máquinas de lavar e câmeras de segurança, entre outros eletrônicos (TILT,08-07-2020).”

Prevê-se  que o 5G seja 50 vezes mais veloz que as redes 4G, oferecendo velocidade de até 5 GBs em condições ideais.

Além de deixar as tecnologias anteriores (a 3G e a 4g) na idade da pedra, a tecnologia 5G da Huawei é a mais barata e tem financiamentos a prazos mais longos, vantagens superiores às oferecidas pelas únicas rivais, a Erickson (sueca) e a  Nokia (finlandesa).

Com 5G bombando urbi et orbi, a China daria certamente um grande passo para consolidar sua liderança na área das tecnologias de comunicação, sabidamente a que melhor representa o nível de progresso alcançado em nosso tempo.

Isso The Donald recusa-se a aceitar.

O fato é que nenhuma empresa americana tem condições técnicas para competir com os chineses.

Se respeitasse as leis do liberalismo, Trump procuraria enfrentar o perigo amarelo, estimulando a associação de empresas americanas do ramo com as duas ocidentais que estão na parada (pode ser que ainda faça isto, mas ainda não fez).

Ou não intervir no mercado americano de telecomunicações, deixando que as empresas dos EUA continuem usando o 5G, por sua superioridade em qualidade, preços e condições.

No entanto, para o America, first do governo Trump, princípios econômicos só valem quando interessam aos interesses da hegemonia americana.

E assim The Donald resolveu usar a cartada clássica da diplomacia americana- radicalizada na era Trump.

Escondendo seus verdadeiros e imperiais motivos, o marido da maravilhosa Melanie (rezei para que vença o Covid19. Como diria o poeta inglês John Keats, “A thing of beauty is a joy forever”) procura convencer seus aliados de que seria do interesse deles banir a 5G da Huawei. Isso  porque, de acordo com a fértil imaginação do Departamento de Estado, Beijing poderia usar equipamentos da rede de empresas de telecomunicação chinesas instalados no exterior para espionagem ou interferir no funcionamento da infraestrutura de outros países (A Huawei negou, é uma empresa privada, jamais toparia atender eventuais exigências desse tipo partidas do governo do presidente Xi).

A conversa telefônica com Boris Johnson, primeiro-ministro do Reino Unido, em janeiro de 2020, na qual The Donald solicitou o banimento da Huawei, foi um verdadeiro barraco, com o chefe conservador berrando contra os rugidos do americano. Supõe-se que contra interesses britânicos, se infere das explicações de Oliver Dowden, secretário de Estado para Assuntos Digitais, ao admitir que a exclusão da companhia chinesa atrasará de dois a três anos o desenvolvimento da rede de alta velocidade no país. E ainda aumentará o custo em cerca de 2 bilhões de libras (Deustche Welle, 20-07-20220).

Algumas das principais empresas inglesas de telecomunicações também não gostaram nada. Declarou a Vodafone: “Obviamente, nós estamos decepcionados pois esta decisão- como o governo anunciou hoje- atrasará o desenvolvimento do 5G no Reino Unido e resultará em custos adicionais para as indústrias.”

Acredito que o primeiro-ministro do Reino Unido mudou o sinal para a Huawei de verde para vermelho, seis meses depois de tê-lo aberto, devido às poderosas pressões de Donald Trump.

Na sua cruzada para destruir o 5G da Huawei e golpear a China, o boss da Casa Branca foi bem sucedido na Auatrália e no Japão, países seus aliados e inamistosos em relação à China.

No Brasil, Todd Chapman, o embaixador dos EUA, já foi colocando pressões sobre a mesa ao declarar em entrevista ao Globo, em 29-07-2020: “: “Se a Huawei conseguir a licença no Brasil para a introdução da tecnologia 5G, vai haver consequências”.

A palavra “consequências”, usada como argumento final, só pode embutir coisas muito sérias. Uma pressão, aliás, desnecessária se a decisão só dependesse dos hearts and minds do presidente Bolsonaro, totalmente favoráveis a Trump, seu líder bem amado.

O Brasil deve promover uma concorrência internacional no ano que ver para escolher os equipamentos e infraestruturas 5G a serem implementadas no país. Pelo mito, o governo aceitaria o diktat de Trump, contestado por seus ministros da Economia e da Agricultura e grupos militares, que preferem a qualidade, preço e condições mais vantajosos da Huawei.

Não será este o principal argumento que pesa contra a vontade de Bolsonaro, mas ,o fato da China ser a  maior importador de produtos brasileiros, vencendo os EUA por 3 a 1, nesse quesito.

Acho que Xi usaria esta arma, afinal se trataria de auto-defesa.

A Argentina, que esboça uma política externa independente, já se pronunciou pela Huaewi. Que tem vitória garantida na África, onde construiu 70% das infraestruturas 4G existentes no continente. Vários países como a Nigéria já usam equipamentos 5G e a maioria dos demais também seguirá esta opção, especialmente por ser a mais barata e mais vantajosa em condições de pagamento.

Apesar dos esforços americanos, seus principais aliados árabes no Oriente Médio- a Arábia Saudita, a União dos Emirados Árabes, o Bahrein e o Oman são os maiores mercados do Huawei 5G da região. A própria Liga Árabe, emitiu um comunicado, rejeitando as pressões americanas e aprovando o 5G chinês.

Por enquanto, os países europeus, que além dos ingleses deram seus yes, sir aos EUA, foram a Romênia, a Bulgária e a Polônia.

Em maio, o governo espanhol declarou os equipamentos Huawei “seguros e confiável, em consonância com os regulamentos e leis atuais.” A França, a Itália, a Irlanda e a Suécia, até hoje, não os proibiram.

Aguarda-se com ansiedade o pronunciamento final da Alemanha, a maior operadora de redes de telecomunicações do continente.

Diz a Deutsche Welle que o governo de Ângela Merkel já decidiu internamente que não irá aderir à cruzada negacionista americana. A Deutsche Telekom, a Vodafone e a Telefonica, as três maiores empresas de telecomunicação da Alemanha, prosseguem negociando com a Huawei, provavelmente porque o 5G chinês não será mesmo proibido no país de Goethe (Deutsche Welle, 16-9-20).

Em Portugal, George Glass, o embaixador dos EUA, não perdeu tempo com finezas diplomáticas. Aproveitou entrevista ao Expresso para intimar os portugueses a escolherem  entre os EUA e a China, ao decidirem sobre o ingresso do 5G Huawei no país. Aproveitou para ameaçar que a opção chinesa poderia acarretar consequências inaceitáveis na questão da defesa nacional.

Certamente Glass, originalmente um comerciante no estado do Oregon, acreditava que um país tão pequeno quanto Portugal jamais teria colhões para encarar os gigantescos EUA. Não sabia que estava brincando com a honra da terra de Luiz de Camões, dom Afonso Henriques, dom João 2º e de outros personagens com uma história de inabalável destemor.

A opinião pública e os jornais portugueses apostrofaram indignados o descarado ultraje à dignidade nacional.

Mais comedido, Santos Silva, ministro dos Negócios Exteriores, deu a resposta adequada aos EUA de Trump: “As escolhas que Portugal faz são as autoridades portuguesas competentes, nos termos da Constituição e da Lei, que as tomam. Portugal há muito que tomou as suas opções fundamentais, que são aliás bem conhecidas de todos”.

E ele lembrou que Portugal é uma economia aberta aos investimentos estrangeiros, seja de que país forem.

Para a Oxford Economics, excluir a rede 5G da Huawei não será um bom negócio para Portugal: “”Restringir a concorrência no mercado de infraestrutura de rede poderá reduzir significativamente o crescimento econômico em Portugal nos próximos 15 anos (Diário de Notícias, 07-07-2020)”.

Na verdade, é tempo dos EUA se conscientizarem de que seus interesses não coincidem necessariamente com os interesses dos países amigos.

Isolar a China interessa aos EUA que temem que esse país possa fazer sombra à hegemonia yankee no orbe.

Isolar à China não interessa aos demais países para quem o crescimento econômico de Beijing lhes garante mais vendas de seus produtos e mais investimentos nas suas economias, de alguns, algo combalidas.

Quando secretário do Estado no governo Eisenhower, John Foster Dulles fez por merecer consideráveis críticas, mas não se pode tirar seus méritos por ter honestamente afirmado a quem quisesse ouvir: “Os EUA não tem amigos, tem interesses.” Especialmente no governo Trump, essa orientação tem força de dogmna, embora disfarçada com argumentos falsamente[LADE1]  idealistas.

Não penso que isso mudará totalmente, caso Joe Biden vença. Só espero que ele pelo menos admita que os outros países, podem ter interesses diferentes da Casa Branca, e até os defender, sem por isso serem chamados de “inimigos”, “fracos” ou “promotores do terrorismo”.

Termino citando frase de Eça de Queiroz (de “A Relíquia”), que retrata o modo como os EUA apresentam suas proposições na área internacional: 

              “A nudez crua da realidade,

                         sob o manto diáfano da fantasia.”


 [LADE1]scarando

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