Guerra e paz no partido republicano

Não é por coincidência que, nos EUA, os falcões civis e militares costumam aninhar-se no Partido Republicano. Para o Great Old Party, a guerra está longe de ser o último recurso para resolver questões envolvendo a hegemonia americana. Muito pelo contrário.

Esta bélica posição parece ter sido bem vista pela opinião pública do país. Tanto é verdade que o principal ataque republicano a seus rivais do Partido Democrata é a suposta fraqueza dos adversários diante dos inimigos externos. Prefeririam empregar palavras quando canhões seriam os argumentos corretos.
Como era esperado, os pré-candidatos à presidência do Partido Republicano esmeram-se em atacar Barack Obama nesse quesito. As críticas recaem sobre a condução das guerras do Afeganistão e do Iraque, destacando-se ainda a incapacidade do governo em armar convenientemente a América para a realização dos seus “altos destinos”.
Apesar destas críticas, diversas propostas dos principais pré-candidatos, Rick Perry e Mitt Romney, repetem o que já é política de Obama.
Rick Perry, que está em primeiro lugar nas pesquisas, fala em atacar o inimigo onde estiver, antes que ele nos “ataque em casa.” Coisa que Obama está cansado de fazer. Nesta semana mesmo, mísseis disparados por um avião sem piloto americano mataram um líder da Al Qaeda, no longínquo Iemen. Por sinal, um cidadão condenado à morte, pelo próprio presidente.
Mas Perry tem algumas idéias novas tais como entregar as decisões sobre a guerra e a paz no Iraque e no Afeganistão aos próprios generais, que entenderiam mais desses assuntos…
Ele diz também coisas sérias, “sérias” no sentido de “graves” por partirem de alguém que pode vir a ser o próximo presidente dos EUA.
“Estamos agora confrontando o crescimento de novos poderes econômicos e militares na China e na Índia, assim como na Rússia, que é incrivelmente agressiva e ameaçadora para com seus vizinhos e antigos satélites, que lutam para manter a sua relativamente nova independência. Não há razões para crer que um conflito armado com algum poder esteja iminente, mas o mundo está rapidamente mudando e os Estados Unidos precisam estar preparados para as conseqüências das mudanças nas balanças do poder.”
Em outras palavras, os EUA tem de se armar ainda mais para enfrentar possíveis guerras (embora, talvez, não iminentes) com a China, a Rússia e a Índia).
De sua parte, Perry já está se preparando. Reuniu para assessorá-lo algumas das flores dos neo conservadorismo, integrantes do chamado war party que cercava George Bush, inclusive Douglas Feith, um dos autores da farsa que levou à guerra do Iraque.  
Mitt Romney, o número 2 nas pesquisas, vai além do seu contendor. Ele acha que Obama gasta pouco com as Forças Armadas, apesar de ser igual ao total do resto do mundo. Com ele, haverá modernização das forças aéreas e navais, dos sistemas de ataque e dos equipamentos, além de um aumento de 100 mil homens nas forças armadas. E mais: promete fortalecer o sistema de defesa por mísseis, reformar e modernizar o arsenal nuclear. Considerando que as Forças Armadas dos EUA já dispõem dos mais avançados e letais armamentos do mundo, além de estarem desenvolvendo armas de um poder destruidor inimaginável, fica a impressão de que Romney pretende a hegemonia, não do mundo, mas do Universo. John Wayne pode se aposentar. Flash Gordon será convocado.
Os dois pré-candidatos aplaudem a manutenção de Guantanamo. Novamente, Romney vai mais adiante: ele é a favor, não de uma, mas de duas Guantanamos, para “evitar o acesso dos terroristas a advogados.” Solicitada sua opinião sobre o “waterboarding”, ele se recusou a responder. Para mim, foi uma resposta inequívoca.
Perry e Romney mantinham-se firmes contra cortes nas despesas com a Defesa sem perceber que estava acontecendo uma reviravolta na opinião pública americana nessa questão.
 A verdade é que depois de 10 anos de guerras que custaram trilhões de dólares e dezenas de milhares de vidas americanas, sem trazer benefícios claros para o país, o povo cansou-se de aventuras militares.
A pesquisa anual do Conselho de Chicago de Relações Exteriores revelou que a maioria da população preferia que os EUA adotasse menos ações militares no exterior e dividisse a responsabilidade da liderança mundial mais igualitariamente com seus aliados. Menos de 1 em cada 10 pesquisados eram favoráveis a que os EUA continuassem a serem “os líderes proeminentes do mundo.” Para 71% deveriam trabalhar junto com outras nações para resolver os problemas mundiais.
Em fins de maio, uma pesquisa da Pew mostrava que 60% dos americanos atribuíam o aumento das dívidas públicas às guerras do Iraque e do Afeganistão. E 65% defendiam a redução dos orçamentos militares.
Apesar destas mudanças do humor americano, os dois pré-candidatos americanos seguiram imperturbáveis, defendendo a valorização das armas.
Mas o Tea Party pode fazê-los sair do sério. O pessoal desta sigla tem como principal bandeira a redução do déficit público, através do corte das despesas do governo. E, apesar da maioria dos seus líderes adorar a idéia dos EUA líderes globais, impondo sua vontade a civilizações atrasadas e esmagando terroristas diabólicos, isso implica em despesas militares. As quais, em benefício do desejado equilíbrio orçamentário, precisam ser cortadas.
Como se sabe, o acordo que permitiu o aumento do limite de endividamento público, previa cortes de 1,5 trilhão de dólares nas despesas do governo, inclusive com orçamentos militares.
Coerentes com suas mais caras concepções, algumas das principais lideranças do Tea Party afirmaram que uma boa porcentagem da economia que o governo deve fazer terá de sair dos orçamentos militares. E para mostrar que não estava brincando, avisaram que vão fiscalizar os congressistas republicanos. Quem votar contra cortes na Defesa, vai pra lista negra. “Nenhum membro do Congresso está seguro”, disse Amy Kremer, dirigente do Tea Party Express, “Vamos ficar de olho em todos”.
E como ficarão Mitt Romney e Rick Perry?
Por enquanto, Romney fingiu que não era com ele. Afinal, nem todos os grandes do Tea Party concordam com a maioria do grupo, continuam apoiando o “partido da guerra”.
Mais esperto, Rick Perry, num debate em 12 de setembro, ensaiou uma abertura pacifista.
“Penso se…é melhor gastar com 100 mil soldados, que serão alvos no Afeganistão? Não acho que seja (melhor) nesse  momento particular.”
Não é o caso de julgar que Perry, sensível à mudança da maré da opinião pública e aos votos do Tea Party, tenha se transformado numa pomba.
Ninguém é assessorado impunemente por gente como Douglas Feith e seu bando de neocons.

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