O buraco é mais embaixo.

O mundo sem Bin Laden não ficou tão melhor assim.

É o que se deduz do relatório anual sobre contra terrorismo do Departamento de Estado dos EUA.

Conforme Daniel Benjamin, seu coordenador, embora a eliminação do terrorista-mor e dos seus operadores chave  tenha enfraqueceu muito a Al Qaeda, “assistimos a um crescimento dos grupos filiados pelo mundo.”

Primeiro é preciso lembrar que Bin Laden e seu cercle intime não dirigiam a organização como uma matriz, com filiais nas várias regiões.

Todo mundo sabe que a Al Qaeda era apenas uma griffe.

Em cada país havia grupos independentes, ligados ideológica e moralmente a Bin Laden, mas só.

A morte do chefão não serviu para muito mais do que elevar, embora temporariamente, os índices de popularidade de Obama nos EUA. O que, depois das últimas de Mitt Romney,  admito que não foi pouca coisa.

Para dar mais importância à execução de Bin Laden, o homem do Departamento de Estado salienta que a elite terrorista eliminada pelo governo americano era a parte mais eficiente da organização, com capacidade para levar a cabo “ataques catastróficos numa escala que nenhuma das filiais conseguiria.”

Até que elas estão conseguindo perturbar um bocado como o próprio Daniel Benjamin declara.

Veja só: tomaram parte do sul do Yemen, onde estão dando o maior trabalho ao exército do governo e seus aliados americanos; derrotaram os tuaregs, conquistando o norte do Mali; infiltraram-se nas milícias que ainda atuam na Líbia; voltaram a praticar grandes atentados no Iraque; estão atuando na revolução síria.

No Afeganistão, a Al Qaeda virou fumaça: são menos de 50 caras, é  o próprio Secretário da Defesa dos EUA que diz. Mas já estavam assim mesmo quando Bin Laden ainda gozava de boa saúde.

No total, as afiliadas promoveram 10 mil atentados em 2011, em 70 países, matando 12.500 pessoas. 15 a 20 vezes menos vítimas do que na Guerra do Iraque…

O homem do Departamento de Estado  considera 2011 um  ano “extremamente significativo em contra terrorismo”, não só pela morte de Bin Laden, mas também por causa da Primavera Árabe , que forneceu uma motivação melhor para a ação dos jovens árabes do que “a incendiária visão do mundo da Al-Qaeda.”

Acho que nisso ele está certo.

Somente sua análise esqueceu de  outra forte fonte de estímulo ao terrorismo: a política americana no Oriente Médio.

Enquanto o pensamento oficial do establishment americano sustenta que é a inveja ou o ódio ao “american way of living” que move jovens islamitas fanáticos a se alistarem nas fileiras do terror, há evidências diferentes.

Recente estudo dos cientistas políticos americanos Robert A. Pappe  e James K. Feldman, focando 2.000 ataques suicidas, durante 30 anos, concluiu que foram os ataques militares e ocupações americanas as causas do terrorismo.

Diz seu relatório: ”O que mais de 95% de todos os ataques suicidas desde 1980 tem em comum não é a religião,  mas um objetivo estratégico: obrigar um país democrático a retirar suas forças de combate dos territórios que os terroristas consideram seus lares ou pelos quais tem grande estima.”

Eles observaram que  entre 1980 e 2003, quase não houve ações terroristas, raramente atingindo cidadãos americanos, apenas 15%.

De 2004 a 2008, quando se intensificaram os ataques e a ocupação militar do Iraque, esses números cresceram de maneira imensa. Foram lançados 1.833 atentados terroristas, 92% contra alvos americanos.

A hostilidade contra os EUA no Oriente Médio é o caldo de cultura onde viceja e se expande a adesão de jovens muçulmanos  ao terrorismo.

A origem e a dimensão dessa hostilidade aparece  nas pesquisas.

No Paquistão, onde o povo está revoltado com os ataques dos drones americanos que, além de talibãs, já mataram entre 1.000 e 2.000 civis inocentes (é impossível determinar com segurança), os EUA é apontado por 89% do público como a maior ameaça ao país. No mesmo quesito, apenas  11% acusaram o Talibã.

E isso apesar da Casa Branca doar anualmente cerca de 3 bilhões de dólares ao exército e ao governo do país.

No Egito, onde os últimos presidentes americanos apoiaram o ditador Mubarak, 71% desconfiam tanto da aparente boa vontade do governo Obama que rejeitam a ajuda econômica americana, de que o país muito carece.

Pesquisa da Zogby International em diversos países islâmicos mostrou resultados bastante elucidativos.

Posições favoráveis aos EUA: no Egito – 5%; no Marrocos 12%; no Líbano- 23%; na Jordânia-10%; nos Emirados Árabes Unidos-12%.

EUA contribuem à paz e estabilidade do Oriente Médio? Responderam “sim”: Egito-10%; Marrocos-11%;  Líbano-16%; Jordânia-5%; Emirados- 8%

Principais obstáculos à paz no Oriente Médio apontados em cada país:

No Egito (36%) e na  Jordânia(49%) é a Palestina sob ocupação;

No Líbano (50%) e nos Emirados Árabes (45%) é a interferência dos EUA.

Note-se que nesse quesito, o Irã obteve entre 2 e 13%, nesses países.

Pesquisa da Pew International perguntou em 6 países do Oriente Médio, qual o país que mais favorecia a democracia na região.

A Turquia ganhou com 64% das respostas. Os EUA obtiveram apenas 20%. Só ganharam der Israel que ficou com 10%.

Este sentimento generalizado anti-americano deveria dar o que pensar aos responsáveis pela política externa americana.

A menos que a população muçulmana fosse formada em massa por fanáticos religiosos, babando de ódio em relação aos EUA e morrendo de inveja de seus carros e geladeiras, alguma coisa não deveria estar batendo bem no que Tio Sam vem fazendo no Oriente Médio.

Talvez o terrorismo fosse apenas o sintoma de uma doença da qual os americanos são os culpados.

Algumas vozes já, se bem que timidamente, levantaram algumas questões nesse sentido.

Mas são isoladas.

A maioria dos homens que dão as cartas em Washington preferem pensar em termos eleitorais.

Não convém desagradar Israel para não perder o voto, o dinheiro e a influência dos judeus americanos. Por isso, que se danem os palestinos.

Ser duro no Afeganistão e no Paquistão, ainda que às custas de muitas mortes inocentes, pega bem no público – dá voto.

Encher o Irã de sanções entusiasma tanto Israel quanto o próprio povo americano (80%,segundo pesquisas, temem o Irã nuclear), ainda que 17 agências de inteligência americanas garantam que não existe nem sombra de programa nuclear militar iraniano.

Por isso, vamos esquecer as causas e combater os sintomas: pau no terrorismo e nos suspeitos.

Dentro desse clima, o relatório de contra terrorismo do Departamento de Estado, versão 2011, não deixa de insistir que  “O Irã continua um ativo patrocinador do terror em 2011.”

Tem o caradurismo  de lembrar o suposto plano do vendedor de carros usados, contratado pelo Irã para matar o embaixador da Arábia Saudita nos EUA, que nenhum analista sério considerou sério.

Para não ficar só nisso, o relatório acusa, mais uma vez, o Irã de financiar e armar o Hamas e o Hisbolá, taxados de grupos terroristas.

Na verdade, o Hamas há muitos anos deixou de lado os lances terroristas e hoje governa a Faixa de Gaza, tendo sido eleito democraticamente.

O Hisbolá, por sua vez, também não quer mais nada com o terror. Hoje é um partido político, que integra o ministério do Líbano. É também uma milícia armada que foi decisiva na última invasão israelense do país.

Embora os EUA mantenham os dois na sua lista de movimento terroristas, a União Européia exclui o Hisbolá.

Tanto os europeus quanto os americanos ainda tem o Hamas na conta de terrorista.

Os EUA, para não desagradar Israel. A Europa, para não desagradar os EUA.

Talvez seja hora destes 2 grandes pólos do Ocidente, para variar, pensarem  em agradar os povos islâmicos.

Pressionarem Israel para aceitar a solução dos 2 estados (Rabin já havia aceito); tratarem o Irã com justiça e boa vontade; pararem de bombardear camponeses no Paquistão; fazerem logo a paz no Afeganistão; pararem de defender incondicionalmente as ditaduras do Bahrein e da Arábia Saudita.

Seria mais eficaz tratar a doença do antiamericanismo, do que seu sintoma, o terrorismo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1 pensou em “O buraco é mais embaixo.

  1. Obrigado, mais uma vez, pelo excelente artigo, com o qual concordo integralmente. O grave é que não há o menor indício (diferentemente da primeira eleição de Obama, em que havia pelo menos a remota possibilidade da dúvida…) de que os EUA venham a mudar a orientação de sua política externa. O binômio “esquecer as causas e combater os sintomas” deve se manter por um longo período já que não há indícios mais substantivos de declínio da legitimidade política nem da sustentabilidade econômica dessa orientação equivocada, para não dizer, monstruosa.

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