Palestina: as negociações acabam antes de começar

Fazem já 2 meses que os palestinos foram ao Conselho de Segurança da ONU pedir independência.

Ouviram de Barack Obama, o mesmo Barack Obama que há um ano proclamara esperar ter hoje na ONU uma Palestina membro pleno, que sua solicitação não era razoável. Tratava-se de um pedido unilateral. A independência deveria resultar de negociações com Israel. Seria o certo, o justo, o civilizado. Afinal, como diz o ditado inglês, “It takes two to tango” (são precisos dois para dançar o tango).
Caso eles, palestinos, persistissem na sua pretensão absurda, então ele, Obama, lágrimas nos olhos, teria de aplicar seu veto no Conselho de Segurança.
Diante da expressão chocada de Abbas, o presidente da Autoridade Palestina, que acreditara na declaração de amor de Obama aos árabes feita no histórico discurso do Cairo, o prestimoso Sarkosy logo acorreu com uma solução.
Árabes e judeus deveriam negociar durante l ano, prazo suficiente para chegarem a um acordo, estadistas equilibrados que são Abbas e Netanyahu  (nesse momento, o nariz de Sarkosy cresceu vertiginosamente).
Havia apenas um pequeno erro no “plano Sarkosy”, Netanyahu não estava interessado em dançar o tango…
Bem, já se passaram 2 meses e, antes mesmo de começarem, as negociações praticamente acabaram.
Como se esperava, Abbas declarou que estaria pronto para reunir-se com Netanyahu desde que este parasse de construir novos assentamentos.
Não foi nada de novo. Nem de irrasoavel. Se a idéia era devolver aos árabes terras que lhes foram tomadas por judeus, não teria sentido fazer novas construções judaicas nessas mesmas terras.
Netanyahu não fez comentários. Limitou-se a anunciar o início da construção de mais 2.000 unidades habitacionais nas árabes Cisjordânia e Jerusalem Leste.
Apreensivos, os estadistas do Ocidente verberaram o premier israelense. Obama chegou a dizer que este ato não contribuía para a causa da paz. E Ban Ki Mon lembrou que a ONU o considerava absolutamente ilegal.
Como sempre fez, o governo de Telaviv bocejou com ar de enfado. Sabe que todo esse concerto de protestos nunca deu nem dará em nada, enquanto a AIPAC (lobby judaico-americano) controlar o Congresso americano e este controlar Obama, que, por sua vez, armado com seus vetos mantiver o Conselho de Segurança da ONU inofensivo.
Mais ou menos nessa ocasião, Abbas cometeu o grave pecado de candidatar-se a um lugar na UNESCO. E mais grave ainda: a Palestina foi aceita, contra os votos dos EUA e de Israel, que, em represália, cortaram suas contribuições para a entidade. Chato, mas era direito deles.
Mas Israel achou que o atrevimento desses árabes merecia punição exemplar.
Simplesmente negou-se a entregar à Autoridade Palestina os impostos e taxas alfandegárias incidentes sobre mercadorias de origem palestina. 100 milhões de dólares, que pertencem de direito à Autoridade Palestina, ficam retidos em mãos israelenses.
Num caso assim, as normas do Direito Internacional obrigariam os israelenses a devolver o dinheiro aos palestinos.
Mas eles não fizeram nada disso.
A Liga Árabe protestou, a Comunidade Européia indignou-se, os EUA reclamaram. E Hillary Clinton chegou a telefonar a Netanyahu, pedindo para que ele voltasse atrás. A resposta de Bibi foi: bem que ele gostaria mas a maioria do ministério não topava. Provavelmente mentiu, como diriam Sarkosy, Obama e Angela Merkel, de acordo com o conceito que eles têm do líder israelense.
Esta retenção indébita foi um golpe e tanto para a Autoridade Palestina. Sem esses 100 milhões de dólares, não podem pagar policiais, professores, médicos, enfermeiros; será algo próximo do caos.
Enquanto isso, as negociações continuaram involuindo quando  anunciou-se que o moderado Fatah (do presidente Abbas) e o radical Hamas tinham resolvido acabar com suas disputas e se unir na campanha pela libertação da Palestina.
Imediatamente, Netanyahu pulou: os judeus jamais se sentariam à mesa com um governo que incluísse o Hamas. Pois o Hamas, além de ser um movimento terrorista, se recusava a reconhecer Israel.
E Avigdor Lieberman, o Ministro das Relações Exteriores, rugiu: ”Israel não os reconhecerá, não negociará com eles e não transferirá a eles um centavo sequer.” Um centavo daqueles 100 milhões pertencentes aos palestinos, cumpre esclarecer.
De fato, o Hamas foi um movimento terrorista. Mas deixou de ser há bastante tempo. Não se pode considerar exatamente terrorismo os mísseis domésticos que eles lançaram, rebatendo ataques de aviões israelenses.
Nem o governo de Israel tem muita autoridade para excluir terroristas da mesa de negociações. “Nem a moralidade judaica, nem a tradição judaica podem negar o uso do terror como meio de batalha”, dizia um texto do movimento judeu Lehi que, em 1947, durante as lutas pela formação do Estado de Israel praticava atentados terroristas contra os árabes e os ingleses, governantes da Palestina, sob mandato da ONU.
O Lehi (também chamado gang Stern) tem uma folha corrida de fazer inveja a qualquer movimento jihadista :
– assassinato do conde Folke Bernadotte, mediador da ONU na região e de Lord Moyne, embaixador especial inglês no Oriente Médio;
– destruição da aldeia árabe de Der Yassin (por sinal, excluída das ações bélicas por um pacto árabe-judaico), com o massacre de 120 pessoas, inclusive mulheres e crianças;
– envio de cartas-bombas a políticos ingleses.
Por sua vez, o Irgun Zvai Leumi foi responsável por 200 atentados contra árabes e ingleses, entre os quais o enforcamento de 2 sargentos. Foi também quem explodiu o hotel Rei David, onde estava instalada a administração inglesa, matando cerca de 200 pessoas, mulheres e crianças entre elas.
Em 1948, com a fundação do Estado de Israel, os militantes do Lehi e do Irgun integraram-se no exército do país. Entre seus chefes estavam Menachen Begin e Yiztwakh Samir, posteriormente, primeiros-ministros de Israel.
Quanto à outra objeção que se faz ao Hamas, não reconhecer o Estado de Israel, lembro que o contrário também acontece. Israel não reconhece a Palestina como estado independente. No decorrer das negociações, isso poderá acontecer. Como também o Hamas reconhecer Israel.
 Lembro de uma entrevista de Ismael Hanyia, um dos principais líderes do Hamas, a um jornal grego, na qual ele declarava: “Será que alguém acredita que nós poderíamos usar nossas armas para destruir um país que tem muitos  F-16s  e 200 armas nucleares?”.
E agora veja o que aconteceu.
Antes da proposta de Sarkosy, a única coisa que impedia o início das negociações era a exigência palestina de paralisação dos assentamentos.
Agora, os palestinos querem mais: paralisação dos assentamentos e devolução do dinheiro retido.
Por sua vez, os judeus exigem o rompimento da união entre Hamas e Fatah ou que o Hamas reconheça Israel e diga adeus às armas.
No começo, tínhamos um obstáculo ao início das negociações. Agora temos entre 3 e 4.
Passaram 2 meses do prazo de 12 que o “plano Sarkosy” previa para as partes acertarem seus ponteiros e aprovassem a criação da Palestina independente.
As negociações nem começaram e as esperanças (se que é que alguém as tinha), já se foram.
Ou será que Obama, logo num ano eleitoral, irá pressionar Netanyahu para aceitar uma paz justa?

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