Quando a esquerda se comporta como direita.

Logo após a vitória do socialista Hollande, o ex premiê também socialista, Michel Rocard, viajou a Teerã, onde foi recebido por altas autoridades do governo.

Muitos analistas viram nisso um sinal de que haveria uma mudança na política externa dos tempos de Sarkosy.

O marido de Carla Bruni se distinguira como um fiel aliado dos EUA, sempre pronto a apoiar todas as decisões, tanto de Bush, quanto de Obama.

Na verdade, em uma única vez Sarkosy erguera a cabeça: foi quando a França votou a favor da entrada da Palestina na UNESCO, contra o veto americano, em atenção a Israel.

Tradicionalmente, os presidentes franceses costumavam, ao menos em alguns momentos, tomar atitudes que contrariavam os ocupantes da Casa Branca, líderes incontestes do chamado “mundo livre”.

De Gaulle negou a entrada da França na OTAN.

Mitterand, em 1988, foi o primeiro presidente ocidental a reatar relações com o Irã depois da revolução islâmica; em 1991, o primeiro a visitar Teerã.

Além disso, defendeu a independência da Palestina (ao lado da segurança de Israel) e condenou a invasão israelense do Libano, comparando as ações do exercito de Telaviv às dos nazistas.

Jacques Chirac recusou-se a receber Ariel Sharon, por causa do massacre de Sabra e Chatila, apoiou Arafat com freqüência e manifestou-se contra a invasão anglo-americana do Iraque.

Importante notar que, dos três somente Mitterrand era esquerdista.

De Hollande, esperava-se ainda mais.

Afinal, a defesa dos direitos humanos e da auto-determinação dos povos submetidos tem sido básico nos programas de todos os partidos socialistas do mundo.

De Hollande deveria partir uma mudança, uma política independente, oposta à subserviência de Sarkosy às grandes corporações, no plano interno, e aos EUA, no plano externo.

Apenas a primeira esperança parece estar sendo atendida.

Hollande surpreendeu quando, depois de afirmar durante a campanha que iria sair do Afeganistão até o fim de 2012, voltou atrás, em parte, depois de eleito.

Esclareceu que somente as tropas de combate seriam retiradas. Os assessores, técnicos e instrutores, calculados em algumas centenas, permaneceriam até o fim.

Mas isso não foi nada perto do que viria depois.

No contencioso nuclear do Ocidente com o Irã, longe de adotar uma postura conciliadora, o Ministro Fabius, das Relações Exteriores, tem se mostrado um agressivo falcão.

Repetidas vezes o representante da França pediu novas sanções, ainda mais duras, como se não bastassem as atuais, que vem causando até falta de medicamentos essenciais no Irã.

Na Síria, a proposta do mediador da ONU, Kofi Anam, de convocar o Irã para ajudar a negociar a paz, foi aceita até por países inimigos do governo Assad, como a Turquia e o Egito.

Fazia sentido: afinal, o Irã é um importante aliado do governo sírio, poderia influenciá-lo a aceitar um acordo de transição do poder com a oposição.

Claro, Hillary Clinton foi radicalmente contra, já que o interesse americano não é a paz na Síria, mas a destruição do seu governo, grande apoio do Irã no Oriente Médio.

Hollande preferiu seguir a Casa Branca na rejeição de um interlocutor que poderia ser muito útil no esforço para acabar com a guerra sangrenta que assola a Síria.

Como, aliás, vem fazendo no trato das questões ligadas ao conflito palestino-israelense.

Em maio deste ano, ativistas franceses, que pregavam o boicote de produtos dos assentamentos israelenses na Palestina ocupada, foram processados sob a acusação de “incitamento à discriminação.”

Através do aumento do número de assentamentos, que expulsa os palestinos da Margem Oeste, Israel vem aumentando a área colonizada numa amplitude tal que tornaria inviável a independência da Palestina.

Os assentamentos são condenados pelas leis internacionais, pela ONU e pela Europa Unida como ocupação ilegal de territórios tomados pela força e por serem um obstáculo à “solução dos 2 estados”.

A campanha de boicote internacional dos seus produtos é uma das poucas formas de luta pela independência que ainda restam ao povo palestino.

Algo semelhante ao que Gandhi promoveu contra os produtos do imperialismo inglês.

Associações sindicais de todo o mundo, movimentos religiosos, grupos de direitos humanos e até países vem aderindo ao boicote palestino.

Mas François Hollande foi contra.

Em entrevista ao jornal Tribune Juive, ele condenou o boicote, taxando-o de ilegal.

Não foi o que entendeu uma corte criminal de Paris.

Ela considerou que a campanha não poderia ser enquadrada como discriminação.

Hollande não ficou nisso no seu apoio aos pleitos do governo de Israel.

Manifestou-se contrário ao pedido de reconhecimento da Palestina pela ONU como estado não-membro.

Afirmou que só negociações bilaterais entre as partes, sem pré-condições, poderiam resolver a questão da independência palestina.

Exatamente a posição de Netanyahu, que se nega a interromper a construção de novos assentamentos, exigida pelos palestinos para o começo das conversações de paz.

Nem o governo americano defende a posição israelense. O próprio Obama fez muita força para convencer o governo de Telaviv a fazer o que os palestinos queriam.

Mas, nada feito.

Desde os acordos de Oslo, em 1993, que vem se tentando negociar um acordo bilateral, sem um passo sequer ser dado nessa direção.

Ocupando partes cada vez maiores da Margem Oeste com novos assentamentos, os governos de Israel tem impedido que isso possa acontecer.

No mês passado, foram tiradas todas as dúvidas quanto ao desinteresse de Israel na independência da Palestina, quando Netanyahu legalizou todos os muitos assentamentos construídos totalmente contra as leis.

Se para se criar uma Palestina independente será forçosamente necessário a desocupação dos assentamentos existentes, ao aumentar seu número, legalizando mesmo os fora da lei, Bibi deixou claro que pretende anexar de vez a Margem Oeste.

Que foi exatamente o que propôs a Comissão Levy, criada por Telaviv para apontar uma solução para a questão da Palestina.

Portanto, tudo indica que a proposta das negociações bilaterais não é para valer, não passa de uma forma de ganhar tempo, enquanto os assentamentos avançam pelas terras da Margem Oeste.

Ao solidarizar-se com essa tese, Hollande marcou presença ao lado de Israel e dos EUA, apoiando uma potência colonizadora em sua ação para impedir a auto-determinação de um país sob ocupação.

Tudo muito direitista, portanto.

O que teria levado o líder socialista a seguir um caminho rejeitado por todas as forças progressistas, esquerdistas ou moderadas, do mundo?

Para alguns, seria uma forma de evitar por em risco o grande desafio de tirar o país da crise econômica, criando atritos com os EUA e a Alemanha, grandes aliados de Israel.

Estar bem com a Alemanha é importante dada a posição hegemônica do governo de Berlin na economia da Europa. Especialmente porque Hollande defende o primado do estímulo à economia sobre a austeridade, tese dependente da aprovação ainda reticente dos alemães.

Opor-se aos interesses dos EUA, o único líder mundial, em favor de Israel pode parecer ao líder socialista uma parada até assustadora, à qual ele preferiria adiar, concentrando-se agora no enfrentamento da crise.

É preciso considerar também a tradicional postura de solidariedade entre os países ricos da Europa e da América do Norte, nas controvérsias com as nações do Sul. A maioria delas antigas colônias ou protetorados, desprezadas por serem consideradas atrasadas, habitadas por fanáticos e analfabetos, incapazes de se comportarem bem à mesa.

Isso parece uma caricatura, mas não deixa de pesar numa relação França-Israel-Palestina, onde Paris está muito mais próxima de Telaviv do que de Ramallah.

Esperava-se que um intelectual de mente aberta como Hollande, membro de um Partido Socialista Democrático, de tradições humanistas, defensor dos direitos humanos, ficasse acima desse tipo de preconceito.

Por enquanto, não é o que está se vendo.

No entanto, possivelmente, Hollande superados os graves problemas econômicos franceses, pode vir a ser um governante independente e justo.

A França merece e o mundo precisa.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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