Será que Israel poderá mudar?

Em julho do ano passado, ninguém suspeitava que Netanyahu poderia ser derrotado numa eleição. Pesquisas  do Canal 2 revelavam que 82% da população estavam com ele.

Mas em dezembro, a situação mudou radicalmente: 60% o queriam fora do próximo governo, a surgir das eleições de março de 2015.

Enquanto isso, as mais recentes pesquisas indicam um empate virtual entre o Likud- partido do primeiro ministro- e a coalizão de centro esquerda.

Na comparação com os resultados da última eleição, em 2013, vemos que Netanyahu e o Likud perderiam de 7 a 8 cadeiras , enquanto o centro-esquerda, os partidos Labor e Hatnuah ganhariam provavelmente três.

O líder do partido mais bem votado deverá ser convocado a formar o novo governo.

Com chances claras da oposição de centro-esquerda vencer, há esperanças de que Israel mude sua postura na questão palestina: assine um acordo de paz justo, criando um Estado palestino soberano e viável.

Será possível?

Para formar uma opinião, vale analisar as atitudes e declarações de Herzog, o líder do Labor – principal partido da coalizão.

Em caso de vitória, ele será o primeiro-ministro do novo governo.

Embora ele seja frontalmente contra a política de Netanyahu em relação aos palestinos, parece que suas divergências às vezes parecem mais de forma do que de conteúdo.

Em entrevista ao Der Spiegel online, Herzog diz que em 6 anos o primeiro-ministro não conseguiu dar ao povo “perspectivas de paz e segurança”. Que os israelenses estão fartos da política de terror do primeiro-ministro.”

Até aí, tudo bem. Mas, em seguida, Herzog pisa na bola ao afirmar que os israelenses exigem que os palestinos não atirem neles. Lembro que o povo de Gaza também exige isso dos israelense, talvez com mais razão, uma vez que os tiros do exército de Telaviv mataram 2.100 pessoas, além de destruírem 18.000 habitações na última invasão.

Dá para argumentar que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, já que centenas de mísseis foram disparados de Gaza contra Israel, é verdade que com resultados infinitivamente menos destrutivos.

O estranho é Herzog, na mesma entrevista, demonstrar surpresa por Abbas ter resolvido “virar-se contra Israel,” ao denunciar seus dirigentes no Tribunal Criminal Internacional.

Afinal o presidente da Autoridade Palestina tinha suas razões: os muitos crimes de guerra do exército israelense em Gaza, fartamente comprovados por organizações de direitos humanos e jornalistas de todo o mundo.

O ingênuo Herzog, confessou-se chocado várias vezes com a “atitude teimosa de Abu Mazen (Abbas).”

Mesmo assim, embora ”desconhecendo o atual humor psicológico de Abu Mazen”, ele prometeu negociar com o palestino, recuperando a confiança perdida por Netanyahu.

Começaria bem, pois o líder do Labor dispensaria a pré-condição (tão cara a Netanayahu) de que os palestinos reconhecessem Israel como país judaico.

Ele acha que esse reconhecimento deveria vir no final do processo de negociação, depois de aceitas todas as principais condições para a paz.

Mas, aí haveria problema.

Os  palestinos são contra reconhecer Israel como país dos judeus pois tornaria os árabes israelenses cidadãos de segunda classe.

Para Herzog, isso é bobagem, o que importa é dar aos árabes de Israel melhores condições de vida (o que ele faria).

Quanto aos assentamentos, Herzog fica no meio do caminho: ele é a favor do congelamento de novas construções fora dos blocos de assentamentos.

Mas quer resolver a questão trocando com os palestinos as áreas onde esses blocos se localizam por territórios de Israel.

É discutível, embora talvez acabe sendo a única solução viável. Mudar os 500 mil judeus assentados para território israelense seria uma missão impossível.

Herzog também anima quando se afirma disposto a aceitar um governo palestino nos bairros árabes de Jerusalém Oriental.

Já quando se fala em Gaza, as dúvidas crescem.

Herzog diz que a região deve ser desmilitarizada por razões de segurança. Os habitantes de Gaza poderiam propor o contrário. Afinal, quem atacou mais o outro?

Pior: Herzog criticou duramente Netanyahu, não pela destruição causada pelos ataques, mas por não ter ido suficientemente longe.

No vídeo intitulado “Netanyahu – fraco contra o Hamas”, se dirige ao primeiro-ministro, assim: ”Você deveria o ter atingido (ao Hamas) na cabeça e na hora certa. Você falhou. Que conquistas você conseguiu na guerra? Você destruiu o Hamas? (pausa) Você fortaleceu o Hamas!”

A ele foi coerente: de acordo com o Al Monitor (14 de agosto), Herzog e os líderes do seu partido apoiaram os ataques do exército de Israel contra Gaza.

Bem, Herzog olhava longe. Não queria arriscar-se a perder votos do eleitorado israelense, majoritariamente favorável à ação do exército israelense.

Era preciso ter a coragem de outro partido oposicionista, o Meretz, que foi na direção oposta ao sentimento geral, apelando pelo cessar-fogo e o fim ao massacre.

Por atitudes assim o Meretz tem apenas seis parlamentares e não deve aumentar sua bancada na próxima eleição.

O Meretz é um partido de esquerda, enquanto o Labor faz parte da Internacional Socialista. Mas, ao contrário de Herzog e seu partido, o Meretz preza mais a verdade do que o voto.

Quando Netanyahu reteve os 128 milhões de dólares em impostos que deveria entregar à Autoridade Palestina, a coalizão Herzog-Livni criticou-o duramente.

É verdade que  sob um ponto de vista, digamos, estratégico: “ (Netanyahu), que está fraco na arena internacional, está dando passos que realmente  não ajudam os soldados das Forças de Defesa de Israel em Haia (sede do Tribunal Criminal Internacional) ou freando os palestinos internacionalmente.”

Diferente do Meritz, que condenou a ação do primeiro-ministro como simplesmente  injusta e ilegal.

Realmente, não dá para imaginar que, Herzog eleito, Israel acertaria os ponteiros com os palestinos sem maiores problemas.

Ninguém duvida que ele seja pragmático, que deseja a paz, inclusive para poder governar bem, se tiver a chance de ser primeiro-ministro.

Mas não creio que iria nadar contra a correnteza.

No momento, o povo israelense não confia nos palestinos, os considera violentos e inimigos jurados de Israel.

 

 

Mudar essa realidade vai exigir um trabalho longo e persistente, enquanto se procura negociar a paz na Palestina.

Não creio que isso seja possível enquanto não houver um entendimento entre as partes. Inclusive entre o Hamas, por representar grande parte dos palestinos, e Israel. O que, no momento, é  rejeitado até mesmo pelos israelenses moderados.

Em seguida, seria necessário definir os pontos em litígio.

Supondo que Herzog seja coerente com suas declarações, as questões sobre Jerusalém Oriental, o reconhecimento prévio de Israel como país judeu e a expansão dos assentamentos estarão superadas.

Mas outras controversas ainda estariam sobre a mesa: a definição dos limites do novo Estado da Palestina; a questão dos assentamentos ; as exigências de segurança de Israel – manter ou não tropas israelenses na Palestina; a desmilitarização de Gaza; o retorno dos palestinos expulsos de suas terras; o reconhecimento , na conclusão do acordo, de Israel como país judaico.

Com Herzog, a postura israelense passaria a ser civilizada, sem as violências e ilegalidades praticadas pelo governo de Netanyahu.

Acredito que haveria um desejo de se promover a solução  dos “dois Estados independentes”. Não de se prolongar ad aeternum a ocupação da Palestina como é o objetivo de Netanyahu.

No entanto, provavelmente, antes de se voltar às negociações, um nó teria de ser desfeito.

Os palestinos teriam de suspender o processo dos crimes de Gaza no Tribunal Criminal Internacional.

Valeria à pena, somente por uma esperança de mudança?

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