Palestina: acordo possível, paz improvável.

Do jeito que as coisas vão, acho que as negociações entre israelenses e palestinos podem resultar num acordo.

Resta saber que tipo de acordo.

Tudo caminha para uma proposta americana, na qual as concessões solicitadas à Autoridade Palestina a fazem perigosamente precária.

Dizem os representantes palestinos que Israel subordina qualquer progresso nas negociações a exigências de segurança exageradas e despropositadass.

Na semana passada, Tzip Livni, ministra de Justiça de Israel, e chefe dos negociadores do seu governo, afirmou que os palestinos devem entender que só terão um Estado se Israel tiver segurança.

Isso aconteceria com seu exército controlando o vale do Jordão, a passagem pelas fronteiras do futuro estado com Israel e os seus espaços aéreo  e marítimo.

Razões estratégicas fundamentariam essas exigências.

Não querem que o Estado Palestino vire um centro de ataques terroristas e de lançamentos de mísseis contra Israel.

Tudo bem, controlar a passagem entre os dois Estados não seria problema. Mas, nada a ver com um bloqueio, como o que vem castigando Gaza há já 8 anos.

Seria aceitável uma patrulha israelense em frente ao litoral, desde que respeite as águas territoriais palestinas e não trate os pescadores como piratas.

Já o controle do espaço aéreo por Israel violaria a soberania do futuro Estado palestino. As explicações para justificar esta medida são um tanto vagas, para dizer pouco…

Não entendo  também os porquês da necessidade, dita estratégica, de forças militares israelenses instaladas no vale do Rio Jordão.

Afinal, o rio Jordão separa a Palestina da Jordânia, não de Israel.

Se radicais o atravessarem estarão em território palestino, muito longe da fronteira com Israel.

Como poderiam ameaçar a segurança israelense?

Resumindo: Telaviv sustenta que a segurança do seu país exige que o Estado palestino seja cercado por terra, mar e ar, com um verdadeiro anel de forças militares israelenses.

Para Netanyahu, ou algum governante de idéias similares, seria ótimo.

Num desentendimento entre os dois países, ele poderia apertar esse anel, causando um bloqueio semelhante ao que transformou Gaza no maior campo de concentração aberto do mundo.

Não é uma perspectiva auspiciosa para um país que começa a existir.

Ainda mais porque as garantia de segurança que Israel exige estão longe de serem necessárias.

Lembro que, com a independência da Palestina e a retirada das tropas de ocupação desaparecem razões para a prática de atentados anti-Israel.

Mesmo que ainda haja extremistas islâmicos que queiram seguir por aí, tudo indica que serão contidos.

Nos últimos anos, no território da Margem Oeste, cuja segurança cabe à Autoridade Palestina, não foi lançado um único foguete ou atentado contra  áreas israelenses.

O próprio Hamas, inimigo jurado do sionismo, tem atualmente uma postura pacífica.

Em reuniões com líderes de assentamentos, o general comandante das tropas de ocupação de Israel declarou que as forças de segurança do Hamas tem atuado eficazmente para impedir ataques a objetivos israelenses.

Mesmo assim, Israel insiste e John Kerry parece estar de acordo, , talvez pressionado pelos poderosos lobbies pró-Israel nas duas casas legislativas dos EUA. Conforme a imprensa israelense, ele propôs desfazer o nó da segurança, que amarra a continuação das negociações de paz: sugeriu que o vale do Jordão fosse controlado por uma força internacional e também por forças israelenses e palestinas.

Ninguém topou.

Os israelenses não aceitam soldados palestinos no Jordão.

Os palestinos não aceitam o controle militar estrangeiro da parte do vale do Jordão que está no seu território.

Kerry não desanimou.

Modificou sua proposta. Diz-se que agora fala em ocupação do vale do Jordão por Israel, por prazo limitado; de 10 a 15 anos.

Pode ser verdade.

Ninguém duvida que os EUA  vão pressionar por decisões de segurança que agradem a Israel, mas não necessariamente aos palestinos.

Muitas vezes Obama, Kerry e vários generais proclamaram que a segurança de Israel vem em primeiro lugar. Nada seria demais para garantir este objetivo.

Tudo bem, mas ao preço do sacrifício da soberania da Palestina ?

Abbas, o presidente da Autoridade Palestina, pode muito bem se conformar.

Não seria a primeira vez que ele faria o jogo dos EUA e de Israel.

Quando o Comitê de Direitos Humanos queria enviar ao Conselho de Segurança da ONU o relatório da comissão que condenava Israel por crimes de guerra no ataque a Gaza, Abbas retirou seu apoio.

Quando Obama pressionou para ele desistir de exigir o congelamento dos assentamentos como pré-condição do início das negociações de paz com Israel, Abbas cedeu.

E, agora, quando cresce o movimento pelo boicote dos produtos de Israel, Abbas disse que a Autoridade Palestina é contra.

Boicote, só dos assentamentos. Não de quem os criou e estimula.

E o presidente da Autoridade Palestina justificou-se assim :”nós mantemos mútuo reconhecimento com Israel”.

Estava de brincadeira porque Israel não só não reconhece o Estado da Palestina, como também não  aceita sua entrada em organismos internacionais.

Com essa folha corrida, digna do marechal Petain, Mahmoud Abbas pode muito bem concordar com tropas israelenses no vale do Jordão, espaços aéreos e marítimos sob controle de Israel, Palestina desmilitarizada e outros propostas do agrado de Netanyahu.

Grande parte do povo palestino, até mesmo muitos líderes e ativistas do Fatah, ao qual Abbas pertence, iriam protestar.

Claro, o Hamas em Gaza não aceitaria um acordo assim.

Já a al-Qaeda e outras organizações extremistas até abririam champagne (não fosse proibido na sua religião): estaria provado que numa boa não se consegue nada, só restando o caminho da força.

O certo é que A Casa Branca quer porque quer um acordo entre Israel e palestinos.

É importante para reverter os maus resultados nas pesquisas do governo Obama e conseguir vencer as eleições parlamentares de 2014.

Como Netanyahu está furioso com a ação americana na questão iraniana, não convém chuçar a onça com vara curta.

Ela tem muitas garras no Senado e na Casa dos Representantes.

Considerando tudo isso, acredito que as negociações entre os israelenses de Netanyahu e os palestinos de Abbas podem até dar certo.

Mas, provavelmente, sem chance para a paz.

 

 

 

 

 

1 pensou em “Palestina: acordo possível, paz improvável.

  1. esta na cara que nem EUA nem Israel quer paz para a região, eles vao massacrar os palestino, tomar seus territórios a força, dizimar o povo, e nada de paz vai ser conseguido pois não é esse o objetivo EUA/ISRAEL, Quando os EUA tomou a frente das negociações vocês já podiam ter certeza eles so queriam fazer o que já fizeram antes, deixa em banho maria todo mundo esquece e derrepente surge um novo conflito e Israel sai dizendo que esta se defendendo. Os EUA sai ganhando porque armas são vendidas as Israel, e eles lucram com a morte de inocentes, e ainda mantem o governo Israelense do seu lado, O dia que Israel não tiver mais serventia para eles então eles tentam destruí-los ou deixa na paz como tem feito com a China que eles não se atrevem a meter o bico pois tem poder de fogo também.

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