Pobre nação rica

Ele tem o título de “sir” e é filho de Margaret Thatcher, a primeira-ministra britânica famosa por sua inflexibilidade. E, com tudo isso, Mark Thatcher foi preso na África do Sul, acusado de financiar a contratação de mercenários para derrubar o governo da Guiné Equatorial. Seria ridículo se não fosse trágico, pois o país é um dos mais pobres e sofridos do mundo.

Localizada no oeste africano, a pequena Guiné Equatorial foi colônia espanhola até 1968. Nesse ano, tornou-se independente, mas não livre. Seu primeiro governante, Francisco Macías, era um ditador cruel que executou ou exilou nada menos do que 1/3 da população. Em 1979, através de um golpe, seu sobrinho, Obiang assumiu o poder. 

Foi uma ditadura depois da outra. Esse regime durou, nominalmente, até 1982, quando a Guiné Equatorial começou a tornar-se “democrática”, com Constituição e três poderes. Na verdade, continuou tendo um só: Obiang, agora com o título de “presidente”, eleito para um período de sete anos.

Em 1996, ele se candidatou de novo. Preventivamente, prendeu 140 líderes da oposição, alegando que conspiravam, e, curiosamente, obteve mais de 97% dos votos. Obiang leva o culto da personalidade a extremos. Sua propaganda chegou a garantir que Deus falava com ele diariamente – o que não o impede de ser um ditador cruel. Diz o Foreign Office sobre seu governo: “o uso de tortura, detenções arbitrárias e restrições à liberdade de palavra e reunião tem sido sistemáticos”.

Em 1995, aconteceu um milagre. A Guiné Equatorial, cuja uma economia sempre fora precária, baseada na exploração de cacau, madeiras e café, descobriu petróleo. E ficou rica.
As pesquisas provaram que o país tem reservas de 1,1 bilhão de barris, que o fazem o terceiro maior produtor de petróleo da África ao sul do Saara. Sem falar nas reservas de gás natural, que representam nada menos do que 10% do total mundial.

Impulsionada pelo petróleo, a economia do país é a que mais cresce no mundo atingindo em 1997 (ano do “boom”) um espantoso índice de 76%, que continuou alto, acima de 20%, nos anos subseqüentes. O PIB dobrou entre 1997 e 2001.

Explorado intensivamente por seis multinacionais de origem americana, o petróleo guineense responde por mais de 90% das exportações nacionais. Começando com 17.000 barris por dia em 1996, a produção atingiu 350.000 em 2003, um número de barris por habitante maior do que na Arábia Saudita. Em conseqüência do progresso, a renda per capita foi de 370 dólares, em 1995, para 2700, em 2003.

Mas todo esse enriquecimento não chegou ao povo. 70% da população ainda vive abaixo da linha da pobreza. A mortalidade infantil é de 106 por 1.000. A expectativa de vida não passa de 53 anos. 30 % da população está desempregada. Na verdade, embora a renda do petróleo seja imensa, apenas 20% vai para o país, muito pouco comparando com os 45 a 50% recebidos por outros países africanos.

Ainda assim, haveria recursos vultosos, suficientes para melhorar significativamente a situação do povo, não fosse a desmesurada corrupção do governo Obiang. Só para dar uma idéia: comissão de inquérito do senado americano descobriu no Banco Riggs de Washington depósitos no valor de 700 milhões de dólares (58% do PIB guineense) em contas do presidente e seus familiares.

Com o fim de apossar-se de uma fatia do bolo de mais um bilhão de dólares anuais produzidos pelo petróleo, um grupo de bilionários teria armado um golpe contra o governo. Ele foi tornado público quando um avião com 64 mercenários foi detido no Zimbábue a caminho da Guiné Equatorial.

Seu chefe, o empresário e ex-membro das forças especiais inglesas Simon Mann, enviou da prisão uma carta pedindo ajuda a Mark Thatcher, seu amigo e ex-sócio em vários empreendimentos, a qual, interceptada, incriminou o filho da “dama de ferro”. Claro, Mark negou tudo.

Na mesma ocasião, foram presos na Guiné Equatorial o profissional de segurança Nick du Toit e um grupo de 15 presumíveis mercenários. Du Toit apontou como articuladores do golpe o político inglês lorde Jeffrey Archer, o mega-empresário do petróleo Eli Calil e o chefe da oposição no exílio Severo Moto. Por sua vez, Obiang acrescentou à lista o ex-primeiro ministro espanhol Aznar e os governos da Inglaterra e dos Estados Unidos, os quais não o avisaram embora tivessem conhecimento de tudo.

A contestação foi geral. Aparentemente, os americanos não teriam motivos para prejudicar Obiang. Sabe-se que eles pretendem diminuir suas importações de petróleo do convulsionado Oriente, voltando-se para os países produtores da África do Oeste. A Guiné Equatorial oferece os maiores atrativos pois não tem terroristas islâmicos e nem é membro da OPEP, não participando, portanto, de eventuais restrições de produção comandadas pela entidade. Além disso, seu petróleo é explorado por multinacionais de origem americana, que pagam taxas muito menores do que o normal na África.

Devido às repetidas violações dos direitos humanos praticadas por Obiang, o governo dos Estados Unidos fechou sua embaixada na década de 90. No entanto, ela foi reaberta em 2003 por pressão das companhias petrolíferas. Ainda assim, há motivos para tanto os Estados Unidos quanto as empresas petrolíferas desejarem uma mudança de governo.

Sabe-se que Obiang sofre de câncer na próstata, devendo ser operado em breve. Seu provável sucessor seria o filho mais velho, Teodorín Obiang. Considerado o segundo homem mais rico do país (Obiang é o primeiro), ele é um playboy esbanjador, dono do único Rolls Royce local e de empresas no exterior. Teodorín não é bem visto por ter uma personalidade instável e extravagante, da qual tudo se pode esperar. Suas idéias seriam perigosamente modernas e até reformistas. Especula-se que poderia aumentar os impostos sobre os lucros do petróleo. 

Informantes do governo americano admitem que um dos acusados no affair, o consultor de segurança Gregory Wales, teve um encontro com Theresa Whelan, responsável pelos assuntos africanos na Secretaria de Defesa, quando se referiu ao golpe que estaria em processo. Significativamente, o encontro foi marcado depois de uma palestra de Teresa na reunião anual do International Peace Operations Association, que representa grupos de ex-militares prestadores de serviços de segurança, cujo tema era o crescente uso desses serviços pelo governo americano. Aventa-se também que tudo seria uma farsa, montada por Obiang para justificar medidas extremas que garantissem sua vitória nas eleições do próximo ano.

Sejam quais forem os mentores do golpe, seu sucesso não mudaria a situação do povo da Guiné Equatorial. Entre os objetivos das partes presumivelmente envolvidas não estava certamente mudar a realidade dramática de um país rico em problemas sociais e pobre em dirigentes.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *