Sanções podem dar errado.

O senador democrata americano Robert Menendez pensa em propor sanções ainda mais pesadas contra o Irã.

Seu plano é congelar 30% das reservas iranianas que estariam depositadas em bancos do exterior. “Me parece que devemos usar completamente todas as armas do nosso arsenal, e rapidamente, antes que o Irã descubra um jeito de conviver com a corrente crise,” ele declarou à agência Reuters.

Até  um certo ponto, ele tem razão: o Irã pode se safar, ainda que de forma muito dolorosa.

E, pior, pelo menos para aqueles que sonham com uma queda dos aiatolás e sua substituição por um governo moderado, há fortes riscos do regime atual acabar endurecendo mais, com apoio do povo.

No dia 6 de outubro, Ban-Ki-Mon, falando à Assembléia Geral da ONU, declarou; “As sanções impostas à República Islâmica do Irã tiveram efeitos significativos sobre a população em geral, inclusive aceleração da inflação, aumento do desemprego e dos custos da energia e escassez de itens necessários, inclusive remédios.”

Informou ainda que problemas humanitários particularmente graves, foram causados pela impossibilidade do país importar medicamentos para tratamento de câncer, doenças do coração e respiratórias.

As autoridades  americanas e européias tem saudado esses fatos com incontida satisfação, expressa na forma com que anunciam que as sanções estão fazendo efeito e o Irã logo entregará os pontos.

Há quem não concorde.

O expert em assuntos iranianos, Shirin Shafaire, da Escola de Assuntos Orientais e Africanos da Universidade de Londres, acha que as sanções estão unindo o povo ao governo, contra os EUA e os países ocidentais.

Segundo ele: “Os iranianos  vêem a presente situação como uma verdadeira guerra e isto os está tornando mais e mais anti-americanos (ou anti-Ocidente), mesmo  a classe média, as famílias com educação universitária e os jovens.”

O Ocidente já demonstrou que não pretende aceitar nenhuma proposta do Irã na questão nuclear a não ser a rendição total.

Na última reunião dos P5+1, os iranianos ofereceram interromper o enriquecimento do urânio a 20%, informando que seu estoque desse minério estava sendo convertido em placas de combustível para usos medicinais.

Queriam em troca que as sanções acabassem.

O Ocidente recusou esta proposta, exigindo, além da interrupção da produção do urânio a 20%, o embarque para algum país ocidental de todo o estoque desse tipo de urânio e, como garantia adicional, o fechamento da usina de Fordow.

A última condição foi considerada inaceitável, pois Fordow era usado tanto para enriquecer urânio a 20%, quanto a 3,5%, necessário para produção de energia.

Ficou claro para os iranianos que o verdadeiro alvo das sanções era derrubar o regime islâmico, através da destruição da sua economia, impedindo a exploração da energia nuclear tida como essencial ao país.

Pelo Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares, o Irã tem todo direito de enriquecer urânio.

Ao defender esse direito, o governo da República Islâmica está defendendo Os interesses nacionais, contra imposições ilegais do Ocidente.

Na verdade, está acontecendo uma verdadeira guerra, na qual o povo está sendo atacado pelo Ocidente, através das sanções que são armas com efeito demolidor da qualidade de vida de todos.

Lembro que o iraniano é um povo orgulhoso com uma tradição de 3.000 anos.

Na Antiguidade Clássica, seu império chegou a ser o mais poderoso do mundo.

Posteriormente, integrado no império muçulmano, tornou-se o centro mais importante nas ciências, na arquitetura e nas artes daquela que foi a civilização mais avançada da Idade Média.

Depois de separar-se, conheceu uma era de grande esplendor durante a dinastia Safávida.

Em 1953, foi o primeiro entre os países petrolíferos que nacionalizou essa riqueza, ousando desapropriar uma poderosíssima empresa inglesa, a British Petroleum.

E isso através de um governo democrático, liderado pelo Primeiro Ministro Mossadegh.

Por iniciativa da Inglaterra e apoio dos demais países ocidentais, o petróleo do Irã sofreu um boicote mundial, além de outras sanções, que deixaram o país em condições críticas e o povo sofrendo grandes privações.

Algo semelhante ao que está acontecendo agora.

Mas o povo continuou apoiando o governo. Foi preciso um golpe militar, arquitetado pelos serviços secretos dos EUA e da Inglaterra, para destgituir Mossadegh.

O xá tornou-se ditador, realizando um governo desastroso e extremamente violento, com sua polícia política, a Savak, prendendo e torturando à vontade.

Em 1979, o povo levantou-se contra o xá e foi proclamada a República Islâmica.

Não demorou muito e o Irã viu-se invadido pelo exército do então ditador iraquiano, Saddam Hussein, que contava com armas e apoio logístico dos EUA e da União Soviética.

Foi uma guerra sangrenta, na qual Saddam usou até armas químicas de destruição em massa.

No fim, quando os iranianos já haviam expulsado os inimigos e invadido seu território, estabeleceu-se a paz, com um saldo de 1 milhão de mortos.

Com a paz, o país teve condições de começar a crescer.

Por aí se vê que não foi com a ajuda dos países ricos, nem do FMI ou do Banco Mundial que o Irã conseguiu firmar-se como uma nação independente.

Foi, sim, enfrentando boicotes e sanções (que agora se repetem), golpes militares, governos sanguinários apoiados pelo Ocidente e invasões.

Como diz Shafaie: “Foi a pressão que tornou o Irã independente, não amizades superficiais, nem colaborações como aquelas que vemos em certas comunidades do Golfo Pérsico”.

Sendo o segundo maior produtor de petróleo da OPEP, o Irã teve recursos para desenvolver suas indústrias que hoje representam 45% do PIB, produzindo até automóveis e componentes  do setor aero espacial.

Numa guerra, todo povo costuma fechar com o governo, na sua qualidade de líder do país.

No caso do Irã, as tendências são sombrias.

O aumento das sanções, com que EUA e Europa o estão ameaçando, poderá transformar o Irã em terra arrasada.

Em situações desse tipo, os governos, historicamente, procuram assumir poderes excepcionais, limitar direitos em nome da segurança nacional.

São essas as perspectivas do Irã que, depois de Ahmadinejad, deverá ter um governo ainda mais linha dura.

O povo iraniano, mesmo as classes ilustradas, não espera que o Ocidente mude de comportamento, torne-se compreensivo, na eventualidade da eleição de um presidente moderado.

Portanto, vai preferir um governo forte, que enfrente a ameaça ocidental de cabeça erguida.

E aceitará mais sacrifícios na luta contra a opressão do exterior.

Shirin Shafaie acredita que há possibilidades do governo conseguir maneirar a situação econômica e evitar um colapso.

Encontrar uma forma de convivência do país com a crise, como teme o senador democrata americano Menendez.

“Em termos relativos”, Shafaie explica: “A dívida externa do Irã é algo próximo a zero. E isso, associado ao baixíssimo valor atual do rial (moeda iraniana), pode, em teoria, ajudar a estimular os investimentos internos e as exportações. Portanto, se o Irã conseguir administrar os problemas da crise, então não haverá quase nada no arsenal de medidas coercitivas do Ocidente que possa ser usado para pressionar o Irã ainda mais.”

Isso seria o fracasso total da sanções.

Para grande alegria de Netanyahu e acólitos, só restaria a guerra sobre a mesa.

Considerando que, tanto Europa quanto EUA sabem que tal solução seria desastrosa também para eles, seus estadistas poderiam dar um basta à chantagem da direita israelense.

Não sei se teriam coragem.

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