Onde está o excepcionalismo americano?

O chamado “excepcionalismo americano” é uma idéia muito comum nos EUA, para ela o país é muito especial, ungido por Deus para liderar o mundo.

No seu livro No apology: The Case for American Greatness (‘‘Sem Pedir Desculpas: o Caso da Grandeza Americana”), Mitt Romney escreve: “Eu sou um daqueles que acredita que a América está destinada a permanecer, como tem sido desde o nascimento da República, a mais brilhante esperança do mundo.”

Sérios reparos são feitos a essa crença por Howard Steven Friedman, estatístico da ONU e professor na Escola de Assuntos Públicos e Internacionais da Universidade de Colúmbia, no livro The Measure of a Nation: How to Regain America´s Competitive Edge and Boost Our Global Standing (“A Dimensão de Uma Nação: Como Recuperar a Vantagem Competitiva e Impulsionar Nossa Importância Global”).

Ele comparou os índices dos EUA nos rankings mundiais de vários itens fundamentais relacionados a saúde, democracia, educação e igualdade de rendas com os índices de 13 nações; Austrália, Bélgica, Canadá, França, Alemanha, Grécia, Itália, Japão, Portugal, Holanda, Coréia do Sul, Espanha e Reino Unido.

Todas elas são membros da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e tem PIB per capita acima de 20 mil dólares.

Em termos de EXPECTATIVA DE VIDA, os EUA estavam em 7º lugar em 1987. Hoje, vergonhosamente, não estão nem entre os 20 primeiros.

MORTALIDADE INFANTIL, que é um bom índice para aferir a qualidade da Saúde de um país, os EUA vinham mal em 1960: 12º lugar. Depois, foram caindo,m caindo…e em 2003 já ocupavam um mísero 38º.

MORTES PREVENÍVEIS, aquelas que podem ser evitadas por uma prevenção médica eficaz, é outro índice no qual os EUA tropeçam. No período 2002-2003, Friedman apontou 109,7 mortes por 100 mil pessoas. Mais de 50% pior do que na França (64,8 mortes p/100 mil ), Japão (71,2 p/100 mil) e Austrália (71,3  p/100 mil ).

Isso apesar dos EUA gastarem em saúde, em média, 2 vezes mais e até 4 vezes mais do que qualquer das 13 nações citadas acima. O que depõe, e muito, contra a qualidade da administração americana.

Apesar do grande poderio da indústria química dos EUA, os preços dos medicamentos lá são, pelo menos, 50% mais altos do que no exterior.

Para fechar esse item, Friedman lembra que, em comparação com as 13 nações, os EUA são o único país que tem uma grande população sem seguro saúde.

E agora um dado trágico : a média de assassinatos no território americano é dez vezes maior do que no Japão e o triplo da França. Entre os 13, o país que apresenta uma população carcerária mais próxima à dos EUA tem 4 vezes menos cidadãos presos.

Talvez uma das causas dessa abundância de assassinatos e criminosos seja a boa colocação americana no quesito “posse de armas.” Os sobrinhos de Tio Sam tem, em média, 4 vezes mais armas do que franceses e canadenses.

O índice de adolescentes americanos formados no colégio só é superado pelos coreanos do sul e canadenses. Parece louvável. Mas o nível de qualidade do seu aprendizado fica abaixo da média dos 13 países quando testado em leituras, matemática e ciências.

Como no Brasil, os professores americanos são muito mal pagos.

Em 1970 não era assim. Seu salário médio equivalia a 175% do PIB per capita do país.

Mas em 2008, mal chegava a igualar o PIB per capita. Por isso mesmo, 50% dos novos professores dos EUA mudam de profissão num prazo de 5 anos.

Já na Coréia do Sul, um professor primário experiente, ganha cerca do dobro do PIB nacional  per capita.

Outro dado interessante: a América gasta uma parte muito maior do seu orçamento de Educação na área de administração escolar do que as 13 nações com quem Friedman a compara.

As despesas com Educação nos EUA estão crescendo rapidamente.

Paradoxalmente, os estudantes com poucos recursos tem menos acesso á ajuda financeira. Há 30 anos, o Pell Grants (financiamento federal a estudantes) cobria 75% das despesas de um curso universitário; hoje cobre apenas um terço.

Em 2007 e 2008, a dívida média de um empréstimo para pagamento de um curso de graduação era de 23 mil dólares, o dobro do corrente em 1995.

Quanto às DESIGUALDADES DE RENDA, os 1% americanos mais ricos detém 7,7% de toda a renda nacional, um índice muito mais alto do que qualquer um dos 13 países com que os EUA são comparados no livro de Frioedman.

Enquanto isso, o salário mínimo americano corresponde a 33% do PIB per capita. É menor do que os salários-mínimos de todos os outros 13 países.

O índice GINI (para medir as desigualdades sociais) dos EUA é o 38º do mundo, pior do que os das 13 nações.

Friedman completa suas comparações, atribuindo finalmente aos EUA, um primeiro lugar. Em matéria de produção de bilionários tem o dobro de bilionários por milhão de habitantes do Canadá e da Alemanha, seus concorrentes mais próximos.

Friedman foi injusto: esqueceu de mencionar mais uma primazia mundial americana.

Sua indústria de armas é a mais poderosa do mundo, com um orçamento anual que equivale a de todos os outros países juntos.

Nisso, pelo menos, os EUA são excepcionais.

 

 

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