Assassinato em Belfast: prendam a polícia.

Naquele domingo, em 1989, Pat Finucane almoçava com a família quando a porta da rua foi violentamente arrombada a marretadas.

Um grupo de homens invadiu a sala e fuzilou Finucae com 14 tiros, diante de sua mulher e filhos.

Assim, foi assassinado, esse conceituado advogado irlandês, conhecido por defender membros do IRA, o movimento revolucionário clandestino.

No ano anterior, o advogado conseguira que o tribunal retirasse as acusações contra o insurgente Pat McGeown de participação no assassinato de dois cabos do exército inglês.

Foi por isso jurado de morte pelo Ulster Freedom Fighters (UFF), grupo paramilitar inimigo do IRA e partidário do governo.

Posteriormente, soube-se que Brian Nelson, informante da inteligência inglesa, infiltrado no IRA, fornecera a foto do advogado para os assassinos do UFF executarem sua missão.

Esses fatos aconteceram numa época em que bombava o conflito entre o IRA contra a polícia da Irlanda do Norte, o exército inglês e os grupos paramilitares ligados ao Ulster Defender Association.

O IRA, apoiado pelos católicos, defendia a integração da Irlanda do Norte na República da |Irlanda, com bombas e assassinatos.

O outro lado, apoiado pelos protestantes e anglicanos, lutava pela manutenção da região como parte do Reino Unido, sob hegemonia da Inglaterra, através de violenta repressão policial e militar, inclusive torturas, e de atentados praticados por grupos paramilitares.

Essa divisão carregada de ódio entre católicos e protestantes e anglicanos tem origens históricas.

A princípio, Irlanda e Inglaterra eram países católicos e separados.

Posteriormente, a Inglaterra conquistou a Irlanda e nos tempos de Henrique VIII adotou os credos anglicano e da igreja reformada, da qual se originaram as várias seitas protestantes.

Mas os irlandeses conservaram sua antiga fé.

No século 17, no governo de Oliver Cronwell, a única ditadura inglesa, o governo de Londres invadiu a católica Irlanda e derrotou-a depois de uma guerra sangrenta.

Cronwell trouxe consigo grande número de famílias inglesas que colonizaram parte da região norte da Irlanda, equivalente a 1/6 do território irlandês. Mas todo o resto do país e 1/3 do norte ocupado permaneceram católicos.

Em 1916 e 1919, os irlandeses revoltaram-se contra os ingleses, mas foram derrotados.

Finalmente em 1923, obtiveram uma independência parcial, continuando súditos do rei da Inglaterra, embora de modo praticamente formal.

Posteriormente, sua independência tornou-se completa.

Mas a Irlanda do Norte não saiu do Reino Unido.

Os ingleses sempre exploraram os recursos locais, perseguindo os rebeldes e discriminando os irlandeses católicos em favor dos descendentes dos emigrados protestantes.

Com isso, criou-se uma situação em que os protestantes tinham os melhores empregos, moravam nas melhores casas e recebiam as maiores vantagens estatais.

E os católicos ficaram com os piores empregos, moravam em guetos e eram mal tratados pelas autoridades.

Manter a Irlanda do Norte no Reino Unido era importante para os protestantes e unir a região à República da Irlanda mobilizava os católicos.

Foram estas as raízes de um ódio que cresceu, configurando-se uma situação em que o antagonismo religioso é apenas o reflexo de uma questão social crítica.

O IRA surgiu para lutar em favor da soberania total da Irlanda contra a aliança de interesses dos protestantes e do governo inglês.

Nos anos 80, o conflito rugia feroz, com os atentados do IRA atingindo o próprio território inglês e a polícia da Irlanda do Norte e o exército inglês praticando uma repressão brutal.

Como no famoso “Domingo Sangrento”, quando uma passeata pacífica pró-união à República da Irlanda foi dispersada a tiros pelo exército inglês, matando muitas pessoas.

No caso do assassinato de Pat Finucane, sua família não se conformou com o que considerava um inquérito negligente, suspeito de proteger os planejadores do crime.

Iniciou uma campanha nacional exigindo uma investigação aberta e completa.

Como o assassinato foi cometido à luz do dia por paramilitares do UPP, sua participação ficou notória.

Defenderam-se, alegando que o advogado era um oficial do IRA.

Embora, tal acusação fosse irrelevante – evidentemente isso não justificaria a execução de Pat- sua família sempre negou veementemente.

Em 1994, finalmente, um acordo de paz foi firmado, comprometendo-se o IRA a renunciar à luta armada e o governo inglês a admitir maior participação dos políticos católicos no governo da Irlanda do Norte e reformas para suavizar a questão social.

Mas a família de Finucane não cessou sua campanha.

Testemunhas e evidências foram apresentadas e denunciadas pela imprensa, sem que o inquérito caminhasse.

Finalmente, em 1999, William Stobie, um antigo membro das Ulster Defenser Association e da polícia norte-irlandesa foi acusado pela morte de Finucane. Ele admitiu ter fornecido as armas para os assassinos.

Dois anos depois, o caso de Stobie desmoronou por ter uma testemunha chave se recusado a fornecer evidências.

Ele foi libertado, mas semanas depois foi assassinado por pistoleiros do UPP, numa queima de arquivo.

Mais 4 anos, em maio de 2003, Ken Barrett, adepto da união à Inglaterra, foi preso e acusado do assassinato. Ele confessou e condenado a 22 anos de prisão.

A família de Finucane não considerou o caso terminado pois, além de só um dos assassinos ter sido preso, jamais se conheceu os nomes dos mandantes e as ramificações da conspiração na polícia e no exército.

A família do assassinado continuou a exigir uma investigação completa e transparente.

O premier David Cameron nunca concordou – não se sabe porque.

Preferiu encarregar sir Desmond de Silva de fazer uma revisão de todo o caso, analisando provas, testemunhos e alegações já apresentadas.

As conclusões acabaram de vir a público.

Ficou evidenciado que membros do aparelho de segurança do estado haviam conspirado para o assassínio.

De Silva verificou que policiais da Irlanda do Norte planejaram o crime, passaram informações para os executores, deixaram de impedir o ataque e obstruíram a investigação criminal.

Também revelou a responsabilidade da inteligência do exército, pois um dos seus agentes esteve envolvido na escolha do alvo do atentado.

Foi uma bomba.

O Primeiro- Ministro Cameron declarou que o crime e o envolvimento da polícia e do exército foram chocantes.

O Chefe de Polícia da Irlanda do Norte, Matt Baggott, afirmou que a polícia aceitava as conclusões do relatório de forma completa. E que eles haviam falhado abjetamente.

No entanto, a revisão de Silva também concluiu: ”Não houve participação dominante do estado na conspiração.”

Com o que a família Finucane não se conformou.

Geraldine, a viúva do advogado, declarou “É uma vergonha. Houve um encobrimento.O governo manobrou para suprimir a verdade” por trás do assassinato de Finucane.

Ela acredita que altas autoridades da política, do exército e da polícia norte-irlandesa tenham culpas no cartório.

Para a família somente uma investigação pública, onde a veracidade dos documentos e das testemunhas possa ser testada sob contra- interrogatório, poderá chegar à verdade sobre a extensão da conspiração das forças de segurança e saber quem foram todos os culpados.

O chefe de Polícia da Irlanda do Norte talvez esteja pensando nisso quando declarou que, nos próximos dias, irá se reunir com o ombudsman da polícia local e com o Ministério Público para discutir a revisão De Silva.

Com o acordo de 1998, as coisas ficaram mais calmas na Irlanda do Norte, embora ainda alguns exaltados do IRA, de raro em raro, cometam um atentado. E as lutas entre grupos – por vezes multidões- de católicos e de protestantes não tenham acabado de todo.

O caso Finucane, que parecia esquecido, voltou a emocionar, divulgado com o maior destaque pelos jornais do Reino Unido.

Considerar a revisão De Silva uma pá de terra sobre o assunto pode resultar em um novo incêndio capaz de se espalhar por toda a Irlanda do Norte.

 

 

 

 

 

 

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