Pretextos Atômicos

Em visita aos Estados Unidos, o Premio Nobel da Paz, Mohammad El Baradei, diretor da agência internacional de energia atômica, afirmou acreditar firmemente num acordo com a Coréia do Norte. Para ele, o teste nuclear de 9 de outubro foi um “grito de socorro” do país para conseguir garantias de segurança dos Estados Unidos.

Pyongiang tem afirmado que aceita voltar a negociar, desde que seja somente com o governo Bush, pois a ameaça vem dele, não dos 6 países que representam a comunidade internacional. El Baradei conclui que com quem negociar é um detalhe secundário, o importante será resolver a questão nuclear.

Para Bush¸ conversações bilaterais Estados Unidos – Coréia do Norte não dariam certo, a exemplo do que teria acontecido no governo Clinton. Em 1994, depois de reuniões entre as duas partes, Jimmy Carter, representando o presidente Clinton, conseguiu que Pyongyang cancelasse seu programa nuclear. Por sua vez, os americanos se comprometiam a iniciar o processo de normalização das relações entre os dois países, garantir suprimento de petróleo à Coréia do Norte e construir dois reatores para fins pacíficos.

Mas a coisa desandou em 2001, quando Bush assumiu a presidência. Ele logo colocou a Coréia do Norte entre os países do “eixo do mal” e invadiu o primeiro deles, o Iraque. Assustados , os norte-coreanos trataram de se defender, reiniciando o processo para produção de armamentos nucleares, à qual haviam renunciado.

Desta vez, quem se alarmou foi a comunidade internacional. Através de seis países – China, Rússia, Estados Unidos, Alemanha, Coréia do Sul e Japão –, realizou conversações procurando convencer os comunistas a desistir. Em 19 de setembro de 2005, parecia que havia se obtido êxito. Em um acordo patrocinado pela China, o governo do ditador Kim Jong-il aceitou encerrar seu programa nuclear e reingressar no Tratado de Não-Proliferação Nuclear. Em contrapartida, os Estados Unidos se obrigavam a reconhecer a integridade territorial da Coréia do Norte e excluir atos hostis.

Tudo foi por água abaixo quando o Tesouro dos EUA puniu com duras sanções um banco de Macau, acusando-o de lavagem de dinheiro para o regime norte-coreano. Temendo também serem vítimas dos raios de Washington, outros bancos regionais cortaram suas relações com o país comunista. Em poucas semanas, grande número de transações legítimas da Coréia do Norte foi cancelado, com o corte de créditos e empréstimos de grande vulto.

Enquanto isso, funcionários do tesouro americano procuravam bancos asiáticos, advertindo-os do perigo de serem associados a atividades “suspeitas” do regime de Pyongyang. Na iminência de estrangulamento financeiro, o governo de Kim-Jong il utilizou sua única carta: retirou-se das discussões sobre a renúncia do seu programa nuclear.

No entanto, vem afirmando reiteradamente que voltará assim que os Estados Unidos cessarem as pressões sobre os bancos estrangeiros com quem Pyongyang trabalha. Assim como rejeita conversações bilaterais, Bush rejeita mais esta proposta com um argumento de quem não quer resolver nada: a ação do tesouro não teria nada a ver com o problema das armas atômicas de Pyongyang.

Ficou claro que a Casa Branca não quer acordo nenhum. Combatem a nuclearização da Coréia do Norte, mas seu principal alvo é o regime comunista, integrante do “eixo do mal”, de olho na unificação da Coréia sob um governo amigo. A esse respeito, lembramos que sua primeira proposta de sanções na ONU deixava aberta a possibilidade de intervenção militar. Bolton, o embaixador dos EUA, só desistiu quando China e Rússia ameaçaram com seus vetos no Conselho de Segurança. Logo em seguida, tanto ele quanto Condoleezza Rice insistiram em que cabe à China o papel decisivo na viabilização da resolução da ONU.

De fato, 85% das importações coreanas vêm da China, que também garante seu suprimento de petróleo e faz generosas doações de alimentos, indispensáveis devido à ineficiência da agricultura norte-coreana, agravada neste ano por gigantescas inundações. A dupla americana quer que Beijing pare com isso, o que resultaria no colapso da economia da Coréia do Norte. Nem de longe a China concorda.

É verdade que as ambições atômicas do seu aliado a incomodam, pois sabe que poderão resultar em conflitos militares nas suas fronteiras. Também não acha bom o pouco equilibrado Kim-Jong il dispor de armas atômicas no seu arsenal. Gostaria que ele fosse substituído por um regime semelhante ao seu, combinando comunismo e capitalismo, que fosse eficiente e assim poupasse seus vultosos gastos anuais no auxílio à Coréia do Norte. Por isso, os chineses rejeitam in limine sanções excessivas que acabem destruindo a economia do país vizinho.

Isso causaria um êxodo de milhões de refugiados famintos penetrando através da fronteira chinesa. O que poderia levar Kim-Jong il a atacar, não os EUA, que estão longe, mas seus aliados Japão e Coréia do Sul, gerando um conflito de grandes proporções que não interessa a Beijing. Como a idéia de uma Coréia unificada satélite dos Estados Unidos também não lhe é nada prazerosa, a China procura convencer sua aliada do norte a ser mais flexível, enquanto se opõe se à aplicação rígida das sanções que “levariam a Coréia do Norte às cordas”, como ressaltou recentemente o presidente Putin.

Na verdade, é difícil dizer até onde Bush pode ir. Sabe-se que a Coréia do Norte pode resistir muito tempo ao bloqueio, pois tem acumulado armamentos e matérias-primas industriais suficientes. Só precisa de petróleo e alimentos, que a China até agora lhe tem fornecido.

Bush conta com essa resistência. Prevê que, ao se prolongar, poderá potencializar o medo da comunidade internacional. A China seria fortemente pressionada a cortar seu apoio, e eventualmente teria de ceder. Some-se a isso o bloqueio naval e aéreo do território norte-coreano e o governo de Kim-Jong il iria resvalar para o caos.

Claro, os comunistas poderiam tentar furar o bloqueio pela força. Para Bush, isso seria ouro sobre azul. Justificaria o uso do maciço estoque de mísseis Tomahawk que ele acumulou no Golfo Pérsico, capazes de atingir a Coréia do Norte de longe, sem baixas americanas. E de reduzir a escombros as cidades, fábricas, hospitais e usinas norte-coreanas. Seria o fim da bomba de Kim-Jong il e do seu comunismo.

Claro, tudo depende da China. Terá ela coragem de dizer não ao poder americano?

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