Trump e Hillary Clinton sem preconceitos.

 

Há uma inédita unanimidade contrária a Trump na comunidade internacional. A maioria da mídia americana e das principais personalidades do país tem a mesma posição.

Considera-se The Donald um perigo para os EUA e até para o planeta. Racista empedernido, ele vem distribuindo ofensas a mexicanos, mulheres e latinos em geral, propondo medidas duras contra imigrantes e islamitas em especial– abusando de propostas politicamente mais do que incorretas.

A isso se somaria um temperamento explosivo e irresponsável, capaz das ações mais loucas quando ofendido. Até mesmo deflagrar uma guerra nuclear.

Já Hillary é vista por alguns de maneira positiva e por outros como uma política, embora ligada ao establishment, é experiente e eficiente, mas pouco confiável – da qual não se deve esperar nem temer muito.

Nem daria para comparar com os múltiplos defeitos de seu satânico contendor.

Mas é exatamente o que pretendo fazer agora.

Concordo que os dois são basicamente diferentes.

Trump é um populista de direita mas está longe de ser irracional e desequilibrado emocionalmente.

Sua campanha nas prévias do seu partido foi planejada friamente.

Como a maioria dos republicanos é composto de membros da classe média baixa vociferante, ele adotou suas ideias reacionárias e as expôs do modo mais cru. E furioso, de acordo com o que sente este segmento da população diante dos políticos de Washington e os privilégios que concederiam às minorias, “prejudicando o povo americano. ”

Em suma, ele se apresentou como um candidato diferente, desvinculado das elites partidárias e inimigo do establishment.

Deu certo, Trump, a princípio cotado como azarão conseguiu ganhar a indicação republicana para presidente, vencendo adversários com maior rodagem partidária.

Seu princípio fundamental, que difere do seguido por todos os presidentes anteriores é o isolacionismo.

América first, os EUA voltados para si, cuidando dos seus problemas e evitando guerras desnecessárias e dispendiosas. E que o resto do mundo que se vire.

Por isso, ele quer uma reforma da OTAN, não estaria disposto a defender países que não cumprem com suas obrigações financeiras para com a organização.

Também quer livrar os EUA da carga dos pesados gastos com tropas estacionadas no exterior. Se os países estrangeiros querem a proteção das forças americanas, que paguem pelas despesas. Do contrário, os EUA as retirarão, não mais serão explorados por eles.

Hillary vai na contramão dessas posições.

Ela promete “garantir a liderança americana”, através de diplomacia e ações militares (não necessariamente nesta ordem), pois “nossa nação representa algo especial, não apenas só para nós, mas também para o mundo. ”

Daí as intervenções militares necessárias para impor esse “algo especial” aos países insubordinados.

A OTAN seria um instrumento desta benemérita ordem à Europa e, por extensão, a outros continentes.

Hillary Clinton a considera “um dos melhores investimentos que a América jamais fez. ”

Quando Primeira Dama, até influiu nas ações da OTAN. Ela própria conta seu conselho ao então presidente Bill Clinton, que na crise da Sérvia negociava com esse país: “Eu exortei meu

marido a bombardear. ” Foi o que ele fez: bombardeou Belgrado, matando cerca de mil civis.

Ela discorda frontalmente das restrições de Trump às nações que não financiam a  OTAN como devem.

Então vamos deixar a Lituânia nas garras da Rússia?

Quanto a sua posição diante do pagamento das forças americanas no exterior (que Trump quer interromper), ela cita o caso do Japão como emblemático. Sustenta que os EUA necessitam deslocar tropas para esse país pois ele seria a primeira barreira contra um eventual ataque da Rússia. Ora, não é justo que os EUA cobrem de quem precisam para sua segurança.

A vocação intervencionista da sra.Clinton revelou-se em muitos episódios de sua carreira política.

Como secretária de Estado de Barack Obama, ela apoiou um golpe militar em Honduras, contra o reformista de centro-esquerda Manuel Zelaya, democraticamente eleito.

Depois, condenou qualquer tentativa de Zelaya voltar. No clima de crimes e violências que se seguiram, muitos hondurenhos procuraram refúgio nos EUA. E a sra.Clinton decretou : “Eles devem ser mandados de volta.”

Fiel ao ideal do expansionismo ianque, Hillary Clinton votou a favor da invasão do Iraque, em 2003, como tantos outros senadores enganados por Bush. Mesmo quando se provou não existirem as faladas armas nucleares, ela declarou à imprensa que mantinha seu voto.

Em 2011, foi a sra.Clinton uma das principais pessoas que convenceram um relutante Obama a bombardear as forças do coronel Gadafi na guerra da Líbia.

Vencido o ditador, o território líbio ficou dividido entre milícias radicais que lutavam entre si.

Com a ordem pública destruída por estes conflitos, as instituições não funcionavam e a anarquia tomou conta do país.

A fragilidade da situação na Líbia favoreceu a penetração do Estado Islâmico, que já tomou uma região litorânea.

Na guerra da Síria, Hillary defendeu (sem sucesso) o bombardeio das áreas sírias sob Assad depois de um ataque químico cuja origem ainda estava sendo pesquisada.

Os bombardeios americanos poderiam levar a Rússia a revidar, em defesa do aliado Assad. O que também terá chances de acontecer, caso eleita Hillary, efetive sua proposta de criar uma “non fly zone”, junto à fronteira turca, policiada pela força aérea ianque, onde aviões russos e sírios não poderiam entrar.

Comentando o belicismo de sua concorrente, Trump afirmou: ” Intervir militarmente não leva a nada, se não a mais guerras e mais terrorismo, maior destruição. Veja o que aconteceu no Oriente Médio. ”

Isso não abala a sra,Clinton, ela parece estar sempre de dedo no gatilho, como legítima warmonger (provocadora de guerras). Potencialmente até com a Rússia, que ela tem atacado como a inimiga número 1 dos EUA.

Trump, pelo contrário, vê Putin de forma simpática. Aplaudiu sua entrada na guerra da Síria (contra opiniões gerais no Pentágono). Afirmou que terá boas relações com ele. Juntos, iriam semear a paz pelo orbe.

Para atingir a candidatura Trump, a sra.Clinton acusou hackers de Putin de terem pirateado os computadores do partido democrata, revelando ao público como a presidente do partido e chefe da pré-campanha a apoiava claramente contra Bernie Sanders. Essa senhora foi devidamente despedida mas a campanha Clinton desviou as atenções desse fato vergonhoso, acusando Putin de intervir nos assuntos americanos, favorecendo Trump.

Há muitos anos, a Rússia de Putin vem sendo divulgada pela mídia e pelos políticos americanos como a rival do país na hegemonia mundial. Que o líder russo é um verdadeiro Hitler, empenhado em conquistar países e territórios limítrofes.

Pintado como homem de Putin, Trump sofreria evidentes desgastes.

Não deu certo: o próprio Obama admitiu que não havia nenhuma evidência, tratava-se de uma grossa mentira.

Trump revidou Hillary, acusando o governo do seu aliado Obama de ter pago 400 milhões aos iranianos pelo resgate de cinco americanos presos no Irã.

Também era falso.

A Casa Branca explicou que os 400 milhões eram indenização ao Irã por equipamentos militares pagos antecipadamente pelo governo do xá, antes do advento da República Islâmica, os quais jamais haviam sido entregues.

Depois de tantas discordâncias entre os dois adversários, chegamos a algo que os dois tem em comum: o amor a Israel.

Por palavras e atos, ficou mais do que comprovado que Hillary Clinton põe Israel acima de todas as outras nações.

Segundo alguns, até da própria.

De fato, o apoio incondicional americano a Telavive, mesmo diante das maiores violências e atentados ao direito internacional e aos direitos humanos, tem energizado o anti-americanismo no Oriente Médio e aumentado o número de jovens que se alistam nas fileiras do Estado Islâmico. O que não deixa de ser altamente prejudicial aos interesses dos EUA.

Já Trump começou surpreendendo: disse que, sendo presidente, se fosse mediar entre Israel e palestinos seria neutro.

Isso provocou um tsunami de críticas entre seus rivais nas prévias do Partido Republicano e políticos dos dois partidos, incluindo a sra.Clinton.

Viram anti-semitismo nessa declaração de respeito à ética.

Sentindo que fora longe demais, Trump tirou seu time de campo e esmerou-se em declarações de fidelidade eterna a Israel. Chegou a aplaudir os assentamentos judaicos em terras palestinas, fato universalmente condenado.

Focando agora os EUA, encontramos Trump e Clinton concordando em coibir o terrorismo ao máximo.

Mas enquanto Trump admite o waterboarding e outras torturas quando necessário, Hillary Clinton as vetaria in limine.

Nas questões sociais, a sra.Clinton revela maior sensibilidade. Chegou até a aceitar a proposta de Bernie Sanders de aumento do salário-mínimo para 15 dólares a hora.

Já Trump desdenhou dos benefícios sociais para velhos, crianças, extremamente pobres, desabilitados, etc

Ambiguamente, argumentou que benefício mesmo bom é o salário. No fim da campanha, talvez tendo ouvido suas bases, passou a defender que o salário passasse, não a 15 dólares, que achou um tanto forte, mas a 10 dólares, cerca de 40% maior do que o atual.

Na questão ambiental, Clinton passa com boa nota. Pretende até diminuir os níveis de poluição em terra, águas e ar acima dos oficialmente aceitos.

Há uma certa ambivalência no fato de seus adeptos na comissão de plataforma presidencial democrata rejeitarem o veto à extração de xisto (extremamente poluente) na produção de petróleo.

Mas aí, “é a economia, estúpido,” como disse Bill Clinton. O gás, de xisto, altamente lucrativo, está tirando os EUA da dependência do petróleo estrangeiro.

Mesmo ao preço do envenenamento da água, da terra e do ar das populações revoltadas das zonas dos poços.

Já Trump não faz por menos. Considera o aquecimento global uma invenção de falsos cientistas e a Agência Ambiental dos EUA um desperdício de dinheiro.

Razões que fazem muita gente ver sua eleição como uma tragédia para o meio ambiente.

Quanto às minorias, não há muito a dizer. Todos conhecem a forma brutal com que The Donald as considera e as pretende tratar.

Hillary Clinton respeita e valoriza seus direitos como todos os políticos de bom senso.

No conflito que se espalha entre policiais brancos contra negros, ela tomou uma posição digna.

Manteve muitos encontros com dirigentes do Black People Matters, apoiando sua luta. Num momento em que isso era complicado, policial branco havia sido assassinado, ela teve a coragem de apelar publicamente aos oficiais de polícia para pararem de matar pessoas negras.

Enquanto isso, Trump apoiado pelos maiorais da Ku-KLux-Khan e da Supremacia Branca, custou a manifestar-se contra essas anomalias criminosas.

Hillary defende os islamitas como nada tendo a ver com terroristas radicais e suas posturas proibidas pelo Alcorão, além de propor políticas mais humanas para a questão dos refugiados.

Resumindo: enquanto Hillary vê as questões internas dos EUA de forma mais justa e moderna, o que favoreceria as classes média e pobre- Trump propõe coibir o intervencionismo americano, o que levaria mais paz e segurança ao mundo.

A estas alturas, a maioria dos observadores está dando como praticamente certa a vitória de Hillary, menos por suas qualidades do que pelos defeitos do adversário.

Acho que ainda não dá para ela abrir champagne.

Trump deve ter percebido que a classe média baixa republicana não representa todo o pensamento do país.

Portanto, se ele fez sua pré-campanha pensando em ganhar o apoio dela, assumindo suas ideais e sua revolta com os políticos tradicionais e o establishment de Wall Street, tem de pensar em mudanças.

Claro, tem de manter os pontos que mais tocam os corações dos seus eleitores republicanos.

Mas será necessário suavizar certas posições e apresentar outras, de agrado dos novos grupos que precisa conquistar.

Tudo na medida certa.

É um ajuste fino, não sei se Trump e seus áulicos serão capazes de fazer.

Por sua vez, Hillary também não pode continuar falando a mesma coisa.

Se quiser mesmo ganhar, não pode negligenciar os seguidores de Bernie Sanders.

Mesmo com o pedido de apoio do seu líder à candidata democrata, a maioria deles pode abster-se ou votar no Partido Verde, caso Hillary ignore as principais teses da revolução política que Bernie começou e atraiu tão grande número de americanos, desiludidos com os políticos.

Também sua campanha está diante do mesmo desafio que o staff de Trump precisa encarar.

Se Hillary for mais longe no caminho da esquerda do que aceitaria seu eleitorado de centro e centro-direita, muitos deles poderão ficar em casa do dia da eleição.

Será que ela saberá graduar seus avanços?

Numa eleição em que os dois candidatos oferecem ineditamente altos índices de rejeição popular, tudo pode ainda acontecer.

 

 

 

 

 

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