Complô e armação

Anunciado com grande alarde pela polícia de Londres, o complô para explodir doze aviões americanos em vôo vem sendo questionado nos Estados Unidos e Inglaterra.

Ninguém discute que de fato havia um grupo de jovens muçulmanos planejando esse “assassinato de massa em escala inimaginável”, conforme descrito pelo comissário de polícia Paul Stephenson.

Mas, a partir daí, diversos reparos são feitos. Como foi denunciado, os conspiradores levariam para bordo dos aviões inocentes produtos químicos líquidos de uso doméstico, não detectáveis nos aeroportos. Misturados a bordo, eles se transformariam em triperóxido de triacetona (TAPT), um explosivo de alta potência, que seria usado para detonar os aviões no ar.

The Register, conceituado website inglês especializado em tecnologia, considera praticamente impossível preparar uma quantidade de TATP num avião com a concentração de peróxido de hidrogênio adequada para explodi-lo.

Já na produção em terra do peróxido de oxigênio, haveria grandes riscos de se incendiar tanto o terrorista quanto o laboratório. Não seria fácil também passar pelos controles do aeroporto com todos os instrumentos e materiais a serem usados. A bordo, o único lugar possível para se elaborar o TAPT seria o banheiro. Aí, os problemas aumentam: seria necessário ferver o peróxido numa proveta pingando ácido gota a gota, mexendo constantemente. O perigo é a mistura esquentar demais, causando uma explosão prematura capaz de matar o terrorista e mais ninguém. Se isso não acontecer, depois de algumas horas o TAPT está pronto para ser detonado, supondo que ninguém se tocou com a fumaça saindo do banheiro… 

Mas a quantidade de TAPT será suficiente para destruir o avião? Terá sido adicionado ácido na medida exata para assegurar potência? O The Register aposta que não: “no máximo, um infiel ou dois podem ser mortos pela explosão e um ou dois outros por fragmentos decorrentes da súbita despressurização da cabine”.

Por sua vez, Larry Johson, ex-diretor de contra-terrorismo da CIA, acha que o complô estava longe da fase de execução. Não haveria evidências de que os terroristas conheciam as dosagens certas dos ingredientes para elaborar o TAPT nem a quantidade necessária para obter o efeito desejado. Dispunham de uma idéia, mas “não de um plano terrorista viável pronto para ser executado”. Além disso, o grupo não havia ainda comprado as passagens aéreas e muitos dos seus integrantes não tinham passaportes, o que na Inglaterra leva meses para conseguir. Por fim, se os planos já estavam tão adiantados e a polícia vinha observando o grupo há tempos, por que tanta dificuldade em reunir provas para processar os suspeitos? Vinte dias depois da prisão dos 25 deles, só 15 foram indiciados, sendo que 5 foram libertados e 5 permanecem em custódia, sob investigação.

Se, ao que tudo indica, o grupo do chamado “UK plot” não tinha ainda condições de explodir aviões, por que as autoridades apressaram-se a abortar a conspiração nesta fase inicial? Já que os presumíveis terroristas estavam sob observação, por que não esperar que seus planos avançassem para poder descobrir todas as suas possíveis ligações? Por que anunciar que o perigo era iminente quando seria, na melhor das hipóteses, remoto?

George Parrish responde no jornal online Workforchange: “Há informações dignas de crédito de que as autoridades britânicas, despreocupadas quanto a ameaças iminentes, desejavam esperar e deixar a conspiração desenvolver-se para reunir mais informações sobre as pessoas envolvidas, mas Washington pressionou fortemente por prisões prematuras”.

Para Bush, o “UK plot” chegou na hora certa. Seymour Hersh tinha acabado de denunciar que o presidente havia previamente aprovado o plano israelense de atacar o Hizbollah, via bombardeio do Líbano, aproveitando o primeiro pretexto.

A situação era embaraçosa, pois o jornalista dispõe de crédito junto à opinião pública. E deixa Bush mal justamente quando sua popularidade vinha em declínio. As pesquisas revelavam que, em julho, 56,4% dos americanos desaprovavam seu governo, contra apenas 37% de fiéis. Os reflexos apareciam nas pesquisas das eleições legislativas, com os democratas mantendo uma confortável vantagem sobre os republicanos de 12 a 15% de votos a mais.

O fantasma de uma vitória da oposição nas eleições de outubro, com a perda do controle do Congresso, assombrava Bush. Por sua vez, Blair também estava a perigo.

Sua política de alinhamento com a Casa Branca, que o fez apoiar os americanos para impedir o cessar-fogo no Líbano, causara uma verdadeira revolução no seu partido. Até Jack Straw, líder da bancada no parlamento e ex-ministro das Relações Exteriores, torcia o nariz para ele.

E a opinião pública inglesa expressava sua insatisfação numa pesquisa, com 67% contra o governo Blair e apenas 23% a favor. O complô, apresentado como uma possível hecatombe pior até do que o atentado de Nova Iorque, desbaratado pelo governo da Inglaterra, com a colaboração do serviço secreto ianque, forneceu preciosa munição à dupla B & B.

Bush correu para a imprensa, alertando contra a frouxidão dos democratas no combate a um terrorismo de fôlego de sete gatos, que somente um presidente com a sua força poderia enfrentar. Por seu lado, Blair destacou a terrível ameaça conjurada graças às suas novas leis antiterror.

A princípio, a estratégia de Bush parecia ter dado certo. Pesquisa logo após a revelação do complô mostrava que 55% aprovavam o modo de ele combater o terrorismo. Mas sua alegria acabou logo, quando a média das pesquisas de agosto veio com um placar de 57,8% a 39%, desaprovando seu governo.

Para Blair, as coisas correram ainda pior. Pela pesquisa Ipsos-Mori de 27 de agosto, apenas 6% queriam ele no seu cargo até as próximas eleições. Os demais eram pela sua saída antes, sendo que o índice maior foi de 47% pró-renúncia já.

Outra pesquisa realizada depois da prisão dos 25 suspeitos mostrava que os ingleses, numa proporção de 5 para 1, defendiam a dissociação da política anti-terrorismo de Bush. De fato, os resultados da aplicação dessa política, que implica na restrição das liberdades individuais, têm sido ruins.

Entre mais de mil muçulmanos ingleses presos como suspeitos, apenas 12% acabaram processados. 80% foram absolvidos. A maioria dos condenados – 2% do total preso – estava incursa em crimes que nada tinham a ver com terrorismo.

O episódio do “UK plot” mostra que o povo inglês e o americano continuam sensíveis à ameaça terrorista. Mas o medo que ela lhes inspira não é suficiente para cegá-los a ponto de não verem o que está por trás da sua exploração.

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