Siria: fogo amigo americano.

Os EUA acabam de classificar como terrorista o Front Nussra.

O curioso é que se trata de um movimento que integra a insurgência síria, apoiada fortemente pelo governo americano.

Portanto, combatentes amigos.

O Nussra foi fundado pela Al Qaeda do Iraque, responsável pela morte de muitos soldados americanos e de atentados suicidas com bombas contra xiitas.

Com o Nussra colocado na lista negra, será ilegal para pessoas ou instituições americanas financiarem o grupo. Sanções que provavelmente serão respeitadas também pelos europeus.

Isso de agora em diante, porque até há pouco tempo, os EUA não tinham controle sobre as armas enviadas aos rebeldes pelo Qatar e a Arábia Saudita, sob coordenação yankee.

Nem sabiam quem recebia os donativos em dinheiro e equipamentos não- letais que fornecia.

Pelo menos parte disso tudo caiu nas mãos radicais dos homens da Al Qaeda e aliados jihadistas.

Que, posteriormente, poderão usá-los para matar americanos.

Como, aliás, fizeram os mujahedins afegãos.

Fartamente armados pelos EUA contra os comunistas, quando, anos depois, fundaram a Al Qaeda e o movimento talibã, estavam bem equipados para enfrentar os soldados de Tio Sam no Iraque e no Afeganistão.

Sem contar que, se, por um azar dos azares, eles puserem as mãos nas armas químicas e biológicas armazenadas pelo ditador Assad, sai de baixo.

Nem dá para imaginar os estragos que seria causado.

Portanto, os americanos tinham bons motivos para punir essa nova versão da Al Qaeda.

O problema é que o Nussra tem muito prestígio junto às forças armadas rebeldes.

São mesmo considerados entre os melhores combatentes contra Assad.

Contando com cerca de 10 mil homens, eles tem se comportado com grande destaque, obtido vitórias importantes.

Assim, a condenação americana foi recebida pessimamente pelos seus aliados da insurgência síria.

83 batalhões soltaram uma declaração oferecendo total solidariedade ao Nussra e mandando os americanos cuidarem de sua vida.

E mais: líderes do Exército de Libertação Síria, a quem os americanos estão dando a maior força, manifestaram indignação pela rejeição de um grupo que eles vêm como aliado vital.

“O Front Nussra”, declarou Mosaab Abu Qatada, porta voz dos rebeldes,”defende os civis sírios enquanto a América não faz nada. …A América só quer um pretexto para intervir nos assuntos sírios depois da revolução.”

Em várias cidades sírias, manifestantes carregavam cartazes que diziam: “Não à intervenção americana porque nós somos todos Jebhat al-Nusra.”

Um batalhão rebelde, o “Homens Livres”, perguntou no facebook: “Por que os EUA não põem na lista negra as milícias terroristas de mr.Assad?”

O grupo jihadista “Exército Sahaba no Levante” congratulou-se com o Nussra pela “grande honra” de ser chamado de terrorista pelos EUA.

Claro que os americanos não estão ajudando os rebeldes de graça.

Foi por iniciativa deles que se conseguiu juntar os principais líderes civis e boa parte dos militares numa reunião que criou a Coalizão Nacional para coordenar a revolução. Aliás, já reconhecida como representante do povo sírio por diversos países europeus.

No dia 8 de dezembro, sob patrocínio dos EUA e aliados, numa cidade da Turquia, comandantes rebeldes discutiram a formação de um comando unificado.

Por sinal, o Nussra não foi convidado, nem o Ahrar AL-Sham, um violento grupo jihadista.

Os participantes elegeram como comandante em chefe o brigadeiro Selim Idris, antigo oficial do exército de Bachar AL-Assad.

Trata-se de um militar sem ideologia. No entanto, seus assistentes são salafitas, uma seita extremamente radical, sendo parte dos seus membros próxima à Irmandade Muçulmana.

Dois terços dos oficiais do comando pertencem à Irmandade e aliados.

Enquanto os líderes da Coalizão Nacional, criada com apoio dos EUA e do Qatar, são, em maioria, secularistas, muitos chefes dos grupos na frente de batalha integram movimentos islâmicos.

Evidentemente, tirar da frente um governo aliado ao Irã já era um bom motivo para os EUA apoiarem os rebeldes.

Mas, acho que não foi o mais importante.

De acordo com a lógica do imperialismo americano, a hegemonia sobre o Oriente Médio é fundamental.

Um país como a Síria, que dissente de sua política na região, é contra Israel, não abre devidamente seu mercado e até apoia inimigos como o Irã e o Hisbolá é um espinho, cuja remoção será sempre bem- vinda.

Uma vez isto feito, os EUA esperam que o novo governo não repita Assad.

Claro, que não irá exigir que a nova Síria democrática reconheça Israel, pois isso detonaria uma nova e desta vez nada oportuna revolução.

Declarações favoráveis à independência da Palestina e até críticas a violências israelenses serão aceitáveis.

Mas sua liderança precisará oferecer boas oportunidades de negócios às empresas americanas, opor-se ao Irã e cortar definitivamente os laços com o Hisbolá.

Pelas manifestações críticas do que significou a condenação do Nussra como intervenção americana nos assuntos sírios dá para prever que o governo sírio revolucionário será um osso duro de roer.

Acho que os setores islâmicos radicais, como o Hamas (que apoia a revolução) e os salafitas, e os moderados, como a Irmandade Muçulmana, além do grupo Nussra e aliados jihadistas, terão grande influência nos rumos da nação.

Não me parece que o novo governo sírio irá passivamente aceitar uma integração na órbita americana.

Nos primeiros tempos, ficará longe do Irã e do Hisbolá, sim, mas logo deverá procurar a companhia protetora do Egito e da Turquia.

Aposto que será bem vindo.

 

 

 

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