No Laos, a Guerra do Vietnam não acabou.

Em 1975, há 41 anos, portanto, foi assinado o tratado de paz que pôs fim à Guerra do Vietnam.

Mas, no vizinho Laos, as bombas lançadas pelos aviões americanos na guerra continuam fazendo novas vítimas.

Em 1 de setembro, Barack Obama, em visita ao país, assumiu responsabilidade por estas enormes perdas humanas.

“Considerando a nossa história aqui, “ele declarou, “acredito que os EUA têm obrigação moral de ajudar o Laos a curar suas feridas. ”

Elas ainda não se cicatrizaram, causadas pelos bombardeios americanos devastadores nos anos 60 e 70.

O objetivo foi destruir a trilha Ho-Chi-Minh, uma rede de atalhos, estradas e caminhos fluviais, por onde passavam caminhões, bicicletas e soldados a pé, levando do Vietnam do Norte para o Sul, reforços, alimentos, armas e medicamentos para os guerrilheiros do Vietcong e os soldados do Vietnam do Norte, em luta contra os exércitos sul vietnamitas e dos EUA.

A rota da trilha Ho-Chi-Minh (nome do presidente do Vietnam do Norte) percorria 16 mil quilômetros de florestas, pântanos e montanhas no Laos, um Estado independente.

A região onde foi construída a trilha estava sob controle de guerrilheiros comunistas laocianos, aliados dos correligionários vietnamitas.

O Laos foi escolhido para fugir a ataques dos inimigos pois era oficialmente neutro, conforme o acordo de Genebra, assinado por 14 países.

Mas o governo dos EUA não levou isso em conta.

Para destruir a trilha Ho-Chi-Minh, a força aérea do bom Tio Sam despejou nela dois milhões de toneladas de bombas.

Foi o maior bombardeio aéreo da história, tendo sido lançadas mais bombas do que na Alemanha e no Japão juntos durante toda a 2ª Guerra Mundial.

Calcula-se que caíram no Laos no período 1965-1973, cerca de 8 bombas por minuto, em média.

Nesse tsunami de fogo havia mais de 270 milhões de bombas fragmentária.

Por seu efeito verdadeiramente diabólico, essas bombas são proibidas por convenção internacional, assinada por 117 países, sendo que os EUA não são um deles.

Ao explodirem no ar, elas se dividem em 600 pequenas bombas – as chamadas bomblets.

Muitas se enterram no solo e viram minas terrestres. Que só vem a explodir mais tarde, às vezes até anos depois, quando, por exemplo, alguém pisa nelas inadvertidamente.

Calcula-se que 30% das bombas fragmentárias lançadas no Laos, ou cerca de 80 milhões delas, não explodiram.

40 anos depois, menos de 1% delas foram desativadas pelo governo laociano.

Mais da metade das vítimas confirmadas desse tipo de bombas, em todo o mundo, eram moradores do Laos.

E 40% eram crianças, que, por engano, brincaram com elas ou as pegaram, pensando serem pedaços de metais que poderiam ser vendidos.

Cerca de 20 mil laocianos já morreram depois do fim da guerra até hoje vitimados por bombas fragmentárias.

Atualmente no Laos, existem ainda mais de 15 mil pessoas aleijadas por esse engenho destruidor, as quais precisarão de assistência médica por toda a sua vida (Channel News Asia).

O problema é de tais dimensões que existem centros que constroem membros protéticos em boa parte do país.

Mas não é só.

80% da população do Laos dedica-se à agricultura. Algumas terras são consideradas como excessivamente perigosas para serem lavradas.

Segundo o governo laociano, existem 90 mil km2 de terras contendo essas bomblets que ainda não explodiram.

10 das 18 províncias do país foram “severamente contaminadas” pelas bombas fragmentárias que um dia explodirão. Apenas 2% das suas terras foram limpas.

Mas o estado-maior americano não se limitou a lançar bombas para destruir a trilha no Laos.

Era possível tornar mais eficiente a ação contra os guerrilheiros vietnamitas que utilizavam a rilha Ho-Chi-Minh.

O fato de grande parte dela passar por florestas sob a proteção de folhagens de árvores dificultava a visão dos pilotos.

Muitas vezes eles não achavam o alvo e eram obrigados a voltar carregando bombas. Para evitar problemas de segurança na aterrissagem, eles as descartavam no percurso pelo Laos.

Não era uma boa.

A solução encontrada foi esparzir herbicidas nas áreas da trilha, 540 mil litros deles, contendo dioxina, o chamado Agente Laranja, que destruía as folhagens. E deixava os caminhões e soldados que passavam por lá mais expostos às bombas americanas.

Claro, também destruía plantações, o que era muito bem visto pois ajudava a reduzir as reservas de alimentos das forças do Vietcong e do Vietnam do Norte.

Mais grave é que o agente laranja, contido nos herbicidas usados, provocou nos habitantes do país enfermidades irreversíveis, como malformações congênitas, câncer e síndromes neurológicas, entre outras doenças.

Christopher Busby, Secretário do Comitê Europeu Sobre Riscos de Radiações, notou que, embora não tivesse sido projetado para matar pessoas, o agente laranja “…produzia efeitos colaterais muito graves e eles (os americanos) não o deveriam ter usado, pois deveriam estar a par desses efeitos. Pelo menos, quando o usaram deveriam ter constatado esses efeitos e deveriam ter parado de usá-lo imediatamente. Mas, não pararam. ”

Que os EUA tinham consciência de estarem agindo mal é provado por manterem essa operação secreta.

Tudo só foi revelado em 1982, através da Lei de Liberdade de Informação, invocada por um pesquisador.

Pelo menos neste século, a postura de Washington tem sido diferente.

Nos últimos 10 anos, os EUA contribuíram com 100 milhões de dólares para o trabalho de localizar e desativar as bomblets.

Obama achou pouco. Resolveu multiplicar essa ajuda por três: serão 90 milhões de dólares em três anos.

Acho que ainda é pouco considerando que os EUA cada ano fornecem ao poderoso exército de Israel 1 bilhão de dólares os mais atualizados armamentos. E já torraram 1,4 bilhão de dólares no bombardeio do Estado Islâmico.

Mas Simon Rea, diretor do Mines Advisory Group, ficou feliz com o gesto presidencial.

Ele falou à BBC, em Ventiane, capital do Laos: “Antes do anúncio do presidente, eu temia que levaria centenas de anos para eliminarmos todas as bombas fragmentárias. Agora, estou otimista, isso pode ser reduzido para dezenas de anos. ”

Ou estaria sendo irônico?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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