Quem ameaça a segurança do Oriente Médio

Hoje, o IAEA (Agência Internacional de Energia Atômica) apresentará o seu relatório sobre o programa nuclear iraniano. Misteriosamente, diplomatas de países ocidentais tiveram acesso ao relatório “sigiloso” da IAEA e, sob condição de anonimato, já revelaram o que seriam suas principais conclusões.

Os países do Ocidente proclamaram que agora não há mais dúvidas: o Irã começou a produzir bombas nucleares.
Como que para reforçar essa convicção, anunciou-se que fora descoberto uma instalação dedicada ao enriquecimento do urânio na Síria, a grande aliada do Irã. No entanto, esse país logo enviou provas irretorquíveis de que se tratava, na verdade, de uma tecelagem… E deu-se o dito por não dito.
Logo que saíram os primeiros boatos sobre o relatório da IAEA, divulgou-se que Nethanyau estava tentando convencer seus ministros da necessidade de bombardear as instalações nucleares do Irã. Em seguida, Obama afirmou que, mais do que nunca, todas as opções estavam sobre a mesa… E o Reino Unido revelou oficiosamente que já estava se preparando para coadjuvar militarmente os EUA num ataque iminente.
Claro, o Ocidente não quer guerra. Por isso, A Alemanha, a França e mesmo os americanos já declararam que o caminho seria o das sanções. Ainda que agora mais poderosas.
Ótimo!  O Congresso americano já as aprovou: 2 novas leis proíbem de negociar com os EUA quem negociar com o Banco Central do Irã – o que vibraria um golpe destruidor na economia do pais – e proíbem também qualquer autoridade americana contatar o governo do Irã- o que impediria quaisquer soluções diplomáticas. Estas leis dependem ainda da assinatura do Presidente. Sabe-se que os países europeus não estão nada contentes com essa idéia do congresso americano. A China, menos ainda, tanto é que reprovou in limine tanto bombardeios, quanto sanções particularmente perversas.
A Rússia foi o único país que lembrou a Israel as condições em que o uso da força de um país contra outro é aceito pela Carta da ONU: 1- Quando o país é invadido; 2- Por decisão do Conselho de Segurança da ONU. Os russos poderiam acrescentar que Israel estaria praticando um ato ilegal e se transformando num estado fora da lei, se de fato atacasse o Irã. Mas não acrescentaram. Talvez lembrando que, ao invadir o Iraque, os EUA violaram essas mesmas disposições e a ONU não fez nada. Mau exemplo sempre frutifica.
Com base nas informações dos diplomatas ocidentais que tiveram acesso ao relatório, David  Albright, ex-membro do corpo técnico da IAEA, fez sua análise. Para ele, o relatório afirma, simplesmente, que o Irã dispõe das informações necessárias para produzir A Bomba.
Ou seja, domina o know-how. Mas não tem nenhuma bomba nuclear, nem os materiais necessários, nem recursos, muito menos está empenhado em produzir esse artefato. Albright diz que os técnicos da IAEA chegaram à seguinte conclusão final: “O Irã tem informação suficiente para projetar e produzir um artefato nuclear capaz de explodir”, usando urânio altamente enriquecido como seu núcleo físsil.
As conclusões de Yamano, o chefe do IAEA são diferentes. Ele diz que certas atividades do Irã só poderiam ser realizadas dentro do objetivo de desenvolver uma bomba nuclear. Portanto, em seu entender, há indícios suficientes para garantir que o Irã está de fato em meio ao processo de fabricação desse artefato. Acrescenta ainda que os iranianos devem ter criado um programa para iludir a IAEA pois só agora a agência teria verificado esses fatos..
Os EUA e Israel irão clamar que agora é necessário impedir a todo custo o programa nuclear iraniano, pois, dispondo de bombas atômicas, uma potência agressiva como o Irã ameaçaria a segurança do Oriente Médio. E lembrarão as célebres ameaças de Ahmadinejad de varrer Israel do mapa, apesar dele ter explicado muitas vezes que se referia ao estado sionista, o qual acabaria ”como um fígado transplantado para um corpo que o rejeita,” não por ação militar iraniana. Que ele não seria tolo de atacar  um dos países mais fortes militarmente do mundo, ainda por cima apoiados pelos EUA.
Na verdade, a única guerra que o Irã travou nos últimos cem anos foi defensiva, contra o Iraque de Saddam Hussein, que o invadira.
Além disso, apóia, possivelmente com dinheiro e treinamento, o Hamas – que luta pela independência da Palestina, ocupada por Israel; o Heinsbolá – que defendeu o Libano, invadido também por Israel; e as milícias xiitas iraquianas, contra o exército de ocupação americano.
 Desenvolver um programa militar nuclear ou ter apenas know how do processo é, no caso, uma postura defensiva uma vez que o Irã é vizinho de três países (Israel, Índia e Paquistão) comprovadamente donos de grandes arsenais nucleares. Uma forma de manter respeito, não de ameaçar.
Não pode ser considerado agressivo um país cujas únicas ações militares foram  defensivas.
O mesmo não se pode dizer de Israel, que já invadiu e ocupou o Líbano várias vezes, matando milhares de civis.
 Atacou e destruiu parcialmente a Faixa de Gaza, matando 1.500 civis e cometendo crimes de guerra, segundo comissão de inquérito da ONU.
Atacou navios que levavam suprimentos para Gaza e cidadãos pacíficos, dos quais 9 foram assassinados pelos comandos israelenses.
 Mantém sob ocupação terras do Líbano (fazendas de Sheba), Síria (colinas de Golan) e Cisjordânia.
Provavelmente, assassinou 4 cientistas nucleares iranianos. Digo isso com base na resposta que o Ministro da Defesa de Israel deu ao jornal alemão Der Spiegel. Quando inquirido se o seu país fora o autor dos crimes, ele sorriu e disse que Israel não responderia.
Por fim, nos últimos 10 dias, autoridades do governo vem anunciando repetidas vezes que as chances de Israel bombardear o Irã são maiores do que aceitar a aplicação de novas sanções.
Além de Israel, muito agressivo no Oriente Médio tem sido os EUA. E o melhor exemplo é a Guerra do Iraque, causada por pretextos falsos, que trouxe insegurança para toda a região, além das centenas de milhares de vítimas e prejuízos econômicos gigantescos.
Lembro também o programa de ajuda aos opositores do governo iraniano do governo Bush, no valor de 75 milhões de dólares anuais. O qual, segundo o jornalista Seymour Hersh (prêmio Pulitzer), beneficiou, entre outros, o movimento terrorista Jundullah, responsável por dezenas de mortes e seqüestros de civis e soldados iranianos, de 2007 a 2009.
E, nos últimos anos, o governo americano encheu o Golfo Pérsico de navios de guerra e os países da região, de bases militares, cercando o Irã de um cinturão de ferro.
Agora, responda: quem é que ameaça a segurança no Oriente Médio?
Quem ameaça quem?
Neste ano, quando Obama denunciou ao mundo um ridículo complô, no qual ninguém de bom senso acreditou, pediu as mais severas punições ao Irã, deixando entrever possíveis ações militares.
É exatamente o que o premier Nethanyau ameaça fazer, com o apoio dos membros do seu gabinete.
No concerto de vozes clamando pela guerra, alternaram-se políticos e generais americanos com políticos israelenses.
“Generosamente”, Israel concedeu que aceitaria o plano do Congresso americano, impedindo de fato o comércio com o Irã como alternativa ao envio dos seus novos mísseis balísticos contra as instalações nucleares iranianas.
O Irã advertiu que a aprovação dessas leis equivaleria a uma declaração de guerra pois seu efeito seria mais destruidor do que a bombas israelenses.
Sanções do tipo das desejadas por Israel e o Congresso não passarão na ONU. China e Rússia vetarão.
Mas, Obama poderá promulgá-las. E a União Européia, dificilmente se recusará a fazer o mesmo.
Assim seria fechado o cerco contra a economia iraniana.
Não me parece que os fanáticos aiatolás que governam o Irã entregarão os pontos.
Tendo que escolher entre comerciar com os EUA ou com o Irã, raríssimos países do mundo optarão pelo país islâmico.
Não será o suficiente parar salvar o Irã do caos.
Nenhum governo resiste a uma situação assim.
E assim acontecerá o que os EUA e Israel queriam.

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