Para onde vai o presidente Morsi?

“Esta iniciativa porá fim nas tentativas de marginalizar as mulheres, diminuir seus direitos ou suprimir sua liberdade e dignidade”.

Assim o presidente Morsi falou sobre seu projeto para promover os direitos femininos no Egito.

Trata-se de um projeto dinâmico pois vai pesquisar a situação da mulher nas 27 províncias do país e, posteriormente, apresentar soluções para esses desafios locais.

Houve críticas da oposição e de entidades feministas mas acredito que deve ter méritos pois a iniciativa de Morsi foi condenada pelos partidos islâmicos fundamentalistas.

Consideram que viola a Sharia ao defender o direito das esposas de processar os maridos por estupro e promover a igualdade dos direitos de herança entre homens e mulheres.

Atender às reivindicações por igualdade das feministas egípcias foi, talvez, o único sinal de que o Morsi dos primeiros tempos do seu governo continua vivo.

Ele apareceu como a promessa de uma liderança árabe, democrática e independente, comprometida com o desenvolvimento econômico, em dar comida e emprego aos pobres,em garantir a liberdade religiosa e a emancipação das mulheres.

Sérios desafios teriam de ser vencidos para que Morsi pudesse chegar lá.

Antes de mais nada, a resistência dos militares em entregar o poder.

No começo parecia que tudo ia nos conformes.

Morsi aposentou o marechal Tantawi, líder da junta militar que governava o país, provisoriamente, e os oficiais que ocupavam as principais funções.

Mandou soltar todos os ativistas presos por eles nas manifestações da praça Tahir.

Mas, surpreendentemente, acabou incluindo na nova Constituição privilégios como julgamento de civis por tribunais militares, embora em crimes contra as Forças Armadas; escolha do ministro da Defesa por um conselho com grande presença de generais, a quem caberia ainda a aprovação dos orçamentos militares, mantidos secretos como nos tempos de Mubarak.

Além disso, apesar de uma comissão de investigação nomeada por ele próprio ter apurado torturas, assassinatos e raptos praticados por militares durante a revolução, Morsi reluta em procurar e punir os culpados.

Todas essas concessões são resultado de acordos da Irmandade Muçulmana (Morsi é membro dela) com os generais para garantir seu apoio ao governo.

Seria necessário já que Morsi se acha fragilizado por grandes movimentos de rua, que protestam contra seu governo, que consideram despótico.

A oposição também se rebela contra artigos da constituição, elaborada sem sua participação, que implicariam na imposição de leis religiosas islâmicas no país.

Morsi contesta, mas a aliança do partido da Irmandade Muçulmana com os ultra- fundamentalistas salafitas parece sintomática.

A irritada rejeição desse grupo da iniciativa do governo pró- direitos femininos pode causar uma ruptura da aliança, possivelmente reaproximando Morsi da proposta da revolução egípcia de um estado secular, com religião oficial islâmica.

Na área da política externa, as ideias da revolução parece estar se desvanecendo.

Para afirmar sua independência e liderança no mundo islâmico, o Egito de Morsi teria de encarar as questões de Gaza e do Irã.

E, nos primeiros dias do seu governo, Morsi proclamou firmemente sua posição favorável a uma Palestina livre e ao desbloqueio de Gaza.

Se a primeira tese não é contestada nem por Netanyahu (só de boca pra fora), na segunda as coisas não são tão simples.

Manter Gaza bloqueada é fundamental para a estratégia israelense de levar o povo da região ao desespero para fazê-lo virar-se contra o governo do Hamas.

Se o Egito reabrir sua fronteira com Gaza, adeus bloqueio, adeus crise, adeus desespero, adeus oposição ao Hamas.

Adeus estratégia israelense.

Por isso,  Nertanyahu não admite que Morsi desbloqueie Gaza pelo lado egípcio.

Acionado por ele, o governo americano faz pressão para o presidente egípcio esquecer as animadoras promessas feitas ao povo de Gaza.

Felizmente para Bibi, os fundamentalistas deram uma ajuda.

Um bando deles atacou e matou um bocado de soldados egípcios na região do Sinai.

Logo os militares do Egito, a imprensa de direita, os governos de Israel e dos EUA gritaram que o ataque partira de Gaza, provavelmente através de tuneis que existem para contrabandear os mais diversos produtos.

Rapidamente, o Hamas negou. Foi feito um inquérito que deu em nada.

Não adiantou.

Os militares egípcios continuaram culpando Gaza.

Atendendo á sua pressão, Morsi ordenou a destruição dos tuneis, privando o faminto povo da região de 30% dos produtos, que consome que vinham por deles.

E lançando ao desemprego mais alguns milhares de trabalhadores, envolvidos nas vendas.

Em 2010, eram 7 mil. Hoje devem ser mais.

Para agravar a situação, fala-se que Morsi está de mal com os dirigentes do Hamas.

A outra grande chance do presidente provar sua independência seria reatar relações diplomáticas com o Irã.

Mostraria aos americanos que os tempos de Mubarak já passaram, o Egito agora tinha uma política externa livre das ordens de Washington..

No começo, as coisas também também aqui começaram bem.

Morsi esteve em Teerã, na “Conferência dos Países Não-alinhados”. Trocou juras de amor com Ahmadinejad.

As transações com os iranianas foram estimuladas.

Ahmadinejad visitou o Cairo.

Iniciaram-se voos charter regulares, Teerã-Cairo e vice-versa.

Ministros dos dois países falaram que o reatamento iria sair.

Mas pediram paciência.

Até quando?

O que impede o Egito de trocar embaixadores com o Irã?

A resposta pode ser a crise em que o país mergulhou.

Ou talvez, o FMI.

Ou ambos.

Desde a queda de Mubarak, a economia egípcia, que já ia mal, entrou em processo de franca deterioração, causada por meses de conflitos políticos na rua.

O déficit orçamentário, projetado para o ano fiscal que termina em junho, cresceu em mais de 11% . As reservas financeiras encolheram para menos do necessário para cobrir 3 meses de importações. Em todo o país há falta de combustíveis. E 40% da população vive com menos de 2 dólares por dia.

Estima-se ser necessária uma injeção de 15 bilhões de dólares em ajuda e investimentos para ativar o desenvolvimento.

Há 6 meses, o governo e o FMI estão discutindo a concessão de um empréstimo de 4,8 bilhões de dólares, que ajudaria Morsi a tirar a economia nacional do buraco.

As informações é que a conclusão do negócio está por pouco.

No entanto, ainda existem algumas dúvidas sobre as condições exigidas.

O FMI quer, especialmente, aumentos de impostos e corte de subsídios ao consumo de combustíveis, que atualmente consomem 21% do orçamento.

Todos os partidos, mesmo a esquerda, aceitam a necessidade do empréstimo do FMI, já que, sem ele, breve o governo ficaria sem dinheiro até para pagar suas despesas.

O problema é a contra partida do Egito.

“Ficou claro para nós, que eles (o FMI) querem algumas reformas no sistema de impostos”, afirma Badran, do partido Nour. ”Isso na nossa visão aumentaria o fardo que o povo sofre.”

Sabahi, líder da corrente popular esquerdistaa, diz que seu partido aceitará medidas duras desde que não sacrifiquem os pobres, agricultores, trabalhadores e a classe média ou dite ao governo onde ele deve gastar.

“A Corrente Popular não pode concordar com condições que incluam suprimir subsídios das commodities básicas.”

Morsi parece concordar com estas posições.

Dizem os observadores que o FMI, por sua vez, tende a aceitar sacrifícios muito mais leves do que os impostos aos países do Velho Continente.

Sargon Nissan, do Bretton Woods Project, diz por que: ”A Europa é um pântano; o leste europeu não é um lugar bom para se fazer empréstimos e o Oriente Médio é uma região de enorme significado, onde os EUA, principal patrocinador do FMI, tem grandes interesses geopolíticos. O FMI está claramente priorizando apoiar essa região. E o Egito é o país chave.”

Dizem as más e boas línguas que o caminho para se obter generosidade do FMI passa por agrados aos EUA.

É o que Morsi está fazendo, ao se negar a abrir a fronteira do Egito com Gaza e reatar relações diplomáticas com o Irã, rompidas desde 1979.

Depois de embolsado o dinheiro do FMI, ele estaria livre para cumprir seu destino político, conforme manifestou em sua campanha eleitoral. Lutando por direitos das mulheres, poder civil, regime secular, política externa independente- em defesa  dos povos islâmicos.

Foi assim que a Primavera Árabe despontou no Egito.

Teme-se que, de tanto fazer concessões, Morsi acabou hasteando essas bandeiras a meio pau.

O hábito de fumar cachimbo entorta a boca.

 

 

 

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