O 10º ANIVERSÁRIO DE UMA GUERRA PERDIDA

Neste mês, a Guerra do Afeganistão completa 10 anos. Mas, ninguém está de parabéns
Ela não acabou e, provavelmente, ainda terá muitos anos de vida.

Apesar disto, já se pode apontar quem perdeu.
Em primeiro lugar, os talibãs. O exército americano, reforçado por contingentes de outros países, expulsou-os do governo. Eles tiveram de refugiar-se no interior, especialmente no Sul do país, onde continuam combatendo, sem chances de recuperar o poder pela força.
A Al Qaeda também foi derrotada. Grande número dos seus militantes foram mortos, aprisionados ou fugiram para o Paquistão, Iemen, Somália e outros países. No Afeganistão, só ficaram entre 25 e 50, segundo afirmou no ano passado o então chefe da CIA, Leon Panetta.
Teriam sido os americanos os vencedores? Longe disso.
Eles invadiram o Afeganistão para destruir as bases da Al Qaeda, expulsar ou matar seus militantes, substituir o regime retrógado e bárbaro dos talibãs por uma democracia estável fiel, estrategicamente localizada junto a algumas das maiores regiões petrolíferas do mundo..
Depois de 10 anos de lutas, que envolveram centenas de milhares de soldados, com baixas de 1.600 mortos, 15.000 gravemente feridos a um custo de,pelo menos, 450 bilhões de dólares, os principais objetivos estratégicos não foram atingidos.
O Afeganistão tornou-se uma república com um governo corrupto, que chegou ao poder através de eleições viciadas e não tem a confiança do povo. Altos membros da elite dirigente e os warlords (“senhores da guerra”), grandes proprietários rurais, produzem   93% de toda heroína do mundo, segundo a ONU.
A situação sócio-econômica do país que já era frágil, ficou pior com a longa guerra. Um terço dos afegãos vive com cerca de 1 dolar por dia e outro terço ganha ainda menos. 50 mulheres morrem por dia ao dar a luz.A expectativa de vida feminina é de apenas 43 anos. Neste ano, a mortalidade infantil será a segunda pior no mundo.
Enquanto isso, o ultimo relatório das forças da OTAN dizia que a guerra decrescia de intensidade e o presidente Obama anunciava que o fim estava próximo. Porém, a ONU mostrava uma realidade diferente.Em relação ao ano passado, a violência aumentou em 39%.
Até fins de setembro, mais de 450 soldados americanos e aliados foram mortos, assim como mais de 1.500 civis, o dobro das vítimas de 4 anos atrás. Desde o início da invasão, foram mortos 12.500 civis. E nos primeiros 6 meses do ano, os bombardeiros da OTAN mataram mais civis do que no ano anterior.
Como efeito colateral da guerra, os EUA enviam aviões sem piloto para atacar talibãs afegãos refugiados no Paquistão, tendo matado 400 civis neste ano, totalizando pelo menos 2.300 desde 2004.
Esta matança torna os afegãos nada amigáveis em relação às tropas da ONU, comprometendo o objetivo de conquistar os “hearts and minds” da população. Como reflexo, pelo menos 1 entre 7 soldados afegãos deram adeus às armas nos primeiros 6 meses deste ano. Foram cerca de 24 mil soldados, mais do dobro dos que seguiram o mesmo caminho no ano passado, segundo estatísticas da OTAN. Somente em junho, 5 mil desertaram, quase 3% do efetivo total  de 170 mil homens do exército do Afeganistão.
Segundo correspondência secreta revelada pelo Wiki Leaks, há, ainda cumplicidade entre os serviços de inteligência militar paquistanês e os talibãs. As conexões entre as lideranças dos dois lados, estabelecidas durante a guerra civil contra o exército soviético, continuam intactas e atuantes. Fato que explicaria a facilidade com que militantes entraram em base da OTAN e na embaixada dos EUA para praticarem recentes atentados.
Da leitura dos informes do Wiki Leaks verifica-se que os talibãs estão potencializando seu arsenal bélico (agora tem até mísseis terra-e-ar); que cada aumento das forças americanas causa o recrutamento de novos militantes pela insurgência. Ou seja: quanto mais forte fica o exército dos EUA, mais forte também a guerrilha talibã.
Assim, de acordo com as revelações do Wiki Leaks, apesar das vitórias iniciais dos americanos, os talibãs continuam firmes, promovendo ataques em todo o país e controlando regiões inteiras, onde aplicam a Sharia (lei islâmica), fazendo justiça.
O Presidente Obama anunciou a retirada de 30 mil homens até o fim do ano e de todo o exército, até 2014, por que é necessário. Os EUA, diante da crise que estão vivendo, não tem mais condições de continuar a guerra a um custo de 113 bilhões de dólares sòmente neste ano, sem contar o que a CIA gasta para manter 80 mil mercenários (custo não revelado). Lembre-se ainda que a maioria do povo americano, no início favorável à guerra, hoje a rejeita ( 62% em pesquisa recente da CNN).
O cumprimento da promessa de Obama é muito difícil de se realizar. Os chefões do Pentágono duvidam. O general John Allen contestou o prazo de 2014, declarando à CBS:”Na verdade vamos permanecer por um longo tempo.”
O próprio Obama parece não acreditar na sua promessa. Os EUA estão construindo em Kabul sua maior embaixada em todo o mundo. Será uma verdadeira fortaleza ao preço de 800 milhões de dólares, com 1.000 funcionários, protegidos por um pequeno exército de mercenários contratados.
Isso indica claras intenções de permanecer. Talvez aplicando a mesma ficção projetada no Iraque: retirar as forças combatentes, deixando “apenas” uns 10 ou 12 mil soldados para treinar o exército afegão. E manter o Afeganistão na linha.
Isso, é claro, se os talibãs não atrapalharem.

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