O papa pegou pesado.

O papa fez um pronunciamento no Parlamento Europeu,  que deve ter mexido com a consciência dos homens públicos do Velho Continente.

A nossa mídia publicou uma versão edulcorada, destacando a idéia de se negociar com o ISIS, tocada de passagem na alocução papal, e ignorando as palavras mais duras, que criticaram posturas políticas e econômicas européias básicas.

O tema do papa Francisco foi a centralidade da dignidade humana.

Algumas publicações internacionais reproduziram com mais fidelidade as idéias expostas.

O inglês The Guardian, de 25 de outubro, afirmou que o papa Francisco, de um modo geral, “repreendeu a Europa pelo tratamento aos imigrantes, a multidão de jovens desempregados, o tratamento aos velhos e a incapacidade de ver estes problemas com clareza.”

Ele foi duro ao focar as soluções econômicas impostas aos países que mais sofrem os efeitos da crise, declarando a Europa refém de um modelo econômico que solapa a democracia, enquanto a centralidade dos direitos humanos se torna confusa e suplantada pelo narcisismo individualista, publicou o Guardian.

E o papa completou: “unidade não significa uniformidade”, ao mesmo tempo que revelava “descrédito diante de sistemas uniformes do poder econômico a serviço de impérios ocultos”, pois “as grandes idéias que uma vez inspiraram a Europa parecem ter perdido sua atração, apenas para serem substituídas pelas tecnicalidades das instituições.”

O papa Francisco pediu ainda que os países europeus façam leis para proteger tanto seus cidadãos quanto os direitos dos imigrantes. Em vez disso, disse que a Europa orienta-se por “políticas de interesses egoístas”, que só alimentam conflitos.

No jornal Russia Today, de 25 de novembro, foram citadas mais palavras do pontífice sobre o tema da imigração:  “Barcos chegam diariamente nas praias da Europa, cheios de homens e mulheres que precisam de acolhimento e assistência. A falta de apoio por parte da União Européia cria o risco de encorajar soluções particularistas ao problema, soluções que não levam em conta a dignidade humana dos imigrantes e, portanto, favorecem o trabalho escravo e a continuidade das tensões sociais.”

O Russia Today reproduziu também duras considerações papais, criticando violações correntes da dignidade da pessoa humana: “ Homens e mulheres arriscam-se a serem reduzidos a meras engrenagens em uma máquina que os trata como itens de consumo a serem explorados. E o resultado é que – como é tão tragicamente aparente- sempre que uma vida humana não se torna mais útil, ela é descartada com poucos escrúpulos como no caso dos doentes terminais, dos velhos que são abandonados e não cuidados e das crianças que são mortas no útero.”

Francisco propõe, conforme o Russia Today, que entre as principais prioridades da Europa estejam “encontrar novos modos de juntar a flexibilidade do mercado às necessidades por estabilidade e segurança dos trabalhadores, favorecendo um contexto social adequado, gerado não para a exploração das pessoas, mas para lhes garantir, precisamente através do trabalho, sua possibilidade de criar uma família e educar seus filhos.”

O recado do papa Francisco foi, ao mesmo tempo, uma reflexão crítica e um chamamento à ação dos líderes europeus.

Talvez eles esperassem aplausos e encorajamentos, quando convidaram o pontífice a fazer um discurso.

Receberam muito mais do que isso pois a verdade pode até doer, mas só ela produz bons frutos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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