Se depender de Trump, não vai haver Estado Palestino.

Depois de algumas ambiguidades um tanto amedrontadoras, Trump tranquilizou Abbas, o presidente da Autoridade Palestina. Ele resolveria o eterno problema palestino com um acordo justo. Abbas e outros dirigentes de movimentos palestinos declararam-se confiantes.

Afinal Israel depende dos EUA e dos seus incondicionais apoios na ONU, sem contar os 3 bilhões de dólares concedidos anualmente. Teria de ceder à vontade do presidente americano.

E Trump parecia decidido a cumprir sua promessa. Foi a Israel, parlamentar com Netanyahu. Manteve várias reuniões com Abbas. Enviou o príncipe consorte Jared Kushner, acolitado por dois azes da diplomacia, para novos contatos com os chefes das partes interessadas.

E o tempo vai passando, e Trump, tão indiscreto nos seus tuites, não fornece sequer uma pista do que ele pensa propor para dar um happy end no drama que angustia os palestinos há quase 70 anos.

Mas os boatos que se espalham e as fotos do pessoal da comitiva de Kushner trocando abraços,  visivelmente carinhosos com a grei de Netanyahu, não são nada promissores.

Abbas e colegas começam a achar que as coisas não estão tão róseas quanto pareciam.

Eles tem razão.

Até acho que The Donald, para sua glória, gostaria de descascar esse abacaxi, deixando todo mundo satisfeito.

Resolver esse seríssimo problema internacional, coisa que seu rival Obama não conseguiu, aumentaria sensivelmente as hoje desprezíveis chances de reeleição do morador da Casa Branca.

Será que ele poderia dar conta do recado?

No dia 27 de agosto, o darling Netanyahu fez saber algo que só surpreendeu os ingênuos: apesar das garantias de apoio às negociações com os palestinos, Israel não vai desistir dos assentamentos. “Nós estamos aqui para ficar”(Haaretz, 29 de agosto),” clamou o chefão, numa comemoração dos 50 anos de ocupação israelense da Cisjordânia. ”Não haverá mais erradicação de assentamentos nas terras de Israel. ”

Exigindo que os assentamentos fiquem onde estão, Netanyahu impede a realização de um acordo de paz.

Os palestinos, como já muitas vezes afirmaram, jamais aceitariam isso. Eles sabem que num território recheado de assentamentos judaicos, não seria possível construir um Estado soberano.

Mesmo o concessivo Abbas arrancou fios do bigode (já que não tem barba) no sinal tradicional de exaltado protesto.

Mas manteve suas esperanças.

Seria a chance de Trump mostrar quem manda, pressionando o líder israelense a ser razoável.

Netanyahu na certa convocaria suas forças nos EUA. Como sempre, os grupos americanos pró-Israel atenderiam a seu apelo, em defesa da causa do governo de ultra- direita, ora reinante em Telaviv.

Veja só os contingentes que Trump teria de encarar:

  1. a) O Congresso, tradicionalmente pró-Israel; b) Grande parte da mídia mainstrean; c) Poderosas associações judaico-americanas de direita, como a AIPAC; d) A maioria dos pastores-astros de TV e Rádio; e) A maioria das lideranças do Partido Republicano; f) A indústria armamentista, em defesa dos lucros gerados pela instabilidade no Oriente Médio; g) Parentes próximos do republicano, amigos e associados benfeitores do assentamentos.

Só um super- presidente poderia domar todas essas feras.

De fato, é muita areia para o caminhãozinho de Trump, anda mais agora que se encontra tão fragilizado.

Ao aprovar sanções contra a Rússia, por sua suposta intervenção nas eleições presidenciais americanas, em conluio com The Donald, o Congresso mostrou a baixa opinião que tinha dele.

Mesmo inconformado, Trump, consciente de que um eventual veto seria derrubado de goleada pela massa dos congressistas, teve de assinar, aprovando uma lei que o denegria pessoalmente.

O que equivaleria a uma confissão da validade das gravíssimas acusações que lhe faziam. Que o colocava praticamente como co- autor de um crime contra as instituições dos EUA, merecedor de um impeachment, não fosse o domínio republicano das duas casas do legislativo.

Nesse mesmo episódio, em outra circunstância, ele se mostrou novamente muito fraco.

De acordo coma as tradições, nos EUA (e os americanos dão o maior valor a tradições), a política externa é privilégio do presidente.

Ele pode determinar o que bem entender nessa área, sem ter de consultar o Congresso. A não ser numa declaração de guerra.

Além de violar um direito adquirido dos presidentes, o projeto das sanções à Rússia ainda estabelece que Trump não poderá cancelá-las ou mesmo as reduzir, sem a aprovação da Câmara e do Senado.

The Donald teve de abaixar a cabeça, vencido. Limitou-se a lamentar sua impotência. Não teria condições de se impor à quase totalidade dos deputados e senadores.

Com Obama, aconteceu o contrário. Ele entrou na guerra da Líbia sem dar bola para o Congresso. Quando reclamaram, alegou que não se tratava propriamente de uma guerra… Ergo, não precisava do OK congressual.

E nem os deputados, nem os senadores tiveram coragem de protestar pela violação do seu direito de decidir sobre a participação do país num conflito armado entre nações.

Mesmo não tendo o Congresso ao seu lado, Obama tinha a força de que Trump carece, apesar da Câmara e do Senado serem dominados pelo Partido Republicano.

Essa maioria a favor do presidente atual não impede, até apoia os inquéritos parlamentares sobre os contatos entre Trump e seus acólitos com representantes da Rússia. Políticos democratas chegam a afirmar que Trump submeteu-se a Putin, tornou-se um fantoche da Rússia, em troca das revelações dos hackers sobre os podres da campanha Hillary Clinton. E a grande mídia hostil, salvo a rede FOX, comunica ao povo essas acusações detalhadamente. Além de, por sua vez, publicar novos deslizes diplomáticos da grei do chefe do governo.

Fraco diante dessa maré que ameaça inundar a Casa Branca, Trump apoiou-se no Pentágono, entregando, praticamente, a política externa ao secretário da Defesa, general Mattis, ao conselheiro de Segurança nacional, general McMaster, e a outros militares estrelados, nomeados para ajudar a controlar os abusos verbais do presidente tuiteiro.

Tão fraco está o arrogante Trump, que se vê obrigado a tolerar comentários do secretário de Estado, Rex Tillerson, contrários a suas posições. Apesar dele não querer de jeito nenhum atestar o cumprimento pelo Irã das obrigações com o acordo nuclear, teve de ceder à pressão do ex-CEO da ExXON.

E mais: enquanto o presidente dividiu as culpas entre os movimentos  racistas e anti-racistas no incidente de Charlottesville. Tillerson acusou só os racistas e declarou que divergia do seu chefe. O qual teve também de aguentar os quatro comandantes das forças armadas pronunciando-se contra a proibição de transgênicos nas forças armadas, decretada por ele.

Poderia contar muitos outros casos em que Trump engoliu insubordinações de altas autoridades, mas vou citar apenas o incrível fato dele criticar severamente Jeff Session, o procurador-chefe, e não ter coragem de demiti-lo.

Junto ao povo americano, o prestígio de Trump vai de mau a péssimo. Na sua posse, tinha 67% de aprovação popular, em julho caiu para cerca de 40%. E continua em queda.

O governo Trump conseguiu até enfraquecer os EUA na área internacional. Sua imagem está lá embaixo na Europa depois da recusa em assinar o tratado de Paris, da cobrança de mais dinheiro dos países europeus para a OTAN, dos aplausos ao Brexit, da tentativa de afundar o acordo nuclear com o Irã, que afastara o perigo de guerras e das sanções anti-Rússia, que prejudicam importantes investimentos das nações europeias no setor energético do país de Maria Sharapova.

Em condições tão frágeis, me parece improvável que Trump tenha força para enfrentar os poderosos grupos que apoiam Netanyahu e seu governo de extrema-direita.

Acho que ele já desistiu.

Agora, se a Casa Branca anuncia que o plano Trump será apresentado daqui a uns três ou quatro meses, podemos contar com um adiamento de pelo menos um mês.

Seria para dezembro, o mês de Natal.

Tudo indica que os palestinos irão ganhar um presente de grego, com sinceros votos de felicidades de Donald Trump, presidente dos EUA.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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